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A incerteza das mudanças climáticas

Este artigo foi escrito por Stefanie Tye e Juan-Carlos Altamirano e publicado originalmente no WRI Insights.

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As pessoas ficam naturalmente perplexas diante da incerteza. Quando uma decisão difícil é iminente, algumas apoiam-se em evidências e fatos, estatísticas e gráficos, probabilidades e dados. Outras buscam a espiritualidade. Quando nada disso adianta – e as dúvidas só aumentam –, as pessoas podem cair no estado de indecisão.

A incerteza está por todo lado. Revela-se em um tsunami, uma crise econômica mundial causada por uma bolha financeira, no colapso de determinado ecossistema pela perda de uma espécie, na surpreendente vitória de um candidato à presidência de um país. O inesperado se mostra o tempo todo e estamos normalmente despreparados para lidar com eventos-surpresa – e como eles podem afetar a sociedade, o meio ambiente, a economia e o cotidiano.

Isso também acontece com as mudanças climáticas. É certo que acontecem e são impulsionadas por fatores humanos, mas sua natureza complexa torna menos claro quais serão os impactos – quando e onde acontecerão ou em qual intensidade. A incerteza das políticas climáticas futuras, a emissão de gases do efeito estufa, os circuitos complexos de feedbacks socioeconômicos e do clima e os pontos de inflexão desconhecidos dificultam ainda mais nossas projeções.

Mas isso não significa que não podemos – ou não devemos – agir para tentar reduzir o risco. Na verdade, seria desastroso se ficássemos parados. De certa maneira, a incerteza científica sempre existirá sobre qualquer problema complexo, o que inclui a mudança do clima. Ao invés de cruzarmos os braços ante uma indecisão, é importante compreender a incerteza, abraçar o desconhecido e mover-se com uma ação ambiciosa.

A complexidade torna nosso futuro incerto

Dito de forma simples, a incerteza científica é a falta de conhecimento exato, independentemente do motivo para ela existir.

Nossa compreensão de intrincados fenômenos naturais e a consequência de nossas ações no meio ambiente ainda é um trabalho que está em andamento. No ano passado, o gelo no Ártico recuou muito além do que os modelos previram, estabelecendo novos mínimos históricos. E o gelo no Ártico não dá sinal de voltar ao normal. Um evento como esse tinha menos de 4,4% de probabilidade de acontecer.

<p>A cobertura de neve este ano é de mais de 2 desvios-padrão abaixo da média (Foto: National Snow & Ice Data Center)</p>

A cobertura de neve este ano é de mais de 2 desvios-padrão abaixo da média (Foto: National Snow & Ice Data Center)


A perda do gelo no Ártico é um exemplo da chamada incerteza da complexidade. Os efeitos interdependentes dos padrões de vento, do ar e das superfícies com temperaturas mais quentes e do aumento e aquecimento dos mares contribuem, de uma forma ou de outra, para o derretimento do gelo no mar. Este tipo de incerteza é inerente aos fenômenos complexos e dinâmicos que interagem com múltiplos sistemas e fatores interdependentes, sejam eles conhecidos ou não. O mercado de ações é outro exemplo. Lacunas sempre existirão ao tentar analisar as camadas de interações próprias do mercado de ações. Além disso, a possibilidade de ultrapassar limites e pontos de inflexão, sem saber quando acontecerão ou o que implicam, aumenta a incerteza.

A incerteza do déficit leva ao desastre

A incerteza do déficit é outro tipo de incerteza científica.

Em março de 2011, o Japão sentiu a terra tremer mais forte do que nunca – e não no exato local em que os geólogos previram. Em poucos minutos, uma onda gigantesca ultrapassou o que todos acreditavam ser uma barreira de mar insuperável. O tsunami sobrecarregou os geradores de refrigeração de emergência de uma usina nuclear em Fukushima, causando explosões e um colapso radioativo como o mundo não via desde o acidente de Chernobyl.

O desastre nuclear foi rotulado de “cisne negro”, uma ocorrência de difícil previsão que resulta de uma série de eventos que todos acreditavam ser impossíveis. Os sofisticados projetos de emergência de Fukushima foram testados rigorosamente contra terremotos que atingissem 7.9 graus na escala Richter. Ninguém pensara que terremotos acima dessa intensidade fossem possíveis para aquela região japonesa. No entanto, Fukushima registrou um terremoto de 9 graus na escala Richter no dia do desastre. As barreiras marítimas, também consideradas proteção suficiente até o tsunami, foram construídas anos antes. A incerteza do déficit – resultado da falta de modelos precisos, ignorância, parcialidade e erros de medição – foi preponderante no caso de Fukushima.

Incerteza profunda das mudanças climáticas

Quando as incertezas do déficit e da complexidade andam juntas, elas criam aquilo que se chama de incerteza profunda ou em cascata, duplamente perigosa e difícil de prever. No campo da mudança do clima, repleto de fatores socioecológicos e sistemas interdependentes e de desconhecimentos sabidos e outros ignorados, abunda a incerteza profunda. A tentativa de limitar o carbono a 400 partes por milhão (ppm) é um exemplo porque o ponto de inflexão na direção de consequências irreversíveis pode vir muito antes do limite estabelecido pelo homem – que, diga-se, foi superado de forma permanente em setembro de 2016.

Mesmo com a melhor ciência e informação, o futuro – especialmente quando se trata de mudanças climáticas e da ameaça ocasionada pelos seus efeitos multiplicadores – muitas vezes permanece altamente incerto e, portanto, imprevisível.

Agora, a incerteza não significa que não podemos estar preparados da melhor forma possível. O primeiro passo é perceber a incerteza que está por toda parte e, em vez de afastá-la, trazê-la para perto e enfrentá-la de frente.

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Na próxima semana, apresentaremos o segundo post desta série, que ajuda a mostrar como pesquisadores e legisladores podem agir de forma propositiva em um estado de incerteza.

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