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Como um negócio local pode ajudar na restauração e conservação da Caatinga

Leia o primeiro post sobre a 'fábrica dos sonhos no sertão da Bahia' aqui.

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A fábrica Delícias do Jacuípe, com sede em Pintadas, a 300 quilômetros da capital baiana, é um exemplo de como o engajamento comunitário de sertanejas e sertanejos pode promover o desenvolvimento rural sustentável e a restauração e conservação da Caatinga.

Em operação desde dezembro de 2016, a unidade fundada e mantida por lideranças femininas da Cooperativa Ser do Sertão produz polpa de fruta congelada na região semiárida do Nordeste – inclusive com espécies nativas do bioma – e desvirtua a chamada 'indústria da seca’ ao manter o produtor rural no sertão e oferecer oportunidades de geração de renda para agricultores familiares de Pintadas (BA) e os outros 13 municípios situados na Bacia do Rio Jacuípe (veja no mapa abaixo).

A ideia da fábrica comunitária surgiu de um grupo de mulheres agricultoras locais, que buscou alternativas para o fruto do umbuzeiro, árvore típica das caatingas nordestinas e que está presente nas propriedades rurais da região. Elas estão criando oportunidades para melhorar a vida no sertão, desenvolver a agricultura familiar e encontrar novas formas de produção que gerem renda.

Das 11 mil pessoas que vivem em Pintadas, metade está na área rural. O município está entre os 20 com menor arrecadação na Bahia e tem um índice de desenvolvimento humano (IDH) baixo, de 0,625. Em toda a Caatinga, são cerca de 27 milhões de pessoas.

“Tinha umbu desperdiçado no campo. As mulheres se deram conta que [a fruta] podia ser aproveitada. O umbu não tinha valor [comercial na região], mas ‘umbu é bom’, a gente dizia. A população então resolveu fazer alguma coisa com ele”, conta a agricultora Nereide Segala. Natural de Passo Fundo (RS) e mãe de três filhos, Nereide reside em Pintadas (BA) desde 1987 e é uma das conselheiras da Cooperativa Ser do Sertão.

Mapa dos 14 municípios da Bacia do Rio Jacuípe, na Bahia (Fonte: Google Maps)

A comunidade faz a força

A intenção dessas mulheres pioneiras levou mais de uma década para se converter em um movimento capaz de dar o pontapé inicial para a transformação da economia local. Em 2015, a parceria entre diferentes organizações da sociedade civil (WRI Brasil, Rede de Desenvolvimento Humano – REDEH e a Cooperativa Ser do Sertão) contribuiu com a regularização da indústria comunitária de produção de polpa de frutas Delícias do Jacuípe.

Com apoio de organizações públicas e privadas, a cooperativa viabilizou os investimentos necessários para colocar a fábrica em funcionamento. Além do umbu, a indústria processa polpas de umbu-cajá e maracujá-da-Caatinga, frutas nativas do bioma, e acerola, manga, goiaba, e, em escala um pouco menor, o cupuaçu e a seriguela. Ao transformar os frutos produzidos pela agricultura familiar local em polpa, a fábrica valoriza a produção agroecológica do sertão baiano.

Em junho de 2015, o WRI Brasil iniciou o estudo “A contribuição de conhecimento agroecológico local para a adaptação às mudanças climáticas e à restauração da Caatinga”.

O engajamento social na Bacia do Rio Jacuípe tem sido fundamental para o desenvolvimento local

A pesquisa foca o conhecimento de produtoras e produtores locais sobre as espécies nativas e a oportunidade de incentivar práticas agroflorestais com espécies nativas e incorporar esses saberes nos sistemas produtivos das propriedades rurais da região, contribuindo para a restauração e conservação da Caatinga.

Entender as práticas agroflorestais que já acontecem na Caatinga permite gerar conhecimento sobre a produção de alimentos em uma região de baixa disponibilidade hídrica. Tal fato contribui para o estabelecimento de planos de negócios viáveis a longo prazo e, consequentemente, a geração de renda com base na produção de frutas oriundas de espécies nativas em um bioma sensível aos cenários de mudanças climáticas.

Além disso, a iniciativa não pretende substituir as atividades tradicionais, mas oferecer uma oportunidade complementar oriunda do aproveitamento das frutíferas até então desvinculada do uso comercial.

O Caminho da Polpa

Da roça à câmara fria, acompanhe o caminho da fruta até ser processada e congelada (Fotos: Luiz Fernando Ricci e Aurelio Padovezi/WRI Brasil)

Fruta da Caatinga: viável e sustentável economicamente

O resgate do conhecimento tradicional aliado às tecnologias de produção agroecológica pode ser uma oportunidade para gerar renda à população, resistência da cultura sertaneja, adaptação às mudanças climáticas, restauração e conservação da Caatinga.

Apesar de agricultoras e agricultores serem os maiores detentores do conhecimento ecológico e agroflorestal na Caatinga, há grande desconhecimento sobre o potencial econômico da flora nativa – especialmente as frutíferas.

“Tem quem diga que ‘é só pé de umbu’, que não é frutífera”, destaca a presidente da Cooperativa Ser do Sertão, Valdirene Santos. Pela falta de produção organizada em quantidade, a região de Pintadas (BA) não aparece nas estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como de fruticultura. Configura-se apenas como tímida produtora de hortaliças e criação de bovinos e caprinos.

Enquanto nos outros biomas brasileiros a perda de vegetação nativa foi acompanhada pela expansão agrícola, na Caatinga a área agrícola encolheu quase 2 milhões de hectares nos últimos 15 anos, ao mesmo tempo em que cerca de 4 milhões de hectares foram desmatados. Tal perda, agravada pela ausência de compensação produtiva é notável, especialmente por se tratar da floresta semiárida com maior biodiversidade do planeta e que ocupa 11% do território nacional, ou 844 mil quilômetros quadrados.

Cerca de 4 milhões de hectares foram desmatados da Caatinga desde 2002

Nesse processo, a fruticultura também mudou. Nos últimos 25 anos, a diversidade na produção de frutas em todo o país foi sendo substituída pela especialização na produção de, principalmente, melancia e abacaxi. No Nordeste, não foi diferente. O desmatamento fragmentou a disponibilidade de árvores frutíferas nativas na ‘mata branca’ – Caatinga, do tupi. Hoje, os frutos se espalham em áreas conservadas, degradadas e devastadas.

Como as frutas nativas se tornaram escassas, o preço pago ao produtor rural vem aumentando desde 1995. O cenário abre uma oportunidade para a exploração dos frutos endêmicos da Caatinga, seja na agricultura ou na pequena agroindústria.

Para que a fábrica tenha lucratividade, o fornecimento de frutas na Bacia do Rio Jacuípe precisa ser expandido. Mais pomares produtivos da Caatinga necessitarão ser estabelecidos em Pintadas e arredores. O aumento da matéria-prima também diminuirá a alta concorrência regional, hoje concentrada em poucos agricultores familiares.

Preço pago ao produtor pela fruta nativa cresce no Brasil desde 1995 (Fonte: Sidra/IBGE 2017)

Preço pago ao produtor pela fruta nativa cresce no Brasil desde 1995 (Fonte: Sidra/IBGE 2017)

A fruticultura nativa adaptada à mudança do clima

A produção de frutas de espécies nativas pode colaborar para a manutenção da biodiversidade da Caatinga, um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da ONU. Impulsionar a restauração desse bioma é possível, mas é difícil, trabalhoso e caro. Logo, é importante que os modelos de restauração gerem ganhos para a conservação da biodiversidade e, também, ganhos econômicos e sociais.

Uma estratégia eficiente neste sentido é a agroflorestal, que incorpora práticas e saberes locais e introduz plantas nativas multifuncionais no sistema produtivo. Estes sistemas demonstraram ser mais resilientes e adaptados à mudança do clima e oferecem uma maior diversidade de produtos, garantindo maior segurança alimentar às populações em situação de risco climático.

De acordo com a 12ª edição do The Global Risks Report, produzido pelo Fórum Econômico Mundial, eventos climáticos extremos estão no topo da lista de riscos para o planeta em termos de probabilidade e impacto.

De 17 a 19 de abril, agricultoras, agricultores e estudantes secundaristas receberam treinamento e foram conscientizados em Pintadas (Foto: Aurelio Padovezi/WRI Brasil)

De 17 a 19 de abril, agricultoras, agricultores e estudantes secundaristas receberam treinamento e foram conscientizados em Pintadas (Foto: Aurelio Padovezi/WRI Brasil)

A região Nordeste, onde se localiza a Bacia do Rio Jacuípe, é considerada uma das regiões mais vulneráveis social, econômica e ambientalmente. Estudos recentes conduzidos na bacia alertam para o fato de que a precipitação pluviométrica diminui desde 1962. Períodos sem chuvas são recorrentes e deixam a terra arrasada, a vegetação seca e os animais magros.

Precipitação pluviométrica diminui na Bacia do Rio Jacuípe desde 1962

A região enfrenta atualmente a maior seca em 100 anos. Os últimos 16 anos foram os mais quentes da história. Segundo as análises do Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC), eventos climáticos extremos tendem a se intensificar à medida que a temperatura do planeta aumenta.

A consequência para a vida de sertanejas e sertanejos é a constante necessidade de preparação para enfrentar a seca sob pena de sofrer as consequências das mudanças climáticas.

A pesquisa em desenvolvimento pelo WRI Brasil mostra que a fábrica pode ser um motor de restauração e conservação da Caatinga uma vez que estiver em pleno funcionamento e com frutas abastecendo a linha de produção.

Umbu: Para Euclides da Cunha, “é a árvore sagrada do sertão”. A fruta, de sabor agridoce e rica em vitamina C, é consumida in natura e em polpa do Ceará ao norte de Minas Gerais (Foto: Mariana Oliveira/WRI Brasil)

Umbu: Para Euclides da Cunha, “é a árvore sagrada do sertão”. A fruta, de sabor agridoce e rica em vitamina C, é consumida in natura e em polpa do Ceará ao norte de Minas Gerais (Foto: Mariana Oliveira/WRI Brasil)

Mulheres do Sertão

O engajamento social é histórico na Bacia do Rio Jacuípe. E as mulheres sertanejas desempenham um papel fundamental na cadeia de produção agroecológica local, atuando como líderes no cooperativismo, na adoção de práticas agroecológicas, na fruticultura e na articulação das comunidades rurais.

A agroindústria de polpa de frutas busca fortalecer o empreendedorismo feminino e a capacidade de inovação no sertão. As mulheres idealizaram a criação da fábrica, fazem a gestão atual, tomam as decisões, buscam os recursos para financiar as ações e usufruem do que ajudam a gerar e ainda são a mão de obra na colheita e no transporte para o fornecimento de frutas à fábrica.

No último ano, elas conseguiram regularizar o estabelecimento junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e também registrar seis tipos de polpas passíveis de serem produzidas na unidade.

A polpa de fruta é consumida na merenda de diversas escolas e estabelecimentos de Pintadas e região. A perspectiva é aumentar a área de abrangência da comercialização dos produtos.

As mulheres do sertão da Bahia ensinam que esse novo mundo, em que todos nós estamos inseridos, exige adaptação, e que para viver é necessário produzir e ao mesmo tempo conservar.

O 28 de abril foi instituído como o Dia Nacional da Caatinga.

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