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Um Olhar Sobre as Florestas e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

Este artigo foi escrito por Frances Seymour e Jonah Busch, traduzido e adaptado por Mauricio Boff e publicado originalmente no WRI Insights.


Como as florestas contribuem para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)? Como argumentamos em nosso livro, Why Forests? Why Now? (ainda sem tradução para o português), as florestas são um ativo por vezes negligenciado e subvalorizado na luta para atingir esses objetivos. Abaixo, explicamos o porquê.

Como a floresta contribuiu para os ODS

Boa parte das pessoas sabe como os produtos florestais contribuem para o bem-estar e qual é o papel dos serviços florestais para o cumprimento dos objetivos globais. Frutas silvestres, castanhas, nozes e cogumelos são fontes de dieta alimentar (ODS 2). Plantas medicinais são frequentemente o primeiro recurso para o tratamento de doenças (ODS 3). Produtos florestais fornecem mais de 20% da renda doméstica de famílias locais (ODS 1). Florestas tropicais protegem a maior parte da diversidade biológica terrestre do planeta (ODS 15). Além disso, as florestas são um meio seguro e natural para capturar e armazenar carbono. Logo, elas são reconhecidas cada vez mais como essenciais para qualquer estratégia que busque estabilizar o clima (ODS 13).

Como o Desmatamento Enfraquece os ODS

Os serviços ecossistêmicos baseados na floresta que são menos visíveis acabam desconsiderados como importantes para os objetivos de desenvolvimento sustentável. E o desmatamento prejudica o desempenho dos ODS.

Tentativas foram feitas para mobilizar bens e serviços florestais como um caminho para que comunidades rurais saíssem da linha da pobreza, mas não foi dada a devida atenção para o desmatamento como um vetor de empobrecimento. A conversão de florestas para outros usos do solo elimina a geração de renda oriunda dos produtos florestais e deixa as paisagens menos resistentes a deslizamentos de terra, inundações e outros desastres naturais — eventos que podem prejudicar a infraestrutura erguida com tijolos e argamassa (ODS 11) e impedir o crescimento da renda por décadas (ODS 1).

O desmatamento também afeta a produtividade agropecuária, uma atividade-chave para acabar com a fome no mundo (ODS 2). Aves, morcegos e abelhas fazem a polinização essencial nas florestas e permitem o controle de pragas. As bacias hidrográficas que mantêm suas florestas em pé fornecem água para irrigação e ajudam no equilíbrio do habitat aquático de peixes de água doce, que alimentam milhões de pessoas. A perda da cobertura florestal também afeta o ciclo da água, ameaçando secar os "rios voadores” que transportam o vapor d'água que provém da transpiração da floresta e precipitam como chuva em lavouras distantes.

Além disso, o desmatamento elimina serviços hidrológicos vitais para as florestas, que dão suporte extra aos ODS. Sem árvores e arbustos para fazer a filtragem da água suja, patógenos e poluentes se espalham, causando doenças (ODS 3 e 6). A destruição das florestas também pode prejudicar a saúde respiratória: pesquisadores estimaram que a fumaça dos incêndios catastróficos na Indonésia, em 2015, estava carregada de partículas, resultando em mais de 100 mil mortes prematuras. O desmatamento também tem sido associado ao aumento de casos de malária.

Ao remover barreiras naturais devido à erosão, o desmatamento ameaça o acesso à energia limpa (ODS 7), acelerando a sedimentação nos reservatórios de hidrelétricas. A sedimentação na barragem de Péligre, no Haiti, por exemplo, cortou pela metade o consumo de eletricidade no país entre 1990 e 2010.

O papel das florestas no avanço do objetivo relacionado à “Vida Terrestre" (ODS 15) é evidente, mas a maioria das pessoas ficaria surpresa com as contribuições delas para a "Vida na Água" (ODS 14). Os manguezais servem como berçários para peixes marinhos que vivem em zonas costeiras e também em alto-mar. A perda de florestas no delta do Rio Mekong, no Vietnã, foi acompanhada de redução na atividade pesqueira. Além disso, as florestas funcionam como um tipo de "dreno" para o carbono que, de outra forma, contribuiria para a acidificação dos oceanos.

A Proteção das Florestas Pode Ampliar o Alcance dos ODS

A boa notícia é que reduzir o desmatamento pode melhorar a equidade e os mecanismos de prestação de contas. Apesar de diversos casos desatualizados de conservação e exploração de floresta — que causam danos aos povos vulneráveis —, abordagens progressistas recentes sobre a proteção de florestas podem contribuir, e até mesmo levar a um estágio superior, os objetivos de desenvolvimento sustentável.

Tome o objetivo “Igualdade de Gênero” (ODS 5) como exemplo. Reconhecer o valor não-madeireiro das florestas como importante fonte de geração de renda e emprego para as mulheres — como coleta e processamento de frutas, castanhas e resinas — pode reduzir o risco do aumento da desigualdade de gênero. Isso acontece porque o uso da terra e as árvores são tradicionalmente associados como importantes para os homens.

A diminuição do desmatamento pode promover melhorias nas estruturas de governança e justiça social (ODS 16). Instrumentos políticos nacionais e internacionais (REDD+) contribuíram para que comunidades indígenas — cuja presença é associada a uma maior probabilidade de conservação da cobertura florestal e cujos territórios detêm mais de 20% do carbono em florestas tropicais — defendessem com êxito um maior reconhecimento de seus direitos. O governo da Indonésia, por exemplo, passou a reconhecer como territórios legais os que não estavam devidamente regulamentados.

O desmatamento é frequentemente associado à corrupção e à violência. Os esforços bem-sucedidos para enfrentá-lo dependem do aumento da transparência e da imposição do estado de direito. O sucesso do Brasil em reduzir o desmatamento na Amazônia em cerca de 80% de 2004 a 2014 baseou-se, em parte, na melhoria da tecnologia de monitoramento da cobertura vegetal. Isso fortaleceu a aplicação da lei brasileira contra o desmatamento ilegal e ajudou a processar legalmente funcionários públicos corruptos.

A Floresta Reformulada

Toda essa história deixa algo muito claro: se você se preocupa com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), olhe com atenção para as florestas. As contribuições das florestas não se limitam aos meios de subsistência locais e às metas climáticas e ambientais globais. Zerar o desmatamento contribui para muitos outros objetivos de desenvolvimento. As políticas setoriais e financeiras que foram postas em marcha para que seja possível alcançar os ODS não podem deixar de lado as florestas do planeta.

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