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O papel do setor industrial nas emissões de energia do Brasil

Sabendo que o Brasil tem o compromisso de reduzir suas emissões de gases do efeito estufa (GEE) em 37% até 2025 e em 43% abaixo dos níveis de 2005 até 2030 (ambos em relação aos níveis de 2005, conforme metas presentes na Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil), qual o papel do setor industrial para a redução das emissões?

O último relatório de Balanço Energético Nacional (BEN) disponibilizado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) – responsável por estudos e pesquisas destinados a subsidiar o planejamento do setor energético no Brasil – sinaliza que 33% do consumo nacional de energia se dá no setor industrial e 32,4 % no setor de transporte, sendo ambos os mais significativos quanto ao consumo de energia.

Apesar do consumo elevado, o setor industrial brasileiro conta com uma grande vantagem comparativa em relação aos demais países industrializados, que reside no fato de empregar grandes quantidades de energia de origem renovável, como o bagaço de cana, o licor negro (da produção de celulose) e outras biomassas, que alcançam juntos mais de 40% do consumo total de energia do setor, segundo a EPE. Afora isso, a energia elétrica, que representa 20% do consumo total da indústria, é 75% provida por fontes de energia renovável (hidráulica, biomassa e eólica).

De qualquer maneira, por ainda empregar fontes de energia fóssil e também operar processos emissores de GEE em algumas atividades fabris, o setor industrial brasileiro é parte fundamental das discussões sobre mudanças climáticas. Os últimos inventários nacionais de emissões, produzidos pelo o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, mostram que o segmento de uso da terra, mudança do uso da terra e florestas é o principal responsável em termos de quantidade de emissões no país. No entanto, outros setores vêm ganhando maior relevância, como o energético, que em 2010 representou 47% das emissões nacionais, tornando-se um dos principais setores neste quesito em âmbito nacional.

No setor de energia, o subsetor indústria é o segundo mais representativo em termos de geração de poluentes, com 20% das emissões totais do mesmo, sendo superado somente pelo setor de transporte, que é responsável por 48% do total. Os dados mostram a relevância que a indústria no Brasil apresenta quanto ao consumo energético e as emissões de GEE. A partir deles é possível propor rotas e alternativas que o setor poderia tomar para minimizar seus impactos no futuro.

Inovação como motor para ganhos ambientais

A definição de cenários de demanda energética para a indústria enfrenta algumas incertezas dada a alta diversidade e complexidade dos processos industriais e as influências diretas e constantes do mercado interno e externo. Para sanar isso, são publicados cenários corrigidos e atualizados periodicamente, agregando novos fatores e realizando ajustes, para dar maior precisão às curvas projetadas.

Algumas projeções, como as realizadas pela EPE no Plano Nacional de Energia 2050, preveem um aumento na demanda de energia considerando um cenário de crescimento de 2,2% ao ano no país. A EPE prevê que a indústria irá reduzir sua participação no PIB nacional até o meio do século e esse fato influencia no consumo energético a longo prazo. Também se estima um crescimento da indústria impulsionado pela construção civil, graças a obras de infraestrutura tais como rodovias e portos, de grande importância para subsidiar o crescimento econômico esperado.

A EPE considera também que, com a evolução tecnológica, as formas de produção devam se tornar mais eficientes em termos energéticos e de escolha dos materiais, reduzindo o uso ou substituindo os insumos, seja por escassez, competitividade ou inserção de novas tecnologias. A eficiência energética global poderia reduzir em cerca de 18% a demanda de energia em 2050, segundo o plano.

Projeções realizadas por outros estudos também indicam um potencial de redução nas emissões de dióxido de carbono (CO2) no setor industrial brasileiro através de medidas como eficiência energética, reciclagem de materiais, ampliação do uso do gás natural (em substituição às fontes fósseis mais emissoras), maior emprego de fontes renováveis, cogeração de energia, e eliminação da biomassa proveniente de desmatamentos. Esse conjunto de oportunidades poderia gerar uma redução de emissões em torno de 131,3 milhões t CO2 em 2030, equivalente a 39,9% das emissões projetadas para aquele ano. No período de 2010 a 2030, as emissões totais evitadas alcançariam 1,536 bilhões de t CO2.

Diversas formas de redução de emissões de GEE, principalmente aquelas associadas à eficiência energética, podem gerar um retorno financeiro atraente para investidores, ou seja, são alternativas que trazem um resultado rápido e boas taxas de retorno. Além disso, em diversas situações, projetos voltados ao uso de energia solar térmica, reciclagem, substituição de combustíveis por gás natural, uso eficiente de energia e cogeração podem apresentar custos negativos de abatimento por tonelada de CO2 emitido, reforçando esse panorama econômico.

Importante ressaltar que tecnologias disponíveis comercialmente, já empregadas em muitas empresas, têm boa rentabilidade econômica atestada. Outras, mais complexas e custosas, ou ainda não comerciais, poderiam ter implementação a médio prazo, conforme a evolução dos preços da energia e de um mercado de carbono. Contudo, o mais interessante é que muitas dessas tecnologias podem se tornar atraentes economicamente, não propriamente pela economia de energia que poderiam proporcionar, mas por possibilitar outros ganhos correlacionados, como aumento de produtividade, melhoria na qualidade de produtos e redução de perdas, vetores que ajudam no resultado econômico final dos empreendimentos.

A questão é urgente. Apesar das iniciativas que vêm sendo conduzidas e dos planos em discussão, recente apresentado pelo Centroclima compara as emissões no cenário de cumprimento das NDCs do Brasil até 2050 com as emissões necessárias para atender o limite de aquecimento global em 1,5°C – o cenário mais positivo previsto no Acordo de Paris. No caso do setor industrial, o levantamento conclui que as metas das NDCs ainda estariam 24% abaixo do que seria necessário para atender esse cenário até 2050. O caso da indústria dá uma clara indicação de que é preciso fazer mais do que já foi proposto.

Novas oportunidades com a indústria 4.0

Atualmente, o tema da Indústria 4.0 tem gerado grande interesse como forma de otimizar a produção e aumentar a produtividade das empresas, considerando conceitos como Big Data e Internet das Coisas. Do total das indústrias brasileiras, apenas 58% conhecem a importância das tecnologias digitais no contexto de competitividade da indústria e menos da metade as utiliza, segundo pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Das empresas que se utilizam desses conceitos, 73% adotam pelo menos uma tecnologia relacionada ao processo de produção, visando aumentar eficiência e produtividade.

O tema da indústria 4.0 vem recebendo destaque e se tornado pauta de discussões relacionadas à redução de emissões. A 23ª Conferência das Partes (COP 23) da Convenção do Clima realizada em 2017 em Bonn, na Alemanha, organizou o “Dia da Indústria” para tratar como o setor pode ser uma força propulsora para a redução de emissões de GEE.

Apesar de ser uma vertente da tecnologia que vem sendo desenvolvida recentemente, iniciativas como a da CNI e o destaque dado à pauta na COP 23 incentivam que mais setores da indústria melhorem seus processos com ganhos ambientais. Contudo, paralelo a todo o desenvolvimento tecnológico observado, é necessário que a aplicação dos conceitos seja em maior escala.

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