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A agropecuária brasileira tem um futuro sustentável pela frente, mas precisa acelerar na modernização

A agropecuária brasileira é um dos setores mais impactantes na economia do país, gerando riquezas, produzindo e exportando alimentos. Ainda assim, representa um dos setores que mais emitem gases de efeito estufa (GEE) e que resultam em outras externalidades ambientais negativas no Brasil, apresentando relevantes potenciais para incremento de técnicas de produção ambientalmente sustentável.

Uma visão de um setor agropecuário moderno e sustentável é possível. Um exemplo foi divulgado pela Embrapa, a empresa de pesquisa ligada ao Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), em um relatório onde mostra que é possível modernizar o setor, evitando o impacto nos ambientes naturais, restaurando florestas e reduzindo as emissões de gases de efeito estufa.

Para projetar como será a agricultura brasileira em 2030, a Embrapa tomou como base grandes tendências que o setor já vem passando. Uma delas é a intensificação da produção agropecuária. A Embrapa argumenta que a agricultura viu um importante aumento na produtividade nas últimas décadas, mas que ainda há “vastas áreas de produção com baixo rendimento” no país. Outros estudos comprovam essa afirmação, como por exemplo uma pesquisa publicada na revista científica Global Environmental Change mostrando que a produtividade da agropecuária pode dobrar apenas utilizando áreas de pastagens já existentes. Com tecnologia e formas mais sustentáveis de se organizar a produção, é possível produzir mais em menos hectares, reduzindo a necessidade de abertura de novas áreas para pastagens e deixando as florestas livres de pressão.

Outra tendência é pela restauração e uso das áreas degradadas. Só no Cerrado brasileiro, a área de pastagem degradada soma 20 milhões de hectares. O que hoje está degradado representa um grande potencial para restaurar a paisagem e permitir a produção, por exemplo, em sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e sistemas agroflorestais (SAF).

Essas tendências, se seguirem adiante, contribuirão para que a nossa agricultura resolva um problema que já estamos enfrentando: produzir mais alimentos sem aumentar a degradação ambiental. Um relatório do WRI estima, por exemplo, que a demanda mundial por alimentos deve aumentar em 69% até 2050. Produzir de forma eficiente e sustentável é o melhor caminho para garantir a oferta reduzindo os impactos no meio ambiente e recursos naturais.

Os primeiros passos para que a visão se torne realidade

Essa visão sustentável não sairá do papel sozinha. Produtores, empresas e governos precisam começar a trabalhar para dar escala aos casos de desenvolvimento sustentável, para que, no final da próxima década, o setor se torne referência de sustentabilidade. Os primeiros passos já estão sendo tomados, ainda que lentamente. Produtores já podem mensurar os impactos das suas atividades no clima. A agropecuária é, hoje, o segundo maior emissor de gases de efeito estufa do país. Segundo o Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), a agropecuária foi responsável pela emissão de quase 500 milhões de toneladas de gases de efeito estufa em 2016, o que representa 22% de todas as emissões do país. É o segundo setor que mais emite, só perdendo para o setor de mudança do uso do solo, que representa o desmatamento. Reduzir esse impacto é parte importante do desafio de tornar nosso agronegócio sustentável.

Algumas organizações globais têm trabalhado na criação de ferramentas para mensuração das emissões de GEE. O GHG Protocolo Agropecuário é uma ferramenta criada pelo WRI Brasil com a parceria da Embrapa e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Com o GHG Protocolo, os produtores podem colocar seus números de rebanho, produção e área de lavoura, e a ferramenta calcula a geração de gases de efeito estufa decorrente de sua produção. Essa informação pode ser usada para que agricultores e pecuaristas entendam onde podem melhorar a eficiência de suas atividades e, assim, implementar a gestão das emissões.

Também é interessante verificar o papel de outro elo da cadeia de produção na sustentabilidade da agropecuária: os consumidores. Há uma tendência internacional de que eles assumam o protagonismo, exigindo alimentos sustentáveis, produzidos localmente, com baixa pegada de carbono e baixo uso de recursos hídricos. O WRI pesquisa, globalmente, qual o papel que uma mudança nas dietas da população, com redução por exemplo do consumo de carne ou de alimentos ultraprocessados, pode ter na redução dos impactos ambientais.

Mudar pode trazer benefícios. Não mudar, riscos

Esses primeiros passos e tendências já estão acontecendo, mas estamos em um momento em que precisamos escolher que visão de futuro queremos seguir. Se a nossa sociedade não assumir uma visão de sustentabilidade, o risco para a agricultura é grande.

Segundo a Embrapa, a maioria dos cenários de aumento das médias de temperatura global provocado pelas mudanças climáticas pode colocar o setor em uma situação de vulnerabilidade. Todas as regiões do Brasil enfrentarão temperaturas que podem comprometer a produção, com destaque para a região Centro-Oeste. Se o Brasil vivenciar um aquecimento global de 3 graus Celsius, pode sofrer com uma redução da produção agrícola de até 50%.

Em contrapartida, trazer a sustentabilidade para o mundo agrícola pode gerar grandes benefícios. Ela pode abrir as portas para inovações tecnológicas que aumentem produção de alimentos, gerem emprego e renda no campo e protejam nossos recursos naturais, como florestas e água. Esperando resultados tão promissores, é preciso acelerar as medidas que, no momento, ainda são tímidas, mensurando as emissões de gases de efeito estufa, desenvolvendo e aplicando técnicas sustentáveis e resilientes de produção e se preparando para criar o agronegócio que queremos no futuro.

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