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Parte do problema e da solução, setor de transportes tem potencial para reduzir emissões

Um ciclo comum a muitas cidades brasileiras: a população urbana cresce, o transporte coletivo não comporta a demanda com um serviço de qualidade, o número de passageiros cai, aumentam os deslocamentos e a frota de automóveis e os níveis de emissões sobem. A manutenção desse cenário tende a agravar as condições já não tão promissoras da mobilidade – e da poluição – nas áreas urbanas brasileiras. Mas há oportunidades para reverter essa tendência.

O novo relatório do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), desenvolvido em parceria com o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) e publicado no fim de junho pelo Observatório do Clima, traz análises sobre as emissões do setor de energia no Brasil – e aponta caminhos para reduzi-las.

Entre os campos avaliados por esse estudo (atividades de transportes, geração de energia elétrica, indústria e produção de combustíveis), o setor de transportes é o principal emissor: foi responsável, em 2016, pela emissão de 204 MtCO2e (ou 39% do total das emissões naquele ano). Contribuem para essa soma os modos aéreo (5% das emissões), ferroviário (1%), hidroviário (1%) e o rodoviário, que responde pela maior parcela: 92% das emissões de gases do efeito estufa (GEE).

Se, por um lado, essas informações deixam clara a gravidade do problema, por outro também evidenciam o significativo potencial de redução de emissões a partir de medidas e políticas que ajudem a diversificar os modos utilizados, seja no transporte de cargas ou de passageiros.

Em relação ao último, o uso cada vez mais intensivo do transporte individual motorizado é um dos principais fatores que contribuíram para o ritmo acelerado do crescimento das emissões de GEE no país:

(Fonte: Relatório SEEG 2018)

 

O aumento dos deslocamentos feitos de carro decorre do enriquecimento da população em geral, mas, também, de lacunas estruturais das cidades brasileiras em relação à mobilidade urbana. O planejamento focado em acomodar e facilitar a circulação de uma frota crescente de automóveis falha em garantir qualidade e eficiência para o transporte coletivo e os modos ativos, como bicicleta e caminhada.

O relatório aponta duas oportunidades de que administrações tanto municipais quanto estaduais e federal podem se valer para reverter esse cenário: 1) promover inovações tecnológicas nos veículos e/ou 2) evitar viagens por transporte individual ou transferi-las para modos sustentáveis.

A adoção de biocombustíveis e de soluções tecnológicas, como veículos híbridos e elétricos – tanto entre os automóveis individuais como nas frotas de ônibus –, apresenta grande potencial de redução de emissões. Apesar de essa transição ser um processo de início tardio no país, pode trazer bons resultados se devidamente planejada.

Em relação ao segundo caminho, os efeitos também são promissores.

Ao optar pelo carro em vez do ônibus, uma pessoa contribui com 45 vezes mais emissões de dióxido de carbono na atmosfera e 30 vezes mais de monóxido de carbono. No entanto, para que essa mudança de escolha seja viável – e atrativa –, é necessário investir em infraestrutura e melhorar as condições de segurança e acessibilidade do transporte coletivo e dos modos ativos. Ampliar a oferta e melhorar a qualidade do serviço, garantir prioridade ao ônibus por meio de faixas ou corredores dedicados, construir ciclovias e calçadas adequadas são alguns exemplos de ações que podem ajudar nessa escolha. Em paralelo, medidas de desestímulo aos automóveis, como redução das áreas de estacionamento e cobrança pelo uso do espaço público, contribuem para um uso mais racional e equilibrado do carro.

O futuro das emissões de GEE do Brasil pode ser positivo – desde que o país se comprometa com políticas públicas que caminhem em uma direção sustentável.

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