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Nina, finalista do InoveMob, oferece tecnologia para mapear assédios na mobilidade urbana

Uma pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública afirma que entre 5,2 milhões e 7,9 milhões de brasileiras com mais de 16 anos relataram ter sido vítimas de assédio físico no transporte coletivo em 2016. Desses milhares de mulheres, apenas 11% disseram ter procurado uma delegacia da mulher. Quem lembra esses dados é Simony César, a criadora do projeto Nina, recurso que rastreia esse tipo de violência no transporte coletivo, e uma das finalistas do Desafio InoveMob. O que começou com uma pesquisa no campus onde Simony estudava, hoje é responsável por ser o estopim de uma política pública.

O receio da violência no transporte coletivo acompanha Simony desde a infância, quando a mãe, na época cobradora de ônibus, saía de casa do meio da madrugada para trabalhar. Com o passar do tempo e ao ver as consequências desse mesmo medo paralisarem tantas outras mulheres ao seu redor, Simony decidiu empreender em uma ideia que iria contribuir para combater o problema. "A ânsia gerada em mim desde criança ao ver a minha mãe vulnerável e mais tarde sofrer isso diariamente no ir e vir da universidade fez com que eu quisesse me dedicar ao Nina. Eu buscava tentar solucionar a questão da impunidade em relação aos casos de assédio”, explica.

Com a experiência de um estágio em uma empresa de ônibus, a estudante de design gráfico percebeu que as denúncias de assédio que chegavam até o órgão não eram tratadas da maneira correta. Sua ideia foi então criar uma ferramenta para mapear os casos, identificar pontos críticos na mobilidade urbana especialmente para quem está na base da pirâmide social – as principais usuárias do Nina são mulheres que utilizam o transporte coletivo e pertencem às classes CDE – e disponibilizar uma tecnologia integrada para reportar em tempo real as denúncias para a gestão pública, que tem o poder de mitigar tais problemas. “O benefício social reverbera para a sociedade como um todo, e o poder público ganha a ferramenta tecnológica para agir de forma mais precisa”, esclarece Simony.

A decisão de concorrer ao Desafio InoveMob foi motivada pela possibilidade de implantação de um projeto-piloto em uma cidade, já que antes o Nina havia sido testado apenas dentro da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Campus Recife. Já como semifinalista do Desafio, Simony teve contato com diversas prefeituras e conquistou o interesse de Fortaleza, onde executou o projeto-piloto para o concurso.

“A maioria dos passageiros de transporte coletivo em Fortaleza é mulher. Precisamos pensar nessa usuária, na qualidade do deslocamento dela se a gente quer mantê-la no transporte coletivo. Pensando na sustentabilidade, em promover os modos não-motorizados e o modo coletivo, temos que mudar o paradigma do transporte coletivo”, afirma Bianca Macêdo, engenheira civil e assessora técnica do PAITT (Plano de Ações Imediatas em Transportes e Trânsito de Fortaleza) da Secretaria de Conservação e Serviços Públicos (SCSP).

<p>Mulheres são maioria no transporte coletivo de Fortaleza</p>

Mulheres são maioria no transporte coletivo de Fortaleza (Foto: Daniel Hunter/WRI Brasil)

A capital cearense divulgou hoje o lançamento do Programa de Combate ao Assédio Sexual no Transporte Público. O objetivo é acabar com o problema através de campanhas, de ações de conscientização e educação, capacitação de operadores de transporte coletivo para orientá-los acerca do protocolo de atendimento, iluminação de pontos de parada entre outras medidas além do incentivo à denúncia dos casos.

As ações deverão contar com um amplo sistema de apoio às denúncias de assédio feitas através do recurso do Nina instalado no aplicativo “Meu Ônibus”. Com o acionamento do botão, a gravação de vídeos das câmeras dentro do ônibus será ativada. Assim, ao procurar a Delegacia da Mulher ou na Delegacia da Criança e do Adolescente, a vítima poderá contar com esse conteúdo.

“O Nina despertou a cidade para agir mais ativamente em relação a isso. Ele é o indutor de um processo”, revela Luiz Sabóia, Secretário-Executivo da SCSP. “É uma iniciativa extremamente inovadora porque parte de um componente tecnológico, mas une esse elemento com o engajamento de vários setores. Pode ser o início de uma onda que combata efetivamente o assédio sexual não somente no transporte coletivo”, diz.

A iniciativa de Fortaleza conta com o engajamento do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus) e da Casa da Mulher Brasileira. Segundo Dimas Barreira, presidente do Sindiônibus, o Nina vai contribuir oferecendo mais segurança para as pessoas usarem o transporte coletivo. “O transporte coletivo se preocupa muito com a proteção do usuário porque esse é um fator que fragiliza a adesão da população ao uso de meios coletivos. O Nina vem para oferecer um canal de comunicação e de proteção com foco muito claro na mulher”, explica.

“O recurso vai mostrar para a mulher que essa é uma problemática que o Estado e a sociedade reconhecem que existe. Assédio não é algo que deve ser minimizado. Se a mulher está usando o transporte coletivo, ela tem o direito de usufruir da forma adequada”, exalta Daniele Mendonça, delegada titular da Delegacia de Defesa da Mulher de Fortaleza, em funcionamento dentro da Casa da Mulher Brasileira.

Simony explica que seu desejo não é apenas a criação de um botão de denúncia, mas realmente suscitar a elaboração de uma rede de assistência. "A gente não quer dar o ponto sem nó. Nosso objetivo com a implantação do Nina é ajudar não só a sociedade, com um canal facilitado para a realização da denúncia, mas também ajudar a gestão municipal e estadual na criação e precisão de políticas públicas com base na inteligência dos dados capturados pela tecnologia Nina, que denominamos como sensor de Smart Cities.”

O Nina permitirá ainda o mapeamento das ocorrências de assédio no transporte coletivo que auxiliará Fortaleza nas ações do programa de combate. “Acho que a grande sacada do Nina é de estimular as mulheres - – e não só as mulheres, também a sociedade – a não ficarem caladas diante de crimes de assédio. No fundo tem uma mensagem muito concreta e real: reclame, denuncie, procure os seus direitos”, destaca Saboia.

“Não é meramente eu andar segura em um ônibus. É ocupar um espaço. É cuidar da questão de gênero nesses espaços. Não só o Nina, mas todas as políticas de inclusão das mulheres na cidade são feitas para que as oportunidades sejam de fato iguais. Cidades mais seguras para as mulheres são cidades mais seguras para todos”, completa Simony.

O vencedor do Desafio InoveMob será conhecido no dia 5 de dezembro e receberá US$ 100 mil para dar escala ao seu projeto. A escolha dos cinco finalistas seguiu critérios de capacidade interna, relevância, impacto, escala, inovação, viabilidade e sustentabilidade.

O Desafio InoveMob é promovido pela Toyota Mobility Foundation e pelo WRI Brasil em parceria com a Frente Nacional de Prefeitos (FNP).

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