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A parceria entre restauração florestal e infraestrutura convencional pode tornar nossa água mais limpa

Os vários episódios de crise hídrica que ocorreram recentemente no país - como no Sudeste, no Distrito Federal ou no Nordeste - nos ensinaram uma importante lição: a de que uma única solução não resolverá, sozinha, o desafio de abastecer as grandes metrópoles do país. É preciso trabalhar com um grande leque de soluções. Muitas delas, convencionais, como criação de reservatórios e obras de transposições. Porém, em um evento em novembro em São Paulo, especialistas do setor hídrico mostram que soluções baseadas na natureza também precisam ser consideradas para que as populações tenham água limpa e em quantidade nas grandes cidades.

O evento, uma rodada de debates sobre infraestrutura natural, reuniu especialistas de governos, da academia, de empresas e da sociedade civil para debater o papel das florestas no abastecimento. A rodada foi organizada pelo WRI Brasil e Fundação Grupo Boticário de Conservação da Natureza, e contou com representantes de organizações e empresas respeitadas como Sabesp, Universidade de São Paulo (USP), Secretaria de Recursos Hídricos de São Paulo, TNC e Agência Nacional das Águas (ANA).

Durante o debate, os especialistas ressaltaram o papel que soluções baseadas na natureza podem ter não apenas para o abastecimento, mas em vários setores da nossa economia. “Nós estamos vendo uma migração das soluções convencionais para as soluções baseadas na natureza”, disse o cientista e pesquisador Carlos Nobre.

Nobre considera que essa migração começou no setor de energia, quando as tecnologias de geração de eletricidade eólica e solar provaram que a natureza pode ter papel determinante na economia. Agora, avanços em diversos setores, em especial na agricultura de baixo carbono, mostram que a natureza pode desempenhar papel fundamental no processo produtivo e na economia. “Hoje, vemos que quase sempre há uma solução baseada na natureza competitiva e de longa duração”.

Verde e cinza juntos

A principal mensagem deixada pelos especialistas foi a necessidade de planejar as obras tradicionais, conhecidas como infraestrutura cinza, considerando também a natureza, ou a infraestrutura verde. “Não é uma coisa ou outra. É uma coisa e outra. É conectar as soluções”, disse Samuel Barrêto, gerente nacional de águas da TNC.

Segundo a pesquisadora Mônica Porto, professora doutora em recursos hídricos da USP, a infraestrutura cinza ainda é uma das melhores formas de enfrentar a questão da quantidade de água, especialmente com a reservação, ou seja, a construção de novos reservatórios, uma necessidade em muitas cidades brasileiras que dependem unicamente do fluxo dos rios. “Já a infraestrutura verde é muito significativa para a qualidade da água. Esse é um debate importante e que tem muitos frutos para dar”, disse.

Segundo Mara Ramos, gerente de recursos hídricos da Sabesp, a empresa de saneamento de São Paulo já vem considerando em suas ações as duas estratégias. “É como se tivéssemos uma caixa de ferramentas: são várias soluções para problemas diferentes. A Sabesp contra com investimentos em infraestrutura cinza, mas também colocou as soluções baseadas na natureza em sua estratégia”, diz. Segundo ela, a Sabesp tem hoje 33 mil hectares de Mata Atlântica preservada.

Infraestrutura Natural na Cantareira

Durante o evento, os especialistas em infraestrutura natural Rafael Feltran-Barbieri, do WRI Brasil, e Suzanne Ozment, do World Resources Institute (WRI), apresentaram os dados do estudo “Infraestrutura Natural para Água no Sistema Cantareira”. O estudo mostra que a restauração de 4 mil hectares de florestas nas áreas de recarga da Cantareira reduz em quase um terço o aporte de sedimentos, como terra e sujeira, nos reservatórios do Sistema Cantareira, reduzindo os custos com produtos químicos no tratamento de água e trazendo retornos econômicos para a Sabesp e para a população paulista.

Nos próximos meses, o WRI Brasil, junto com parceiros, publicará análises semelhantes para os sistemas de abastecimento do Rio de Janeiro e de Vitória (ES). Os estudos fazem parte de uma série de trabalhos desenvolvidos globalmente, com pesquisas em cidades americanas e no México.

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