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Este mês na ciência climática: mosquitos migratórios, alergias e ondas de calor marinhas

Este post foi escrito por Kelly Levin e Dennis Tirpak e publicado originalmente no WRI Insights.


Todos os meses, cientistas fazem novas descobertas que avançam nossa compreensão sobre as causas e os impactos das mudanças climáticas. As pesquisas nos dão uma noção mais clara das ameaças que já enfrentamos e apontam o que ainda está por vir se não reduzirmos as emissões em um ritmo mais rápido.

A série “Este mês na ciência climática”, do WRI, faz um resumo das pesquisas mais significativas de cada mês, compiladas de publicações científicas reconhecidas. Nesta edição são explorados alguns dos estudos publicados em março de 2019. (Para receber esse conteúdo diretamente em seu e-mail, em inglês, cadastre-se na newsletter “Hot Science”, do WRI.)

Impactos para ecossistemas e espécies

  • Declínio na pesca: Cientistas já conhecem, de longa data, os possíveis impactos das mudanças climáticas nas espécies de peixes e invertebrados. No entanto, os efeitos do declínio nas espécies na produção de alimentos ainda não haviam sido tão estudados. Pesquisadores analisaram os impactos climáticos em 124 espécies – cerca de um terço da pesca global – e descobriram que a produção caiu cerca de 4% entre 1930 e 2010. Cinco eco-regiões (Mar do Japão, Mar do Norte, costa da Península Ibérica, Corrente Kuroshio e o Mar Celta) testemunharam perdas da ordem de 15% a 35%. Eco-regiões no leste asiático, lar de algumas das maiores populações humanas do mundo, viram grandes perdas. Essas perdas induzidas pelo aquecimento compõem um problema com a pesca predatória.

  • Ondas de calor marinhas devastam a vida no oceano: Pesquisadores descobriram que ondas de calor marinhas recentes tiveram impacto significativo em processos biológicos, provocando dano para várias espécies-chave, incluindo corais, ervas marinhas e algas. O número de dias com ondas de calor marinhas por ano aumentou mais de 50% entre 1987 e 2016, comparado com o período anterior, de 1925 a 1954.

  • Ondas de calor marinhas matam golfinhos: A Baía Shark, na Austrália, viveu uma onda de calor marinha sem precedentes em 2011, quando a temperatura das águas ficou de 2°C a 4°C acima da média por dois meses. Cientistas descobriram que a população de golfinhos caiu entre 6% e 12% na área. As fêmeas que sobreviveram tiveram fertilidade reduzida após a onda de calor.

  • Novos destaques de dados de 20 anos de branqueamento dos corais: Cientistas avaliaram o branqueamento de corais em mais de três mil áreas entre 1998 e 2017, período em que aumentaram a frequência e a intensidade de episódios de branqueamento. A maior probabilidade desses episódios ocorre em áreas tropicais. Outra descoberta interessante: na última década, o branqueamento ocorreu com temperatura 0,5°C mais quente do que anteriormente. Isso pode significar que corais mais sensíveis à mudança da temperatura já desapareceram ou se adaptaram para resistir a mais calor.

  • Árvores sofrem após incêndios florestais: As mudanças climáticas estão aumentando a quantidade de incêndios por todo o oeste dos Estados Unidos. Um novo estudo descobriu que as espécies Pinus ponderosa e Pseudotsuga menziesii, duas espécies críticas do ponto de vista econômico e ecológico, não estão se regenerando após incêndios severos por conta da temperatura e da aridez do solo. Os autores sugerem que, no futuro, poderemos ver mudanças abruptas para outro tipo de vegetação, ultrapassando limites críticos.

  • Mudanças climáticas ameaçam migração de pássaros: Pesquisadores identificaram que a Grande Bacia do Nevada, um habitat que é rota de migração de pássaros, não consegue mais dar o suporte ecológico para espécies que dependem dela. O fluxo de água da bacia caiu significativamente, resultando no declínio de pássaros.

Impactos na saúde

  • Primavera precoce aumenta riscos de rinite alérgica: Temperaturas mais quentes estão fazendo com que a primavera comece mais cedo no Hemisfério Norte. Pesquisadores descobriram que entre 2001 e 2013, adultos vivendo em áreas dos Estados Unidos que vivenciaram uma primavera precoce tem 18% mais chances de sofrer alergias, como rinite.

  • Migração do mosquito da dengue: Cientistas descobriram que o Aedes aegypti, o mosquito que espalha dengue, zika vírus e chikungunha, está migrando. Com o aumento do aquecimento, quase um bilhão de pessoas a mais ficarão expostas a essas doenças, com risco de transmissão aumentando consideravelmente na Europa. O sudeste asiático e o oeste africano, no entanto, podem ver redução caso o aquecimento nessas regiões seja severo.

Impactos na infraestrutura

  • Inundações costeiras podem custar mais dinheiro para californianos: Pesquisadores relatam que, até o final do século, mais de US$ 150 bilhões em propriedades e 600 mil pessoas podem ser impactadas por inundações costeiras na Califórnia. O estudo é uma novidade em relação a danos costeiros porque combina aumento do nível do mar com impacto de tempestades extremas.

Gelo

  • Chuva causa derretimento na Groenlândia: Um estudo do derretimento de mais de 300 geleiras da Groenlândia entre 1979 e 2012 mostrou que um aumento nas chuvas é o gatilho para o derretimento. A perda de gelo causada por precipitações dobrou no período, contribuindo para 28% do derretimento total.

  • Boas notícias para a Groenlândia: A geleira Jakobshavn foi a que sofreu maior perda de massa no Manto de Gelo da Groenlândia nas últimas duas décadas. Mas pesquisadores descobriram que a Jakobshavn está recuperando gelo graças ao esfriamento nas águas da Bacia Disko, por conta de variações naturais. Os autores descobriram que o esfriamento do oceano pode estabilizar uma geleira, aumento o nosso entendimento sobre as complexas dinâmicas envolvendo oceano, atmosfera e gelo.

  • Lagos de gelo na Antártica: Pesquisadores da Austrália descobriram lagos de gelo debaixo de geleiras no leste da Antártica. É uma descoberta preocupante, já que geleiras podem se mover com mais facilidade quando estão na água.

Temperaturas extremas

  • Ártico mais quente traz menos chuva: O Ártico está aquecendo duas vezes mais rapidamente que a média global, e, quando isso acontece, reduz o gradiente de variações de temperatura pelo globo. O gradiente de temperatura afeta as correntes de ar e a estabilidade atmosférica. Pesquisadores descobriram que um gradiente de temperatura mais fraco pode causar declínio substancial em chuvas em algumas latitudes. No passado, quando um padrão similar de temperatura ocorreu, o centro dos Estados Unidos enfrentou forte seca.

Emissões

  • Aumento das emissões: A Agência Internacional de Energia mostra que a emissão global de dióxido de carbono bateu recorde em 2018, com o maior nível de aumento desde 2013. O consumo global de energia no ano passado aumentou a uma taxa duas vezes maior do que a média da década, como resultado da demanda por combustíveis. O aumento na eficiência da energia foi menor do que nos anos anteriores. As emissões dos EUA aumentaram 3%, desfazendo uma trajetória de queda. China, Índia e Estados Unidos representam 85% do aumento líquido de emissões, enquanto as emissões caíram em países como França, Alemanha, Japão, México e Reino Unido.

  • Metano das árvores: Pesquisadores descobriram que árvores podem ser fonte de metano. Um estudo publicado mês passado fez uma revisão do fluxo de metano em árvores vivas e mortas. Por exemplo, árvores podem transportar e emitir metano se o gás estiver presente no solo em que crescem. Microrganismos vivendo dentro das árvores também produzem metano. A pesquisa revela um complexo sistema de processos que dependem de muitas variáveis.

  • Metano dos lagos: As mudanças do clima devem aumentar a eutrofização, quando excesso de nutrientes entra nas águas. Uma nova análise mostra que esse aumento pode resultar em uma maior emissão de metano. Modelos sugerem que as emissões de metano em lagos podem aumentar substancialmente no próximo século – o equivalente a entre 18% e 33% das emissões anuais por queima de combustíveis fósseis.

  • Quantificando o sequestro de carbono nos oceanos: Pesquisadores identificaram que o oceano sequestrou 31% das emissões de carbono antropogênicas globais entre 1994 e 2007, apesar de haver diferenças na taxa de sequestro, provavelmente causadas pela circulação do oceano. Isso faz com que o oceano reduza a quantidade de carbono na atmosfera, mas ao mesmo tempo aumenta a acidificação nas águas marinhas.

  • Áreas úmidas costeiras estão aumentando o sequestro de carbono: Pesquisadores descobriram que a acumulação de carbono aumentou significativamente em áreas de alagamento de marés expostas ao aumento do nível do mar. Esses feedbacks não haviam sido considerados nos modelos climáticos, significando que áreas úmidas costeiras podem ser mais importantes na batalha contra as mudanças climáticas.

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