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A ação de 3 mulheres para o clima, cidades e florestas

Natalie, Paula e Simony. Neste Dia Internacional da Mulher, a história dessas três mulheres representa o que é trabalhar com Clima, Florestas e Cidades, os três programas do WRI Brasil. A perspectiva de cada uma é tão importante quanto a de qualquer mulher, que hoje demonstram ao mundo a imensa habilidade de liderar e serem agentes de mudança. Ainda que as mudanças climáticas atinjam mais fortemente as mulheres, a vulnerabilidade não deve nos definir mais do que a nossa capacidade de contribuir para um futuro melhor para o meio ambiente e a vida humana.

Existe uma ideia que é comum às três entrevistadas: a necessidade de trabalharmos juntas. Vindas de contextos diferentes, cada uma reconhece por meio de suas experiências o poder da cooperação entre as mulheres. Conheça cada uma delas:

Simony César, criadora do Nina

Estudante de Design Gráfico no Instituto Federal da Paraíba e estudante de Publicidade e Propaganda, Simony César é a criadora do projeto Nina, desenvolvido para combater os casos de assédio no transporte coletivo. A iniciativa a levou até a final do Desafio InoveMob e foi a indutora da criação de uma política pública em Fortaleza através do Programa de Combate ao Assédio Sexual no Transporte Público. Simony afirma que nunca imaginou ver o projeto se transformar em uma política pública, mas idealizou o Nina para que ele se transformasse em uma fonte de dados para embasar estudos de outras pesquisadoras sobre a questão do assédio.

Quando foi que você decidiu trabalhar com a questão de gênero? Desde quando essa é uma questão que inquietava você?

Eu fui descobrir que queria trabalhar com gênero depois que já estava trabalhando com gênero. Fui observando as nuances que estão por trás das desigualdades de gênero, o quanto isso é um impeditivo para o acesso das mulheres à cidade, ao processo e à permanência delas nos ambientes de trabalho e de estudo.  No caso do Nina, especificamente, quando comecei o projeto só sabia que queria ajudar a solucionar o problema do assédio no transporte, mas não era tão claro para mim todas as questões sociais que estavam envolvidas. 

Qual é o sentimento de ser uma mulher, portanto ainda minoria, desempenhando um papel de lutar por uma sociedade mais igual e segura? Quais são os principais obstáculos nesse contexto?

Diariamente é um desafio. Já vi homens que são responsáveis por criar mecanismos de políticas para mulheres encararem a questão do assédio como piada, como se atingisse uma parcela mínima da população e não fosse algo a ser melhor debatido. A presença de uma mulher pode evitar esse padrão de comportamento. Quando um representante da sociedade demonstra esse tipo de despreparo, isso acaba reverberando em todo o resto da estrutura de uma cidade. O desconhecimento mantém um ciclo de violência perpétuo, acarretando na permanência da violência na cidade.

Acho que a mulher sofre em função do gênero, mas tem ainda alguns atenuantes como cor de pele, sotaque, classe social, que acabam agravando a situação. Como moradora periférica, é muito difícil chegar na porta de um prefeito. Eu nunca teria acesso a isso. Mesmo morando toda minha vida no Recife, eu nunca conseguiria. A oportunidade só se tornou possível graças ao InoveMob. O maior desafio foi fazer com que o Nina de fato chegasse no gestor municipal. O Nina é um estudo de 2016, mas só no ano passado tivemos a oportunidade de implementar o projeto em Fortaleza.


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Simony durante o evento de premiação do Desafio InoveMob (Foto: Daniel Hunter/WRI Brasil)


O Nina é um recurso feito por mulher, para mulheres, mas já precisei escutar um homem dizendo que "a mulher vai fazer tal coisa", "dentro do ônibus a mulher não vai usar isso". Mas com que base um homem estava me dizendo aquilo? Primeiro, ele não é mulher. Segundo, ele não era nem usuário do transporte público. Porém, eles sempre acham que vão saber mais, talvez por ser homem ou por achar que têm mais conhecimento de causa.

Por que é tão importante a presença da mulher quando tratamos do desenvolvimento de cidades?

É importante para ter uma representação na pauta. Tenho uma prova concreta. A Bianca (Macêdo) é pesquisadora de gênero, engenheira civil e assessora técnica do Plano de Ações Imediatas em Transportes e Trânsito de Fortaleza (PAITT). Foi ela que fez a pauta se tornar sensível dentro da prefeitura. Em geral, engenheiras e arquitetas são as mais sensíveis para temas de gênero nas cidades. Eu não garanto a você que essa pauta teria vencido na prefeitura de Fortaleza se não fosse a presença da Bianca lá. Ela realmente brigou para que a pauta pudesse entrar. Acredito que essa é a importância da mulher nesses ambientes. Fazer a bandeira se tornar presente.

A grande lacuna que temos é o amplo número de mulheres pesquisadoras ou que estuda planejamento urbano, mas que não são absorvidas pela gestão pública. Precisamos de mais mulheres com poder de decisão, precisamos de mais “Biancas”. Falta ocuparmos espaços do outro lado da bancada, com poder de decisão e incluir isso como política pública e como prioridade na pauta das prefeituras. 

A mulher negra e periférica é a mulher mais vulnerável na mobilidade urbana. Ela que enfrenta os maiores problemas no ir e vir diariamente. E é justamente ela que tem menos acesso ao poder público para poder cobrar alguma medida capaz de mitigar os problemas de deslocamento dela. Para mim, o maior desafio foi diminuir essa lacuna e ainda fazer com que essa pauta seja ouvida, e de fato trabalhada, e fomentar a criação de diretrizes para mitigar esses problemas. Com base em estudos, já conseguimos perceber que as condições de deslocamento são fatores importantes e decisivos para a permanência da mulher na cidade. Até mesmo questões como iluminação e pavimento de calçadas, mato alto etc. Enfim, temos que fazer o tema ser emergente dentro da prefeitura.

O que mais lhe chamou atenção nas experiências que teve ao tentar implementar o Nina em cidades brasileiras?

Eu percebi que o Nina só se tornaria uma pauta forte, que pudesse se tornar uma política pública na cidade, se eu entrasse por uma secretaria que não fosse a das Mulheres. Teria que entrar por uma secretaria de Planejamento Urbano, de Serviços Públicos, de Defesa Social. Aconteceu comigo em uma prefeitura quando tentei iniciar pela Secretaria das Mulheres, mas não consegui avançar por conta da baixa articulação. Essas secretarias municipais da mulher são, em geral, as que tem menor orçamento, são as que sofrem os primeiros cortes quando o governo precisa economizar.  É preciso ficar atento a isso.

Qual conselho você daria para as mulheres que atualmente desejam ou estão buscando posições como agentes de mudanças no contexto de cidades?

Principalmente para meninas e mulheres periféricas, eu acredito, sim, que a gente possa fazer algo para mudar a realidade. Não vou romantizar, dizer que é fácil, sofremos muito estresse. A impressão é que não temos o direito de errar. Sabemos que temos contas para pagar e é muito difícil acharmos um meio de nosso projeto ser rentável e ao mesmo tempo cumprirmos a missão do impacto social.

Tem auto cobrança, auto confronto, mas o importante é saber que o que depende de você, você está fazendo. Até quando ganhamos alguns espaços, temos que estar militando. Quem quer entrar na área de gênero tem, sim, campo, mas é necessário empreender e militar sempre. 

Paula Costa, bióloga da Preta Terra

Formada em Biologia pela Universidade Estadual Paulista, Paula Costa optou pela área por sempre desejar conhecer e entender a ciência da vida, como a natureza funciona e “se manter próxima a ela”. Se formou em Engenheira Florestal e tem especialização em Gerenciamento Ambiental pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ-USP). Do desejo de disseminar e espalhar os sistemas agroflorestais, fundou, ao lado do parceiro Valter Ziantoni, a consultoria Preta Terra, que busca apresentar um modelo viável técnica e economicamente para a adoção de sistemas agroflorestais biodiversos e regenerativos.

Como foi a sua trajetória profissional até chegar à construção do Preta Terra?

No começo da minha carreira eu tinha muito a perspectiva da preservação, que a gente precisava preservar e manter a floresta e o meio ambiente. Mas com essa visão preservacionista, eu senti que a minha possibilidade de atuação era muito pequena, muito estreita.

Optei por trabalhar mais com conservação no sentido de entender os recursos naturais, como manter as pessoas vivendo com dignidade a partir dos recursos de uma maneira sustentável e conservacionista. Nesse sentido, parti para a engenharia florestal. Comecei a entender que uma das maneiras de a gente manejar, manter ou viver segundo a lógica da floresta é a partir dos sistemas agroflorestais, que são uma maneira de se produzir alimentos segundo a dinâmica do ambiente onde aquele sistema produtivo está inserido.

A gente tem que transformar esse paradigma que temos hoje de uma agricultura que degrada para uma agricultura que recupera e melhora o solo. Essa é a nossa inspiração. Por isso criamos a Preta Terra.



Quais os principais desafios encontrados pelas mulheres que buscam posições de liderança trabalhando nessa área?

Felizmente, na área florestal e ambiental, cada vez mais se entende que essa é uma missão que deve ser feita de maneira conjunta. Eu sinto que tem muito espaço, mas que as mulheres ainda precisam se colocar um pouco mais.

Uma dificuldade é ver que nos cargos de gestão, em cargos de gerência, existem muito mais homens do que mulheres, mas acho que isso é um processo de transformação que já está acontecendo. Cada vez tem mais mulheres encarando esse desafio, tanto de ocupar posições de liderança quanto de trabalhar nessa área. De fato, trabalhar com florestas é muito desafiador, você se coloca em situações desconfortáveis, viajamos por muito tempo, não tem tanto conforto. São alguns desafios que encaramos com frequência.

Eu me sinto muito realizada trabalhando com isso, me completa e é o trabalho que eu sempre busquei. Tem muitas mulheres que também se realizam nessa área e têm muito espaço para trabalhar.

Por que é tão importante a perspectiva de gênero quando tratamos de proteção ao meio ambiente?

A conservação é feita por pessoas, ela é inclusiva e inclui principalmente famílias. A mulher dentro da família tem um papel fundamental. Então não existe a conservação desassociada de pessoas e não existe conservação desassociada do papel da mulher. Pensando em famílias que são dependentes da floresta ou famílias agricultoras, geralmente a mulher tem o papel chave da organização familiar, principalmente a produção agrícola em volta da casa, a produção de subsistência, o manejo do entorno. É um papel da mulher.

O homem tem muito aquele papel de ser o provedor externo, que traz as coisas de fora, que traz o dinheiro. Mas a mulher é aquela que toma as decisões de como vai ser feito o manejo, como é o sistema produtivo, ela faz uso dos produtos da floresta, ela conhece as espécies que ocorrem no entorno, as espécies alimentícias, as espécies medicinais, ela coleta sementes, coleta produtos, produz mudas, enriquece o entorno da casa.

A mulher tem esse papel fundamental no entendimento do ambiente florestal. Acessar as mulheres é acessar esse conhecimento tradicional e local. Trabalhar com as mulheres é resgatar esse conhecimento e ajudar a definir quais são os próximos passos.

Quando a gente fala em mudanças climáticas ou problemas ambientais, quando em um ambiente as pessoas estão sofrendo dificuldades devido à degradação, geralmente os homens são os primeiros que migram, eles têm o poder de migrar, são os primeiros que deixam o território para buscar recursos, para prover recursos vindos de outros lugares para a família. E a mulher, que fica no território, vai sentir os primeiros efeitos desse desmatamento, das mudanças climáticas, da desertificação, dos problemas que estão ao redor dela. Ela que vai estar no ambiente naquele momento. Precisamos trabalhar com elas para que se empoderem da resolução dos desafios que elas estão vivendo e de como mudar essa realidade.

Natalie Unterstell, participante do projeto Homeward Bound

Graduada em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas - São Paulo (FGV-SP), Natalie Unterstell iniciou seu trabalho com meio ambiente ao aceitar um emprego no Amazonas. Foram seis anos trabalhando com comunidades indígenas e aprendendo a formular políticas públicas. Morou na Noruega e nos Estados Unidos, após ganhar uma bolsa da Universidade de Harvard – a primeira concedida a uma brasileira representando uma liderança ambiental. Também já trabalhou no governo federal com foco na pauta de clima e florestas.

No início do ano, Natalie foi uma das 80 mulheres selecionadas para participar do projeto Homeward Bound, uma expedição à Antártida composta apenas de mulheres. A iniciativa visa aumentar a influência e o impacto das mulheres na tomada de decisões que moldam o futuro do planeta.

Conte um pouco sobre o projeto Homeward Bound?

Em 2016, a Homeward Bound foi nomeada pela revista Fortune como uma das iniciativas mais importantes mundialmente para as mulheres. Em 10 anos, o programa selecionará mil mulheres para participar de uma rede de lideranças envolvidas diretamente em resolver os grandes problemas da humanidade. Um deles é o aquecimento global. Outro é a sub-representação das mulheres nos mercados que estão desenvolvendo as tecnologias que mais crescem no momento.

Já existe uma história de mais de um século de exploração da Antártida por homens. Uma expedição como a nossa é, ainda, quase um milagre. No entanto, não somos as primeiras e nem queremos ser as últimas. Estamos trabalhando para atingir a meta das mil mulheres que têm umas às outras, que compartilham um compromisso com um novo tipo de liderança, que acreditam na diversidade e que estão comprometidas em trabalhar juntamente e não contra a mãe natureza. Somos mais fortes juntas e, à medida que nossa rede cresce, nosso impacto será amplificado.

Quais foram os principais aprendizados da experiência na Homeward Bound?

Primeiro, o “otimismo teimoso”. Conhecer as experiências de líderes corajosas me parece fundamental para me inspirar a fazer as coisas certas, mesmo que isso envolva cair e levantar no caminho.


<p>Natalie</p>

Natalie durante a expedição à Antártida (Foto: Arquivo pessoal)


Nesse sentido, tivemos o imenso privilégio de ter a bordo da nossa expedição, como parte do corpo docente, a grande arquiteta do Acordo de Paris, Cristiana Figueres. Cristiana nos deu de presente o que ela chama de “otimismo teimoso”, e nos fez pensar em nós mesmas, nas nossas relações com os outros e no contexto mais amplo do planeta, usando as lentes da liderança feminina potente e ao mesmo tempo amorosa e construtiva. Temos que demonstrar teimosia ao mudar como agimos frente aos problemas nos níveis individual, relacional e social.

A segunda lição é o esforço de agir colaborativamente. Eu tive que fazer um esforço consciente para cultivar comportamentos construtivos nesta jornada. Houve um esforço constante de calibrar respeito, confiança, julgamentos e aprendizados. Talvez pela primeira vez na vida, experimentei um ambiente tão construtivo quanto esse.

Qual é o sentimento de ser uma mulher, portanto ainda minoria, em um papel de liderança na ciência climática?

O programa surgiu justamente para dar maior visibilidade à extraordinária escassez de mulheres na ciência e na política. E a ajudá-las a não temer o reconhecimento do seu trabalho e as oportunidades.

Eu não gosto de pensar que mulher é minoria, nós somos a maioria da população e, em geral, nós somos 10% – 10% na política, 10% das posições de poder nas empresas. A gente nunca passa desse teto de vidro (expressão usada para tratar da limitação velada à ascensão profissional das mulheres) dos 10%, 15%. Acredito que a discussão não é discutir a minoria, mas sim o teto de vidro.

Por que é tão importante a perspectiva de gênero quando tratamos de mudanças climáticas e proteção ao meio ambiente?

A perspectiva da mulher é muito importante na pauta climática. Primeiro, porque a gente já tem evidências de que a maior parte das pessoas afetadas, por exemplo, por desastres naturais, são mulheres e crianças. Então só aí já teríamos uma perspectiva.

Alguns estudos já mostraram que incentivar a ocupação de espaços pelas mulheres é uma das medidas mais "fáceis" e com grande potencial de impacto no curto prazo para a igualdade de gênero.

Quais os principais obstáculos encontrados pelas mulheres que buscam liderar ações contra as mudanças climáticas?

As mulheres são a maioria populacional e têm muito a contribuir, mas ainda esbarram em uma série de barreiras institucionais que são criadas para que elas não tenham voz ou não tenham vez e para que esse problema não seja visível. Então, em termos de obstáculos, eu acho que a visibilidade é o principal.

Qual conselho você daria para as mulheres que atualmente desejam ou estão buscando posições de liderança e espaço como agentes de mudanças no contexto da ação climática?

Conectem-se! É preciso que a gente saia de qualquer isolamento e busque apoio e força umas com as outras. Um dos piores medos que temos hoje em dia é o medo de fracassar e a sensação de não sermos boas o bastante. Viver é experimentar incertezas, riscos e se expor emocionalmente. E só quem se expõe – se mostra vulnerável – é que se conecta com os demais, e ganha voz.

Uma das coisas que mais discutimos na expedição foi a necessidade de existirem mais mulheres que sirvam de exemplo, inspirando outras profissionais e jovens para que elas se enxerguem trabalhando na política, nas ciências e na tecnologia.

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