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5 impactos pouco conhecidos da poluição do ar

Este post foi escrito por Jessica Seddon, Seth Contreras e Beth Elliott e publicado originalmente no WRI Insights.


Nesta quarta-feira, 5 de junho, celebramos o Dia Mundial do Meio Ambiente. A temática deste ano, definida pela ONU, é a poluição do ar, que vem se tornando uma preocupação crescente em todo o mundo, devido principalmente aos impactos que o ozônio, o material particulado (MP) e outros poluentes têm na saúde humana. Isso é natural, os números são mesmo impressionantes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a poluição do ar dentro e fora de casa seja responsável por cerca de 7 milhões de mortes prematuras em todo o mundo. A maioria dessas mortes – 4,2 milhões – está associada à poluição ambiental (externa). É um importante fator de risco que afeta populações urbanas e rurais em todo o mundo.

A conscientização cada vez maior das pessoas sobre as consequências da poluição do ar para a saúde é um ponto positivo, mas precisamos adotar uma perspectiva mais ampla e atentar para os demais impactos da poluição no planeta. Os custos sociais da poluição do ar – e os benefícios de reduzi-la – vão muito além da saúde, incluindo clima, água, energia renovável e agricultura.

A poluição do ar afeta a saúde

A maioria das pessoas sabe a quantidade recomendada de água que deve beber por dia – oito copos, ou cerca de dois litros. Mas você sabe quanto ar você respira? Um adulto médio inala e exala em torno de 7 a 8 litros de ar por minuto enquanto está em repouso. São pelo menos 11 mil litros de ar por dia.

Respirar ar poluído não afeta só os pulmões e pode ir além de causar mortes prematuras. A poluição do ar afeta quase todos os órgãos do corpo. Um estudo recente do Fórum de Sociedades Respiratórias Internacionais mostra que a poluição do ar contribui para uma série de doenças e complicações, desde diabetes e demência até problemas de fertilidade e leucemia infantil.

O ar poluído também pode ser invisível. A inalação de fuligem ou fumaça com material particulado – geralmente referenciada em tamanho por micrômetros, MP10, MP2,5 e MP1 – escurece os pulmões e causa desconforto respiratório e cardíaco, além de doenças como asma e câncer. Alguns MP10 são visíveis, mas é preciso um microscópio para ver o MP2,5 e um microscópio eletrônico para identificar os “ultrafinos”. Quanto menor a partícula, mais fundo nos pulmões ela pode penetrar, levando junto os compostos químicos dos quais é composta. Esse tipo de poluição surge do processo incompleto de combustão (de madeira e plantas, bem como combustível fóssil), poeira e combinações de outros poluentes de fontes diversas, incluindo a agricultura.

O ozônio, gás formado pelas combinações de outros poluentes originados no trânsito, aterros sanitários e agricultura, entre outras fontes, é invisível. Contribuiu para 500 mil mortes em todo o mundo em 2017 e foi a causa de até 23 milhões de atendimentos de emergência em 2015. A exposição ao dióxido de nitrogênio (NO2), um dos precursores do ozônio originado principalmente pela combustão de combustíveis fósseis, pode causar doenças respiratórias e cardiovasculares e ter impactos reprodutivos e de desenvolvimento.

A poluição do ar afeta o clima

Frequentemente chamados de poluentes climáticos de vida curta (PCVCs), o carbono negro (um componente do PM), o ozônio troposférico e o metano contribuem tanto para o aquecimento global quanto para a poluição do ar. Segundo a Coalizão Clima e Ar Limpo, esses três poluentes altamente potentes são responsáveis por entre 30% e 40% do aquecimento do planeta até o momento. Assim como o dióxido de carbono (CO2), eles devem ser controlados para limitar o aumento da temperatura média global a 1,5°C e evitar impactos climáticos catastróficos, como a elevação do nível do mar e a insegurança hídrica.

O carbono negro e o ozônio permanecem na atmosfera por apenas alguns dias. O metano fica por algumas décadas. E são mais de 100 anos para eliminar o CO2. Isso significa que ações para reduzir os PCVCs podem ter efeitos quase imediatos em suas concentrações na atmosfera, com benefícios para o clima e para a saúde. É importante ressaltar que algumas partículas também podem ter efeito de resfriamento ao bloquear a radiação solar, por exemplo, mas sempre haverá benefícios para a saúde com a redução da matéria específica. Os tomadores de decisão devem considerar essa interação ao projetar estratégias para reduzir os PCVCs.

A poluição do ar afeta a água e o clima local

Dos padrões de chuva à intensidade das monções, a poluição do ar pode afetar significativamente o ciclo da água. O material particulado pode reduzir a quantidade de radiação solar que atinge a superfície do planeta, afetando a taxa na qual a água evapora e se move para a atmosfera. Também influencia a formação de nuvens e a capacidade de transporte de água.

Por exemplo: na Índia e na China, mudanças na intensidade e distribuição das chuvas têm sido relacionadas à poluição do ar por partículas. Algumas áreas registram mais chuva do que o habitual, muitas vezes em grandes concentrações, enquanto outras registram menos. O material particulado também afeta a wribrasil.org.br trajetória e a intensidade das monções na Ásia e intensificou as secas na China, na América do Norte e no sul da Ásia. A poluição atmosférica na Europa e na América do Norte afeta as chuvas e a seca no Sahel. Para um observador casual, esses impactos parecem se misturar com uma variabilidade ambiental geral, mas as consequências na agricultura, nos reservatórios de água e na biodiversidade são significativas.

A poluição do ar afeta a energia renovável

Os rendimentos da geração de energia solar também diminuem em áreas com alta concentração de material particulado. Limpar a poeira dos painéis solares pode resolver parte do problema, mas o resto é mais complicado: a luz do sol não consegue penetrar completamente no smog, reduzindo a produção de energia dos painéis. Estudos na Índia e na China revelam perdas de até 25% do rendimento potencial nas áreas mais afetadas. Isso pode reduzir as linhas de produção dos fabricantes de energia solar e tem grandes implicações para cidades e países que desejam promover uma transição rápida e econômica para as energias renováveis. No caso da China, por exemplo, a poluição chega a custar em média 11 GW de energia anualmente.

A poluição do ar afeta a produção de alimentos e a vegetação

O ozônio pode danificar as células das plantas e afetar negativamente a fotossíntese, enquanto o material particulado pode reduzir a quantidade de luz solar que atinge as plantas e as culturas alimentares. No ano 2000, as perdas globais de rendimento devido ao ozônio ficaram entre 79 e 121 milhões de toneladas, ou o equivalente a algo entre US$ 16 e 26 bilhões, nos valores atuais. O número inclui perdas de rendimento de até 15% para soja e trigo e 5% para o milho. À medida que a concentração de ozônio aumenta, as perdas também. Esse tipo de poluição causou grandes danos às culturas alimentares na Índia: de 2000 a 2010, a quantidade de culturas de trigo, arroz e soja perdidas por ano poderia ter alimentado cerca de 94 milhões de pessoas. Isso é quase toda a população da Alemanha. Descobertas semelhantes no México mostraram perdas estimadas de rendimento de 3% para o milho, 26% para a aveia, 14% para o feijão e 15% para o sorgo. O ozônio e a chuva ácida, originada pela poluição por sulfato e NO2 (principalmente pela queima de combustíveis fósseis), também afetam outros tipos de vegetação, florestas e até o processo de polinização.

Ar limpo é fundamental

Embora os impactos às vezes assustem, nós sabemos o que precisa ser feito e como reduzir a poluição e melhorar a qualidade do ar. Os benefícios muitas vezes superam os custos, e o ar pode melhorar muito mais rápido do que a maioria das pessoas imagina se focarmos nossos esforços nisso. Esses custos, ainda pouco conhecidos mas bem documentados, complementam as razões que já temos para agir de forma rápida e decisiva para limpar o ar.

Já estamos vendo soluções com as quais podemos aprender. Por exemplo, especialistas dizem que, reduzindo os PCVCs agora, poderíamos desacelerar o aumento do aquecimento global em quase 0,6°C até 2050. Avaliações globais estabeleceram frentes de ação para atingir essa meta: ampliar o acesso à energia limpa, melhorar os combustíveis utilizados no transporte, reduzir as emissões veiculares e controlar os vazamentos de metano na produção de combustíveis fósseis e agricultura são alguns exemplos.

Em escala local, também existem casos de sucesso com os quais podemos aprender. A poluição do ar em Pequim, por exemplo, diminuiu consideravelmente nos últimos vinte anos graças a medidas de eficiência energética e melhor controle das emissões de veículos e carvão. Já na Cidade do México, a combinação de investimentos em monitoramento, inovação política e colaboração entre cientistas e reguladores ajudou a diagnosticar a poluição da área metropolitana e reduzi-la desde a década de 1990. A Lei do Ar Limpo dos Estados Unidos foi responsável pela redução de 22% do ozônio e de 40% do PM 2,5 entre 1990 e 2017, comprovando que os esforços para combater a poluição resultam, de fato, em um ar significativamente mais limpo.

A questão, então, é: o que está nos impedindo? Podemos limpar o ar – e todos devemos ter uma participação nesse esforço. A qualidade do ar afeta nossa saúde, clima, segurança alimentar, entre tantos outros aspectos essenciais. Precisamos fazer o possível para garantir um ar mais limpo para as atuais e as futuras gerações.

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