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Este mês na ciência climática: verões mais longos, mortes pelo calor e turbulência na aviação

Este artigo foi publicado originalmente no WRI Insights.


Todos os meses, cientistas fazem novas descobertas que avançam nossa compreensão sobre as causas e os impactos das mudanças climáticas. As pesquisas nos dão uma noção mais clara das ameaças que já enfrentamos e apontam o que ainda está por vir se não reduzirmos as emissões em um ritmo mais rápido.

A série “Este mês na ciência climática”, do WRI, faz um resumo das pesquisas mais significativas de cada mês, compiladas de publicações científicas reconhecidas. Nesta edição são explorados alguns dos estudos publicados em agosto de 2019. (Para receber esse conteúdo diretamente em seu e-mail, em inglês, cadastre-se na newsletter “Hot Science”, do WRI.)

Eventos extremos recentes

Agosto trouxe sinais alarmantes das mudanças no clima, muitos deles alinhados às projeções de um mundo em aquecimento:

  • Cerca de 90% da superfície da camada de gelo da Groenlândia derreteu entre os dias 30 de julho e 3 de agosto deste ano. O escoamento superficial foi de 55 bilhões de toneladas, 40 bilhões a mais que a média entre 1981 e 2010 no mesmo período.

  • A extensão de gelo no mar Ártico foi a segunda mais baixa no registro de satélites para o mês de agosto desde 2012.

  • Anchorage, no Alasca, registrou o agosto mais quente até hoje.

  • O furacão Dorian ganhou força significativa e foi um dos cinco furacões mais fortes já registrados na Bacia do Atlântico.

  • A NOAA confirmou que julho de 2019 foi o mês mais quente já registrado em todo o mundo.

Perda de gelo

  • O gelo do Ártico pode desaparecer mesmo com baixos níveis de aquecimento: uma nova técnica de modelagem estimou que o gelo do Ártico desapareceria nos meses de setembro com um aquecimento entre 2°C e 2,5°C. Os autores afirmaram ainda que limitar o aquecimento a 1,5°C, meta do Acordo de Paris, pode não ser suficiente para evitar que o gelo desapareça.

  • As mudanças climáticas induzidas pelo homem derreteram a camada de gelo da Antártica Ocidental: pesquisadores agora estabeleceram uma relação causal entre as emissões de gases de efeito estufa e o derretimento da camada de gelo da Antártica Ocidental. As mudanças climáticas induzidas pelo homem afetaram os ventos que sopram sobre os oceanos próximos, trazendo as águas mais quentes que derretem o gelo.

  • A perda de gelo no oceano Ártico pode levar a invernos menos frios em latitudes médias: por muitos anos, cientistas associaram os invernos com recordes de frio ao encolhimento da cobertura de gelo no oceano Ártico. Um novo artigo questiona essa conexão para invernos frios em áreas de latitude média, descobrindo que as mudanças na circulação atmosférica ocorreram antes da perda de gelo do mar e não como resultado dela. Os autores descobriram que a perda de gelo oceânico pode estar contribuindo para os invernos mais frios no leste da Ásia.

  • O declínio da cobertura de gelo do oceano Ártico começou mais cedo do que se pensava: cientistas usaram registros de algas, que dependem da disponibilidade de luz, como uma variável para estudar a cobertura de gelo no alto Ártico. Eles descobriram que a tendência de declínio da cobertura de gelo começou no início do século 20, antes do que foi relatado anteriormente. Os registros mais baixos dos últimos 200 anos ocorreram entre os anos 1980 e o início dos anos 2000.

  • O derretimento de icebergs na Antártica pode atrasar os impactos climáticos: cientistas avaliaram o efeito dos icebergs antárticos (que podem percorrer grandes distâncias antes de derreter) nos padrões de água derretida no oceano Antártico. Descobriram que se, por um lado, a água derretida pode contribuir para uma perda de gelo ainda mais rápida, por outro o derretimento dos icebergs também aumenta o resfriamento da superfície, retardando o aquecimento no hemisfério sul. Dependendo da taxa de desintegração do manto de gelo, esse “efeito iceberg” poderia atrasar o aquecimento em cidades como Buenos Aires e Cidade do Cabo.

Clima extremo

  • Ondas de calor aumentam na Europa: pesquisadores descobriram que, na Europa, o número de dias com altos níveis de calor mais que triplicou entre 1950 e 2018, com extremos de temperatura até 2,3°C mais altos durante esse período. Ao mesmo tempo, os dias de frio extremo diminuíram de duas a três vezes e as temperaturas mais frias já são 3°C mais quentes.

  • Verões mais longos: o clima quente dos verões tem persistido por mais tempo à medida que a temperatura média global aumenta acima de 1,5°C, levando a períodos mais quentes e secos ininterruptos, especialmente no leste da América do Norte. Os autores também descobriram que o aquecimento aumenta a probabilidade de dias consecutivos de forte precipitação em regiões de latitudes médias.

  • Inundações: em algumas regiões da Europa, as inundações aumentaram cerca de 11% entre 1960 e 2011, enquanto outras áreas registraram um declínio de 23%. Mais chuvas no outono e no inverno aumentaram as inundações no noroeste da Europa, enquanto na região sul a redução da precipitação e o aumento da evaporação levaram a um declínio nas inundações. O leste europeu também registrou queda nas inundações devido ao declínio da cobertura de neve e do degelo.

  • Milhares de mortes a mais com apenas meio grau de aquecimento na China: pesquisadores descobriram que limitar o aquecimento a 2°C em vez de 1,5°C resultaria, na China, em cerca de 28 mil mortes a mais por ano em decorrência do calor.

  • Aumento das inundações relacionadas a ciclones tropicais nos EUA: as inundações causadas por ciclones tropicais são um dos efeitos mais destrutivos das mudanças no clima. Pesquisadores descobriram que, em um clima mais quente, os ciclones tropicais afetariam significativamente os riscos de inundações ao longo das costas do Atlântico e do Golfo, com os impactos mais severos no Golfo do México.

  • Aumento do risco de escassez de alimentos e água na bacia do Alto Nilo: enquanto a bacia do Alto Nilo (que cobre o Sudão do Sul, Uganda e Etiópia ocidental) deve registrar maiores níveis de precipitação devido às mudanças climáticas, o aumento da frequência de anos quentes e secos levará a mais escassez de água, mesmo com o aumento da precipitação. Com a projeção de mais anos quentes e secos, a agricultura deve ser afetada e a escassez de água cada vez mais se tornará um desafio. Os autores concluem que as mudanças climáticas podem colocar a região “em risco de severa escassez de alimentos e água”. Até 250 milhões de pessoas podem ser afetadas.

  • Relação entre a temperatura da superfície do mar e os tornados nos EUA: usando dados de tornados nos Estados Unidos entre 1954 e 2016, cientistas descobriram que a temperatura da superfície do mar está relacionada ao aumento da atividade de tornados na região das Grandes Planícies do Sul em abril, quando as ocorrências de tornados atingiram o pico na região.

Impactos

  • O desmatamento afeta significativamente o clima local: um novo estudo constatou que em áreas da Amazônia com níveis severos de desmatamento, a temperatura da superfície aumentou 0,44°C entre 2000 e 2013.

  • Colheitas de uva acontecendo mais cedo: estudando um registro de dados de 664 anos de estações de colheita de uvas na Borgonha, cientistas descobriram que, entre 1354 e 1987, as uvas eram normalmente colhidas a partir de 28 de setembro. Nas últimas três décadas, as colheitas começaram 13 dias antes da média dos seis séculos anteriores. Segundo os autores, a transição para um aquecimento cada vez mais rápido a partir de 1988 fez com que os anos mais quentes e secos se tornassem o padrão.

  • Transformação nas florestas boreais: as coníferas foram a espécie dominante nas florestas boreais do Alasca; até o final do século, contudo, as árvores decíduas de folha larga devem quase dobrar em quantidade, tornando-se a espécie dominante naquele ecossistema. Pesquisadores alegaram que a expansão da floresta decídua pode ter uma série de implicações ecológicas e climáticas. Por exemplo: as árvores decíduas de folhas largas perdem suas folhas, o que pode amplificar o aquecimento como resultado da decomposição microbiana e aumento da perda de umidade através das folhas.

  • Mudanças climáticas aumentam a turbulência nos voos: pesquisadores revelaram que as mudanças climáticas tiveram um impacto maior na corrente do Atlântico Norte do que se pensava anteriormente, afetando a aviação ao gerar mais turbulência. Eles estudaram a mudança na velocidade do vento em altitudes mais altas (processo chamado de cisalhamento vertical), que aumentou em 15% entre 1979 e 2017.

  • Ondas de calor marinhas afetam os corais mais do que se pensava: pesquisadores mostraram que ondas de calor marinhas mais severas levam à morte de corais, bem como à rápida dissolução do esqueleto do coral, que transforma toda a estrutura dos recifes. Isso pode ter impactos generalizados em outros animais que dependem do recife.

  • Espécies de plantas nativas em risco na Europa: na Espanha e na Alemanha, um estudo da Arabidopsis thaliana descobriu que secas frequentes e o aumento da temperatura colocam as espécies de plantas nativas em risco. O estudo sugeriu que muitas populações de plantas nativas na zona de transição entre o Mediterrâneo e as regiões temperadas podem estar em risco de extinção.

Comportamento dos oceanos

  • Mudanças nas ondas oceânicas: pesquisadores descobriram que, em um cenário de altas emissões, as mudanças climáticas alteram as ondas oceânicas (em altura, frequência e comprimento) ao longo de metade das áreas costeiras em todo o mundo. Os impactos variam por região. Por exemplo, a altura média das ondas deve aumentar no oceano Antártico e na região leste tropical do Pacífico, mas diminuir no Atlântico Norte e em parte do oceano Pacífico. Isso acontece porque as mudanças climáticas afetam os padrões de vento, que, por sua vez, afetam as ondas.

Emissões

  • Papel crucial do uso da terra na determinação das mudanças climáticas: o Relatório Especial do IPCC sobre Mudanças Climáticas e Uso da Terra constatou que o solo removeu até 6 gigatoneladas líquidas (Gt) de CO2 por ano entre 2007 e 2016, o equivalente às emissões de gases de efeito estufa dos Estados Unidos. Mais desmatamento e degradação da terra, contudo, vão acabar com esse potencial de remoção de carbono da atmosfera. Leia mais a respeito neste post.

  • O dióxido de carbono aumenta o tamanho das plantas – até certo ponto: cientistas descobriram que os níveis mais altos de dióxido de carbono esperados para o final do século poderiam aumentar a biomassa das plantas em cerca de 12% em relação aos níveis atuais. Essa biomassa adicional pode sequestrar cerca de 59 petagramas de carbono (PgC) – em torno de seis anos de emissões globais de dióxido de carbono. No entanto, se o desmatamento e as mudanças no uso da terra persistirem, ou se a capacidade de remoção for enfraquecida ou revertida devido a novas mudanças climáticas, esse efeito será perdido.

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