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Árvores da Mata Atlântica guardam nos genes o segredo para dar escala à restauração

Em antigas pastagens degradadas em Porto Seguro e Trancoso, na Bahia, a Symbiosis cultiva árvores nativas em consórcio com exóticas. São cerca de 660 hectares, resultado do plantio de sementes coletadas de matrizes em seu hábitat natural, a Mata Atlântica. Espécies como louro pardo, jequitibá rosa, jacarandá e ipê felpudo estão ali pelo potencial econômico promissor, mas ainda pouco explorado em plantios comerciais – por enquanto.

Na sede da empresa, outra parte da iniciativa ganha corpo. É o programa de melhoramento genético, que envolve a produção de populações base, clones, sementes, cruzamentos e mudas com o objetivo de selecionar as melhores características das espécies florestais. Um dos raros e pioneiros casos de investimento em pesquisa & desenvolvimento (P&D) para silvicultura de árvores nativas no Brasil, o caso da Symbiosis foi importante fonte de informação para a publicação “Research gaps and priorities in silviculture with native species in Brazil”, uma iniciativa da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, liderada pelo WRI Brasil e com a participação dos maiores especialistas em silvicultura de espécies nativas do Brasil.

A iniciativa da Symbiosis é um bom ponto de partida para entender por que sementes, mudas, clonagem e melhoramento são elementos cruciais para a incorporação de espécies nativas em uma nova economia florestal. No longo prazo, o melhoramento pode garantir às nativas ganho de produtividade semelhante ao que tornou espécies de eucalipto e pinus as mais plantadas no país. O sucesso do modelo produtivo pode estimular iniciativas que ajudem a restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares até 2030, meta da NDC brasileira no Acordo de Paris.

Caça ao tesouro na Mata Atlântica

A primeira etapa de qualquer programa de melhoramento é o mapeamento das matrizes. Nesse sentido, o melhoramento funciona um pouco como se quiséssemos povoar um planeta distante: as chances de sucesso são maiores partindo de indivíduos de famílias distintas, com diversidade genética, e adaptados às condições climáticas e de solo do local pretendido para o plantio.

"O problema de espécies nativas com valor de mercado é que já não se encontram em grande quantidade na natureza. Resta muito pouco da Mata Atlântica inicial (12,4% segundo o Atlas da Mata Atlântica, 2019). Às vezes a floresta está em pé, mas as espécies mais valiosas já foram retiradas", explica Felipe Garbelini Marques, gerente de Melhoramento Florestal da Symbiosis.

A empresa coletou sementes no Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. Identificadas cerca de 2,5 mil matrizes de 34 espécies, iniciou-se o plantio dos bancos ativos de germoplasma (BAG) – as populações base, que não serão derrubadas, a partir das quais o programa conhecerá diferentes características. Árvores tortas, retas, com muitos ou poucos galhos, finos ou grossos: mesmo indivíduos desinteressantes à primeira vista podem guardar trunfos genéticos. Proteger esta diversidade é fundamental ao sucesso do programa de melhoramento. "Uma árvore torta, se cruzada com uma reta, pode gerar filhas com características que não estavam aparecendo, como qualidade de madeira ou resistência a doença", explica Felipe.

Em paralelo a 16,5 hectares de coleção genética, a Symbiosis conduz os primeiros plantios comerciais – 645,5 hectares de árvores. Desses, 100 hectares estão sendo plantados em 2019 e já levam em conta análises genéticas e medições em indivíduos que se destacam na população base. São os primeiros ganhos do melhoramento. "Das sete espécies que estão sendo plantadas, duas tiveram mudas produzidas a partir da seleção das melhores matrizes. Assim, em vez de coletar sementes de qualquer das dezenas de matrizes mapeadas, passamos a pegar das melhores", conta o biólogo.

Nas centenas de hectares de florestas já plantadas, a empresa tem a chance de experimentar diferentes práticas silviculturais e de manejo, os melhores momentos para plantio e desrama (um tipo de poda para evitar o desenvolvimento de nós na madeira), as distâncias ideais entre indivíduos, a preferência por sombra ou sol – informações que servirão também aos plantios futuros, de sementes melhoradas.

<p>Estacas de louro pardo e mogno asiático</p>

Estacas de louro pardo (à esquerda) e mogno asiático (à direita) (foto: Felipe G. Marques/Symbiosis)

Acelerar o florescimento (e a restauração)

Outro gargalo revelado pelo estudo de P&D é a propagação vegetativa, que é a multiplicação dos indivíduos por reprodução assexuada – ou seja, um tipo de clonagem. Há duas técnicas principais: estaquia e enxertia. O sucesso das técnicas para cada árvore depende de fatores específicos que, desvendados, ajudariam a destravar o plantio comercial de nativas.

A enxertia permite criar pomares relativamente compactos, o que facilita processos de melhoramento, que se baseia no cruzamento entre indivíduos e produção de sementes. Para isso, enxertam-se ramos de árvores já adultas que se deseja cruzar em porta-enxertos – uma muda da mesma espécie, de preferência da mesma família. "Se houver sucesso, posso ter clones de indivíduos selecionados ao meu alcance, em vasos", resume Felipe.

Quer dizer: esses pomares clonais reúnem diversas “mães” clonadas de árvores adultas. A partir de cruzamentos, podem originar múltiplas linhagens de sementes em um espaço pequeno.

Para poder cruzar as jovens plantas, além do sucesso na enxertia pode ser necessário induzir seu florescimento. Pesquisas têm sido exitosas em induzir a floração do jequitibá, que em cultivos convencionais só atinge a maturidade reprodutiva aos 20 anos de idade. "Louro e ipê felpudo demoram de três a quatro anos para atingir a maturidade. Possivelmente o melhoramento vai ser mais rápido do que o jequitibá", pondera Felipe.

As pesquisas de enxertia e indução de florescimento precoce contam com parceria da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Professor de Melhoramento Genético Florestal da universidade, Andrei Nunes desenvolve as pesquisas em colaboração com a empresa, em projeto que conta com o auxílio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Feitos os cruzamentos e identificados os descendentes que se quer reproduzir, entra em cena a estaquia – uma forma eficaz de multiplicar um indivíduo com características desejadas. É por meio de estaquia que a indústria da celulose garante o plantio homogêneo de milhares de mudas de eucalipto com a mesma produtividade e resistência a doenças: são todas clones do mesmo indivíduo com características excepcionais. Em um modelo produtivo desenvolvido, a enxertia dá suporte ao melhoramento e a estaquia dá escala ao plantio.

<p>Produção comercial de árvores nativas</p>

Na Symbiosis, produção comercial corre em paralelo a programa de melhoramento (foto: Felipe G. Marques/Symbiosis)

Perspectivas de P&D para espécies nativas

O melhoramento é um processo lento e contínuo, e características de um novo cruzamento podem levar décadas para se revelarem. A Symbiosis faz tudo ao mesmo tempo: o plantio comercial, a manutenção e o estudo das populações base, a clonagem por estaquia, para multiplicar bons indivíduos, e a enxertia de indivíduos bons, para geração de filhos ainda melhores. Assim, espera gerar o máximo de avanços num horizonte de poucas décadas.

A pesquisa & desenvolvimento em espécies nativas pode gerar as condições para a sobrevivência da biodiversidade florestal brasileira. Ao interesse econômico que, por décadas, levou à derrubada das nossas florestas, pode se sobrepor uma nova economia florestal, em que a silvicultura de espécies nativas é crucial para garantir a sobrevivência das espécies, dos ecossistemas e do próprio bioma.

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