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Incluir crianças na construção de cidades melhores é caminho para futuro sustentável

A cobrança de crianças e adolescentes para que lideranças políticas escutem suas demandas tem ganho destaque recentemente. Uma das principais responsáveis por isso é a sueca Greta Thunberg, de 16 anos, que lidera a campanha Fridays for Future – com engajamento também no Brasil.

Exigir ações de combate às mudanças climáticas e criticar a inação dos adultos une milhares de jovens pelo mundo. E nas cidades? A rápida urbanização ocorrida no último século tem como consequência a criação de lugares inseguros e pouco saudáveis para todos, especialmente as crianças. Planejar as cidades pela ótica delas pode transformar o cenário urbano para todos.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), mais de um bilhão de crianças vivem em cidades. O ambiente urbano tem impacto no comportamento, no desenvolvimento e no futuro – delas e do planeta. O acesso das crianças à cidade e às oportunidades, assim como a relação delas com o lugar onde vivem vai depender do planejamento dos espaços e da mobilidade urbana, que deve incentivar escolhas sustentáveis e saudáveis. Na véspera do dia das crianças, selecionamos iniciativas de cidades brasileiras que manifestam um olhar especial para as necessidades dos pequenos.

Caminhos seguros para a escola

A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo criou o Programa Rota Escolar Segura, uma iniciativa que visa tratar da segurança viária em áreas periféricas próximas a escolas, dando atenção aos trajetos a pé feitos pelas crianças na ida e na volta para casa. Ao avaliar as ocorrências de acidentes em cada região, a CET projeta algumas intervenções viárias, em geral com a implantação de urbanismo tático, que garantem maior segurança para os pedestres.

As intervenções procuram melhorar a visibilidade das crianças nas vias, reduzir a extensão das travessias e aumentar a utilização das mesmas pelos estudantes. A implantação de semáforos e de iluminação nas travessias também podem fazer parte dos projetos, assim como a redução dos limites permitidos de velocidade de tráfego.

Segundo a CET, a primeira Rota Escolar Segura, implementada em Itaquera, na COHAB José Bonifácio, obteve bons resultados tanto na melhora do comportamento dos pedestres e condutores, como no envolvimento com as crianças e a comunidade local. Outra rota já foi instalada no Jardim Nakamura e mais três estão previstas até o final de 2020.

A capital paulista tem ainda o projeto Territórios Educadores, que cria travessias seguras e lúdicas no trajeto da escola para casa. O programa prevê a criação de um trajeto interativo para integração de oito centros de ensino. As ruas recebem nova sinalização, lombadas, faixa de pedestre e é determinada a redução dos limites de velocidade de tráfego.

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Alunos da Escola Anne Frank, em Belo Horizonte, participam de intervenção viária (foto: Rafael Tavares/Octopus Filmes/WRI Brasil)

Transporte sustentável desde os primeiros passos

Fortaleza lançou, em 2013, o Bilhetinho, um bilhete eletrônico infantil, que visa facilitar o embarque das crianças no ônibus e evitar que elas precisem passar por cima ou por baixo da catraca. De acordo com a prefeitura, em 2019, foram entregues 3.791 Bilhetinhos, totalizando quase 30 mil cartões emitidos desde que o programa foi lançado.

O Bilhetinho é fornecido gratuitamente e pode ser utilizado por crianças de dois a sete anos de idade, ou por crianças com menos de 1,10 m de altura. Ainda que o bilhete não seja obrigatório, ele é uma forma de facilitar o transporte coletivo e dá mais comodidade às crianças.

O Mini-Bicicletar é outra alternativa que busca incentivar o transporte sustentável dos menores em Fortaleza. Disponível desde 2017, o projeto é voltado para crianças de até 10 anos e funciona dentro do sistema das bicicletas compartilhadas para adultos, o Bicicletar. O adulto responsável precisa adquirir um passe próprio para poder garantir uma minibicicleta. São 50 unidades divididas em cinco estações espalhadas pela cidade. Desde a inauguração, o sistema já teve mais de 18 mil viagens realizadas.

A voz das crianças nas políticas públicas

A cidade de Jundiaí passou a integrar, no final de 2018, a o projeto Cidade das Crianças, uma iniciativa criada pelo pedagogo italiano Francesco Tonucci que busca inserir a participação das crianças na definição de políticas públicas para a cidade.

O “Comitê das Crianças” e o “Ruas de Brincar” são os programas que integram o projeto na cidade. O Comitê é formado por vinte e oito crianças voluntárias, moradores de 23 bairros de Jundiaí, escolhidas por meio de sorteio. Segundo o regulamento do comitê, são realizadas reuniões mensais para debater propostas de políticas públicas que serão apresentadas ao prefeito da cidade na última reunião do ano, em novembro. Os encontros tratam de temas ligados a segurança, educação, lazer e saúde voltados à infância.

Já o "Ruas de Brincar" promove a abertura de vias e interrupção do tráfego de veículos para a realização de atividades e brincadeiras com as crianças. Quem executa o fechamento das ruas é a própria população e a prefeitura fornece cavaletes e a sinalização necessária para garantir a segurança do evento. Os interessados podem preencher um formulário online, coletar as assinaturas de pelo menos 75% dos moradores do trecho em questão e entregar os documentos na prefeitura. O órgão tem até 30 dias para dar uma resposta e a decisão é publicada na Imprensa Oficial do Município, por meio de decreto, com validade de um ano e é válida para domingos e feriados.

Crianças felizes fazem cidades felizes

Anos atrás, o colombiano Enrique Peñalosa, prefeito de Bogotá, escreveu que "crianças são uma espécie de indicadores. Se podemos construir uma cidade bem-sucedida para crianças, teremos uma cidade bem-sucedida para todas as pessoas". Observar falhas que prejudicam o bem-estar de crianças permite enxergar as maiores vulnerabilidades de uma cidade. Desenvolver desde cedo a relação delas com o meio urbano é uma maneira de criar cidadãos conscientes do seu papel na construção de futuro melhor para todos.

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