Este post foi escrito por Todd Gartner e James Mulligan e publicado originalmente no WRI Insights.


Para algumas das questões hídricas mais urgentes do mundo, a resposta está na natureza.

Água limpa e abundante depende de sistemas naturais saudáveis no entorno, como as florestas podem ser. Boa parte da água do planeta é filtrada através de bacias hidrográficas florestadas, que melhoram a qualidade da água e protegem o recurso. Grandes florestas, como a Amazônia, ajudam até mesmo a controlar os chamados “rios do céu”, que ditam os padrões de chuva a até centenas de quilômetros de distância.

Tanto os recursos hídricos quanto os florestais estão ameaçados, mas sua inter-relação implica que esses dois sistemas podem melhorar simultaneamente. As crises hídricas atuais são impactadas por três desafios específicos – mudanças climáticas, incêndios florestais e fenômenos climáticos extremos – e todos eles podem ser beneficiados pela restauração florestal.

As florestas podem desacelerar as mudanças climáticas

Emissões de gases de efeito estufa estão aquecendo o clima e aumentando a intensidade e a frequência das chuvas. As nuvens estão sendo empurradas para as regiões polares, aumentando os riscos de seca nas áreas onde grande parte dos alimentos são produzidos. De inundações a períodos de seca e ao derretimento de geleiras, continuaremos a sentir grande parte dos impactos das mudanças climáticas a partir de nossos sistemas hídricos.

As árvores são o melhor mecanismo da natureza para retirar dióxido de carbono da atmosfera, na medida em que absorvem e armazenam o gás enquanto crescem. As florestas já absorvem um terço das emissões de combustíveis fósseis do mundo, mas ainda é possível melhorar: dois bilhões de hectares de áreas degradadas estão prontas para restauração. Ampliar o potencial das florestas de retirar carbono da atmosfera desempenha um papel crítico nos esforços de mitigação das mudanças climáticas e controle de seus impactos na água.

Combater incêndios florestais para combater a poluição da água

Florestas saudáveis servem como uma garantia a uma ameaça crescente à qualidade da água: os incêndios florestais. Como evidenciado pelas chamas que causaram estragos na Califórnia no ano passado, as altas temperaturas aliadas a florestas excessivamente densas criam um ambiente perfeito para incêndios catastróficos. Além de ameaçar vidas e destruir propriedades, esses incêndios também acabam enviando fuligem e cinzas a corpos de água próximos. As florestas podem levar décadas para crescer de novo depois de um incêndio, de forma que esses eventos também danificam por anos sua habilidade de filtrar a água e controlar a erosão do solo.

Parte da razão pela qual esses incêndios se formam e se espalham fora de controle está no fato de que as florestas muitas vezes crescem demais, devido à falta de incêndios menores que correm naturalmente, e estão cheias de árvores mortas em decorrência da ação de insetos, doenças e da seca. O Forest Resilience Bond conecta atores-chave que podem ter benefícios com a redução dos riscos e da intensidade dos incêndios, bem como de uma água mais limpa. Através da rede, essas entidades podem realizar pagamentos para um manejo florestal mais proativo. Com a remoção de matéria vegetal morta e o manejo de florestas que cresceram demais, é possível reduzir o risco de incêndios florestais graves e a poluição da água.

Florestas saudáveis contribuem para os sistemas de água urbanos

As cidades têm sido o foco de muitas das crises hídricas mais recentes, incluindo a ameaça de um “Dia Zero” com o corte no abastecimento de água na Cidade do Cabo e a inundação em Houston durante o furacão Harvey. Na medida em que a população urbana aumenta, as cidades continuarão a enfrentar secas e eventos climáticos extremos, uma ameaça à vida cotidiana, à subsistência e ao crescimento econômico nas áreas urbanas.

As florestas podem ajudar as cidades de duas formas: primeiro, restaurar e proteger as áreas banhadas por rios no entorno das cidades pode naturalmente purificar a água, tornando o tratamento da água a partir de serviços públicos mais barato. A cidade de Nova York, por exemplo, investe cerca de US$ 100 milhões por ano na proteção de sua bacia, o que ajuda a filtrar aproximadamente 1,4 bilhão de galões de água para a cidade. Esse investimento preveniu a necessidade de uma nova usina de filtragem que poderia custar bilhões de dólares à cidade.

As florestas também protegem as cidades dos impactos do clima extremo. Os solos e estruturas radiculares absorvem água, evitando inundações. Essa água estocada também ajuda a aumentar o fluxo da água em períodos de seca. Houston e Bangalore são dois exemplos de cidades que sofreram grandes inundações, em parte devido ao crescimento excessivo ao custo das “esponjas” naturais que cercavam as cidades. San Diego, por sua vez, percebeu que as florestas urbanas ofereciam um benefício, em termos de proteção contra inundações, equivalente a US$ 160 milhões em infraestruturas como paredes de contenção e barragens.

A natureza é a solução para as crises hídricas

Às vezes a melhor resposta para um problema é a mais simples. Restaurar e proteger as florestas hoje é uma medida que pode prevenir as crises hídricas do futuro.