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Emerson e Viviane - As Caras da Restauração

EMERSON E VIVIANE

Os guardiões da juçara

Próximo à casa em que Emerson e Viviane vivem com os filhos, fica a área de manejo com cerca de 400 palmeiras juçara. Várias matrizes cinquentenárias da espécie ameaçada de extinção despontam na mata. O casal realiza a colheita em dupla – com escada e equipamento de rapel para o máximo de segurança. Esticam uma rede sob a copa da palmeira, apoiam a escada extensiva no tronco esguio. Emerson sobe com cuidado até os cachos carregados – com sorte, de frutos maduros. Para cada cacho derrubado, há uma palmeira que permanece de pé.

"Salvar a juçara da extinção, gerando renda para a agricultura familiar". O objetivo é como um mantra a embalar os dias de Emerson Miranda. A propriedade do produtor capixaba, no município de Santa Teresa, é a primeira do Espírito Santo com plano de manejo aprovado para extração dos frutos da palmeira juçara (Euterpe edulis). No sítio Rancho Fundo, enquanto ajudam a espécie, "prima-irmã" do açaí (Euterpe oleracea), a retomar a paisagem de Mata Atlântica de que quase foi eliminada, Emerson e a esposa, Viviane Vieira Lopes, sonham um plano ambicioso: popularizar a polpa saborosa e nutritiva dos frutos de juçara para que os palmiteiros passem de predadores a aliados da conservação e restauração da palmeira.

Emerson realiza a colheita com escada e cinto de segurança (Foto: Asteroide)

Não por acaso, a juçara é conhecida pelos capixabas como palmito-doce. Historicamente, a palmeira foi derrubada para a extração de seu palmito saboroso e macio, que pode ser consumido in natura. Mas, enquanto um mesmo açaizeiro produz vários caules, a juçara é monocaule: cada palmito extraído significa a morte de uma palmeira. Em um enredo comum na Mata Atlântica, a espécie foi quase dizimada ao longo do século 20. Desde 2008, sua exploração é proibida – o que não impede que pessoas se embrenhem na floresta para extrair ilegalmente o palmito, que chega ao mercado disfarçado de pupunha e açaí.

O parentesco com o açaí se percebe nos frutos, muito semelhantes. Mas o mercado da juçara ainda é incipiente. Consolidá-lo é o caminho para a conservação e restauração da espécie. Enquanto um palmito é vendido por R$ 5 a R$ 10, Emerson e Viviane comercializam o quilo de polpa por R$ 30. "Se é levado até o palmiteiro o conhecimento, ele não vai querer tirar o palmito. Quem vai querer se arriscar por R$ 10 se pode não se arriscar e ganhar R$ 60?", indaga Emerson.

Emerson e Viviane desenvolvem o trabalho pioneiro no estado graças ao regramento ambiental do Espírito Santo, que prevê a exploração sustentável de produtos não madeireiros por pequenos produtores e populações tradicionais como forma de gerar renda e contribuir para a conservação e restauração da floresta. O caminho é repleto de desafios, mas o casal persiste. "Vamos mostrar que é possível gerar renda com a floresta em pé", sintetiza Emerson.

Emerson e Viviane trabalham juntos, da colheita dos frutos à venda da polpa (Vídeo: Asteroide)

Uma propriedade devolvida à natureza

A juçara entrou para a lista de espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção no início dos anos 1990 – e nunca mais saiu. Foi nessa época que Apolônio Miranda realizou o sonho de comprar um sítio para os momentos de lazer da família. Levou um ano até convencer o filho surfista a deixar de lado "o rock de Praia Grande" para conhecer a nova propriedade. "Eu cheguei aqui e vi aquele monte de palmeira, achei que era coqueiro. A primeira paixão pela juçara veio por esse ar tropical, porque lembra a praia", conta Emerson.

Talvez o ar litorâneo também tivesse a ver com o fato de que, no lugar da densa mata nativa, a propriedade havia sido convertida para sistemas de produção convencional, repleto de bananeiras, laranjeiras e 13 mil pés de café. Emerson achou que aquilo não estava certo. "Como a gente não era produtor rural, falei: 'Pai, vamos devolver o sítio pra natureza, deixar a juçara viver'", relembra. Apolônio deu o aval: "Façam o que vocês quiserem".

Por duas décadas, o plano de devolver a propriedade para a natureza significou não interferir em nada. Acontece que a regeneração da juçara pode ser mais rápida e efetiva com ajuda da mão humana: o plantio das mudas com o manejo correto acelera o crescimento e a maturidade da palmeira, que chega a frutificar em um terço do tempo. "Se eu não tivesse sido tão radical, hoje teria 30 mil juçaras aí", lamenta Emerson.

Palmeiras podem atingir 20 metros de altura (Foto: Asteroide)

Mudas produzidas no sítio Rancho Fundo são distribuídas na região (Vídeo: Asteroide)

Pioneirismo no manejo sustentável

As coisas começaram a mudar para o casal em 2013, quando o Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf) aprovou uma instrução normativa detalhando as condições para que a extração do fruto da juçara pelo produtor seja realizada de forma sustentável. Foi quando Emerson e Viviane se aproximaram do Projeto Biomas - Mata Atlântica. O projeto do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) ofereceu um curso de capacitação sobre manejo de espécies nativas incluindo a juçara.

Graças à instrução normativa e ao apoio fundamental do Incaper e do Biomas, o casal aprendeu o manejo da juçara e adequou a propriedade para obter da autorização. Depois vieram outros auxílios: o sítio foi beneficiado pelo Reflorestar, programa de pagamento por serviços ambientais (PSA) do Espírito Santo. O programa faz parte da iniciativa 20x20, proposta por países da América Latina e Caribe na COP 20, no Peru, em 2014, para restaurar e 20 milhões de hectares de áreas e florestas degradadas até 2020. O WRI Brasil também é parceiro da iniciativa e trabalha, por meio dos projetos Pro-Restaura e VERENA, para mostrar os benefícios econômicos da restauração florestal no Espírito Santo, engajar produtores e atrair investimentos para o setor.

O estado sofre com as mudanças climáticas e a estiagem, que nos últimos anos não poupou regiões como Santa Teresa. O Reflorestar estimula iniciativas que protejam o ciclo hidrológico por meio do incentivo à conservação e recuperação da cobertura florestal e ao manejo sustentável do solo. O programa já financiou a conservação de 10 mil hectares e a restauração de outros 10 mil.

Como haviam “devolvido o sítio para a natureza”, Emerson e a família tiveram reconhecida a recuperação e preservação de 10 hectares de florestas na propriedade. Receberão um total de R$ 20 mil divididos em cinco anos. Com as três primeiras parcelas do benefício, Emerson e Viviane compraram os equipamentos para beneficiamento: despolpadeira, liquidificador industrial, freezers e seladora com os quais Émerson e Viviane transformam os frutos da juçara na deliciosa polpa roxa.

A rede evita a perda de frutos na colheita e facilita a primeira parte da limpeza (Foto: Asteroide)

A prima menos conhecida do açaí

Obter o “ouro roxo” da juçara também tem seus caprichos. Só chegando bem perto dos frutos, Emerson consegue avaliar se estão no ponto para virar polpa. É comum realizar todos os preparativos para só então descobrir ter escolhido a palmeira errada. Se boa parte dos frutos ainda precisa de tempo para amadurecer, resta desmontar a rede, recolher a escada e ir para a próxima.

Uma vez colhidos, é preciso partir rápido para o processamento para que o produto não seja perdido (leia na galeria). Ao lado da casa em que a família vive, há uma outra casinha simples cujo único cômodo reformado funciona como agroindústria. Emerson e Viviane levam os baldes cheios de fruta limpa para esta sala. Ali, o fruto de juçara passa pela despolpadeira, é embalado e congelado. As sementes, depois de secas, podem ser plantadas ou comercializadas.

O ouro roxo da Mata Atlântica

Da colheita ao congelamento da polpa, o trabalho de beneficiamento dos frutos da juçara é bastante artesanal. Todo o processo deve ser realizado em poucas horas para evitar que o produto oxide.

Veja os passos do processo:

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Colheita. Emerson sobe na árvore com equipamento de rapel. Só perto dos cachos é possível identificar se estão no ponto da colheita.

Uma empresa da região tem fabricado trufas com a polpa. Além disso, Emerson e Viviane produzem "chup-chup" (bastão de suco congelado, também chamado geladinho, sacolé ou dindin dependendo da região) e polpas mistas. "Tem juçara com cajá, com manga, com morango, com pitanga, com jaca", enumera Viviane. "Dá para fazer geleia de juçara, biomassa, bolos. Sabemos que ela também tem potencial para comida salgada, como o açaí é servido na região Norte", completa o produtor.

Ao primeiro gole ou colherada, o sabor da polpa lembra muito o do açaí. Mas não cometa o equívoco de chamar o fruto de açaí na frente de Emerson. "Açaí, não, juçara! Muita gente que não gosta de açaí se apaixona pela juçara. Dizem que tem menos gosto de terra", argumenta. "E tem até quatro vezes mais antocianina, um antioxidante que é uma das substâncias mais procuradas no mundo, é o elixir da juventude."

Salvar a juçara para salvar a Mata Atlântica

Para tucanos, periquitos, jacus e sabiás, a diferença entre açaí e juçara parece menos importante. Estão entre as dezenas de gêneros de aves, além de mamíferos como roedores e macacos, que se regozijam nos frutos de ambas palmeiras do gênero Euterpe. Os frutos da juçara são abundantes no inverno, quando a maior parte das safras de frutas se esgotou, o que confere à planta papel estratégico na ecologia da Mata Atlântica.

Aves que chegam de longe trazem outras sementes, contribuindo para a manutenção e recuperação da biodiversidade da floresta. Os animais também se encarregam de espalhar sementes de juçara, garantindo a troca genética entre diferentes fragmentos de floresta, importante para a sustentabilidade e a restauração da espécie. "Onde tem juçara, tem vida em abundância", sentencia Emerson.

A norma determina que ao menos um cacho por palmeira seja deixado na árvore para sustentar o ciclo virtuoso da vida na floresta. A fragmentação da mata é ao mesmo tempo causa e consequência da derrubada da juçara: se intensificada, leva à perda de diversidade genética, ao declínio da dispersão de sementes e ao agravamento da situação vulnerável da juçara.

Dezenas de espécies alimentam-se dos frutos da juçara (Foto: Luiz Ribenboim)

Plantio de mudas tem taxa de sobrevivência maior do que de sementes (Foto: Asteroide)

Emerson e Viviane fazem sua parte. Ao longo de 2019, forneceram 400 mudas de juçara por mês para o Instituto Nacional da Mata Atlântica (Inma) para distribuição à população. Por meio do Projeto Biomas, aproximaram-se de viveiros públicos e privados interessados em parcerias com a primeira propriedade autorizada a coletar e comercializar sementes de juçara no Espírito Santo. "Como eles realizam a despolpa, as sementes têm taxa de germinação mais alta", explica Fabiana Gomes Ruas, coordenadora do Projeto Biomas - Mata Atlântica, que acompanha o casal desde o início do processo que autorizou o manejo na propriedade.

Barreiras e oportunidades de ganhar escala

O casal também tem restaurado a população de juçara no restante do sítio por meio de um sistema agroflorestal, uma das tecnologias propostas pelo Reflorestar e que tem bom desempenho para a restauração com juçara. Em 28 anos de regeneração natural, as palmeiras chegaram à metade do morro, antes tomado por plantações de café. Com a agrofloresta, a expectativa é acelerar o processo e mostrar a viabilidade econômica da restauração. “Dentro da mata, a juçara pode demorar até 25 anos para florar. Na beira da mata, 12 anos. Nesse arranjo, tem juçara que em 8 anos está dando fruto”, explica Emerson.

Na área de manejo de juçara, Emerson estima a produção média das palmeiras em torno de 5 quilos de fruto por cacho, totalizando cerca de 3 toneladas por safra. Beneficiados e comercializados ao valor de R$ 30 por quilo que Emerson diz praticar, podem gerar uma renda considerável. Mas barreiras institucionais, financeiras e culturais ainda precisam ser superadas para que o projeto de Emerson e Viviane chegue mais longe e se multiplique.

Embora comercialize a polpa em sua propriedade, o casal ainda não acessa nem o mercado institucional de políticas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) nem as redes de varejo. Precisam, antes, concluir a construção e regularização de sua agroindústria – o que inclui reformar a pequena casa em que realizam o beneficiamento, preparando cômodos para a recepção e limpeza dos frutos, e melhorar o acesso para carros no terreno íngreme.

O próprio mercado de juçara ainda reflete os caminhos tortuosos do comércio de produtos não madeireiros no Brasil. "É preciso criar demanda", afirma Fabiana. "Instituições como o Incaper têm desenvolvido pesquisas importantes sobre propriedades químicas, nutricionais e nutracêuticas (neologismo que faz referência à combinação de propriedades nutritivas e farmacêuticas) da juçara, além da caracterização das populações nativas. Mas são necessárias mais ações de impulso à cadeia, projetos que trabalhem com os produtores o rótulo, a diversidade de produtos", explica.

A família quer unir duas paixões e popularizar a polpa de juçara no Litoral (Foto: Asteroide)

Com o mercado consolidado, Emerson espera poder pagar em torno de R$ 9 aos produtores pelo quilo da polpa – atualmente, paga-se em torno de R$ 2 pelo quilo do fruto.

Em sua atuação em projetos de restauração no país, o WRI Brasil tem testemunhado que programas e políticas públicas, incluindo a pesquisa e a assistência técnica e extensão rural, são cruciais para a formação de cooperativas e associações que operem agroindústrias, capacitando e estabelecendo a ponte entre os pequenos produtores-restauradores e o mercado, estimulando a restauração em biomas tão diversos quanto a Amazônia, a Caatinga e a própria Mata Atlântica.

Yçara, um ideal entre o mar e a mata

Para a coordenadora do Projeto Biomas, Emerson e Viviane poderão ser referências para essa cadeia, não só pelo pioneirismo, mas como formadores, dando cursos, capacitações e suporte aos produtores que decidam ingressar no mercado legal da palmeira juçara. "O trabalho deles pode se multiplicar e servir de exemplo, porque o produtor só adere quando vê alguém fazendo e dando certo", argumenta. "Queremos que mais produtores se juntem, organizados em uma associação ou cooperativa. Explorar o fruto da juçara é uma opção de renda extremamente viável para o pequeno produtor", afirma.

Emerson sonha mais alto. Tem um plano ambicioso que conecta o remanescente de Mata Atlântica de Santa Teresa com o litoral. Na mente inquieta do produtor-surfista, amadurece a Yçara, uma empresa que vai combinar em uma mesma missão duas paixões: o surfe e a juçara. "Se for para a praia e perguntar o que cada surfista faz, um é médico, outro ator, outro estudante. O esporte une. A juçara é um energético nativo da Mata Atlântica. Enxergamos no surfe, na capoeira, no esporte radical, um grande potencial para levar a juçara ao mercado consumidor. O esporte é a porta de entrada da polpa da juçara para o consumidor".

O plano também inclui fazer do sítio um espaço de observação da juçara em seu habitat natural. Emerson desenha no ar as passarelas elevadas pelas quais os visitantes poderão passear próximo às copas das palmeiras. Antes um conservacionista estrito, o produtor despertou para o empreendedorismo com um forte componente social e ambiental. "Vamos organizar campeonatos de surfe, uma equipe de surfe feminino", diz, enumerando planos. Viviane vai junto.

Foto: Asteroide

Queremos que os produtores possam ter uma garantia de que não precisam matar a palmeira. Todo ano a juçara vai dar o fruto. Tudo isso eu estou aprendendo com o Emerson. É uma aventura.

Viviane

"Nós não caminhamos sozinhos. As instituições governamentais, privadas, os produtores, cada um tem o seu papel nessa corrente valiosa para salvar a juçara da extinção", diz Emerson, sempre reverente aos parceiros que têm tornado essa aventura possível. "Já tive vontade de desistir, mas Viviane me equilibra", diz.

Como a onça pintada, o mico-leão dourado, a palmeira juçara, Emerson e Viviane resistem. Entardece no sítio Rancho Fundo, e as cigarras iniciam sua sinfonia. Entre goles de suco de juçara, Emerson recupera o mantra, sutilmente alterado: "Queremos salvar a Mata Atlântica, tirando a juçara da extinção e gerando renda para a agricultura familiar". Desta vez, com o adendo: "Porque se não gerar renda para a agricultura familiar, o projeto estará incompleto."