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Silvany Lima – As Caras da Restauração

SILVANY LIMA

A sertaneja que colhe dinheiro das árvores

“A vida aqui no sertão nunca foi fácil e nem vai ser”. Ainda não houve seca, nem mesmo a maior dos últimos 100 anos, capaz de abalar a positividade e o otimismo de Silvany Silva Lima. Nas profundezas da mensagem está a esperança de uma liderança feminina que domina a dinâmica da Caatinga por experiência. Não é fácil, mas ela conhece os caminhos para viver melhor na região brasileira que é a mais severamente afetada pelas mudanças climáticas.

Paisagem típica da Caatinga na região do sertão baiano onde fica Pintadas (Foto: Caroline Jacobi/WRI Brasil)

Silvany, a Vany, é agricultora em Pintadas, na Bahia, município de 11 mil habitantes, dos quais metade vive na zona rural onde predomina a agropecuária de baixa tecnologia e alta dependência de recursos naturais. Marcada por contrastes, a Caatinga é a região semiárida mais biodiversa do planeta e único bioma exclusivamente brasileiro. Ocupa 11% do território do país, área equivalente à soma de França e Itália. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) prevê um aumento entre 2°C e 5°C até 2100 no semiárido brasileiro e dados do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens e Satélites (Lapis), ligado à Universidade Federal de Alagoas (Ufal), mostram que 12,85% da região já está em processo de desertificação. Somado a isso há a redução no regime de chuvas que ameaça a segurança alimentar e hídrica das populações locais, com queda na produção agrícola, em especial na agricultura de subsistência, fonte de renda para milhares de famílias como a de Silvany.

Cerca de 80% do bioma já foi alterado desde os tempos do Brasil Colônia. Nos campos próximos à casa de Vany, o que se vê são grandes áreas abertas e cobertas com pasto, poucas árvores e muitos mandacarus, a espécie nativa de cacto eternizada na música de Luiz Gonzaga, artista responsável por apresentar a cultura do Nordeste aos próprios brasileiros até se tornar uma espécie de Elvis Presley do sertão. A pecuária extensiva, que inclui vacas, cabras e ovelhas, é adaptada às condições climáticas e constitui uma das bases socioeconômicas do Nordeste.

À sombra do umbuzeiro, Silvany em um momento de pausa com o marido José Carlos e a filha Anna (Foto: Bruno Felin/WRI Brasil)

É seco na Caatinga, mas o sertão também é verde – quando chove. A seca se estende de sete a dez meses, em alguns lugares até um ano. Muitas espécies nativas se adaptaram à escassez de água, desafio que recai também sobre sertanejas e sertanejos. Uma delas é o umbuzeiro, definido pelo escritor Euclides da Cunha em “Os Sertões” como “árvore sagrada do sertão”, mas que ganhou outro significado para Silvany: “Eu digo que esse é um pé de dinheiro verde”. Na terra de onde ela tira o sustento a partir da criação de vacas para a produção de leite, basta as primeiras chuvas decretarem o fim do período de estiagem para as árvores recuperarem as folhas e logo produzirem o delicioso umbu. Até alguns anos atrás sinônimo de pausa, sombra e fruta fresca na lida do campo, hoje o umbu é uma fonte de renda adicional para famílias de Pintadas.

Práticas agroflorestais adotadas por Silvany e outras agricultoras e agricultores para manter, cultivar e comercializar umbu e outras frutas nativas podem contribuir para reverter o processo de desertificação e degradação do bioma. Mas quem compra umbu?


Umbu, fruta nativa da Caatinga (Foto: Bruno Felin/WRI Brasil)

A colheita do umbu é feita manualmente. Silvany recolhe as frutas do chão ou chacoalha a árvore para depois recolher os mais maduros (Vídeo: Asteroide)

O povo engajado de Pintadas

Durante décadas, investimentos públicos e privados em tecnologias como cisternas e pequenas barragens ajudaram os sertanejos a conviver com a seca. Apenas recentemente se iniciou um estímulo a sistemas agrícolas mais resilientes às mudanças do clima. Pintadas, no entanto, tem um histórico de engajamento social consolidado, fundamental para o seu desenvolvimento. Projetos como Adapta Sertão, que formou uma coalizão de organizações e buscou viabilizar estratégias e tecnologias sociais para adaptação da agricultura familiar às mudanças do clima no semiárido brasileiro, deram passos importantes rumo a uma transformação positiva.

Foi dessa trajetória de engajamento da cidade que nasceu a cooperativa Ser do Sertão, fundada em 2008 por um grupo de mulheres para comercializar produtos da agricultura familiar e que evidenciou a capacidade de mobilização das lideranças femininas de Pintadas e região. Ao viabilizar a venda de produtos em escala, a cooperativa criou novas perspectivas econômicas para os produtores rurais da Bacia do Jacuípe, formada por 14 municípios, incluindo Pintadas. Com o tempo, essas mulheres perceberam que a árvore sagrada do sertão produzia um delicioso suco e começaram a sonhar com uma fábrica para produzir polpa congelada de frutas.

Girlene Almeida, gerente de produção da fábrica, organizando as polpas na câmara fria (Foto: Luiz Fernando Ricci/WRI Brasil)

Processamento de umbu na Delícias do Jacuípe (Vídeo: Asteroide)

O trabalho, que começou artesanal, ganhou apoio de organizações públicas, privadas e da sociedade civil, incluindo o WRI Brasil, para se tornar uma fábrica bem estabelecida, batizada de Delícias do Jacuípe. A agroindústria tem a capacidade de processar 2,4 toneladas de fruta por dia, que é a sua capacidade máxima, em alguns meses do ano. Além do umbu, viram polpa congelada frutas nativas da Caatinga como cajá-umbu e maracujá da caatinga, além de outras como acerola, manga e goiaba.

Quando esta reportagem foi realizada, em fevereiro de 2020, a temporada de umbu estava em plena atividade, após um começo de ano com boas chuvas. Um dos cooperados que chegou carregado de frutas foi Martim Araújo, 55 anos. Ele trabalha em uma fazenda cujo proprietário não comercializa o umbu, mas autoriza que sua família colha e venda. Martim chegou em sua motocicleta com a colheita do dia em dois tonéis, que pesaram 125kg. A cooperativa paga R$ 1,50 por quilo. Ele voltou para casa com R$ 187,50. “[O umbu] é uma passagenzinha de dois ou três meses, mas dá uma boa ajuda lá em casa”, diz ele. Por esse valor, Martim enfrenta 18 quilômetros em uma estrada esburacada, que define como “só para quem tem coração”.

A viagem vale a pena. O gráfico abaixo mostra como o preço pago ao produtor por frutas nativas é mais alto em média do que outras espécies comerciais.

Martim Araújo entrega carga de umbu na fábrica (Foto: Bruno Felin/WRI Brasil)

Agricultores que nunca derrubaram seus umbuzeiros e estão se dedicando à atividade como Silvany ganham um reforço importante na renda durante a safra. Ela costuma vender 1,5 mil quilos da fruta por mês à cooperativa, geralmente entre dezembro, janeiro e fevereiro. Esse valor mensal chega a superar o que ganha com a venda de leite. A diretora comercial da Cooperativa Ser do Sertão e gerente de produção da Delícias do Jacuípe, Girlene Almeida, conta a história de um produtor que começou a plantar acerola em 2016, quando a indústria começou a produzir, e hoje tem 167 pés na propriedade. “Quem derrubou pé de umbu em Pintadas, hoje quer ter, embora do plantio até uma árvore começar a produzir sejam necessários cerca de 10 anos”, diz.

Técnicas de enxertia podem reduzir esse período para dois anos. A Embrapa trabalha com pesquisa e desenvolvimento da espécie para melhorar a produtividade e reduzir o tempo de espera por frutos. O umbu também já é transformado em doces, compotas e até cerveja artesanal.

Segundo Girlene, atualmente 90% da produção da fábrica se destina ao mercado institucional, especialmente prefeituras, que servem o suco aos alunos da rede de educação. “Temos o plano de aumentar nossas vendas ao mercado privado, mas ainda falta maior diversidade de frutas e regularidade na produção durante o ano, principalmente para vendermos em embalagens menores, de 100 gramas, que hoje fazemos apenas de umbu e acerola”, explica. Atualmente, a maior parte da produção se dá em embalagens de um quilo. O estímulo à adesão de mais produtores a modelos agroflorestais que incluam a fruticultura dará impulso à fábrica e à restauração da Caatinga.

Foto: Bruno Felin/WRI Brasil

Com essa luta das mulheres de Pintadas, a gente conseguiu uma sobrevivência bem melhor. Na fábrica, tem várias mulheres trabalhando. Na Cooperativa, todas são mulheres. Hoje, a árvore de umbu é minha amiga. Antes era como qualquer outra árvore. Agora eu percebo que além de ser alimento e sombra para os animais, é boa pra mim também, porque traz benefícios para minha família. Essa renda a mais serve para a alimentação dos nossos filhos, material da escola, bolsa dos nossos filhos que estudam em Salvador, eu tenho dois lá.

Silvany Lima

A feira

As feiras livres são eventos fundamentais em qualquer cultura, mas na região Nordeste do Brasil, além de enorme importância comercial, sustentam a tradição oral, o comportamento, a cultura do povo. Silvany tem uma barraca onde revende hortifrutigranjeiros. A própria Cooperativa Ser do Sertão também conta com a sua barraca. Na feira de Pintadas, dos mais variados produtos alimentícios frescos a roupas, bocas de fogão, fumo de corda, tudo se encontra.

Fotos: Bruno Felin e Asteroide

Conhecimento agroecológico pode impulsionar restauração

Não é simples restaurar uma paisagem com pouca disponibilidade de água. Estudos conduzidos na Bacia do Jacuípe mostram que, desde 1962, o volume de chuva que era de 600 a 800 mm por ano sofreu uma redução média de 350 mm (50%). Técnicas de restauração do bioma ainda podem evoluir, por isso é importante documentar e explorar o conhecimento de produtoras e produtores locais que já adotam práticas agroflorestais com espécies nativas.

O WRI Brasil conduziu uma pesquisa em 2015 para registrar os saberes agroecológicos dos produtores rurais da região, que têm vasto conhecimento em função do tempo de interação com a Caatinga – a maioria dos 42 entrevistados estava há mais de 20 anos na região. Para cerca de 30%, a produção é para subsistência, o que torna ainda mais importante uma adaptação ao clima baseada em diversificação de produtos e geração de renda. O estudo mostrou que as práticas agroflorestais e a inserção de espécies nativas são fundamentais para qualquer estratégia de estímulo à resiliência climática no semiárido brasileiro.

Uma árvore de umbu, por exemplo, é uma cultura de retorno mais longo para quem está começando. Silvany tem árvores de até três décadas e há um bom tempo está deixando crescer novos umbuzeiros. Com o foco na criação de gado, ovinos e caprinos na região, muitos produtores passaram anos removendo as árvores que cresciam em meio ao pasto. A ironia é que essas árvores podem servir inclusive para alimentação dos animais, além de oferecer a sombra necessária para o período de estiagem.

O cultivo da palma, um tipo de cacto que se adaptou bem ao Nordeste brasileiro, consolidou-se como uma técnica de adaptação para garantir alimento aos animais quando a seca faz desaparecer o pasto por tempos prolongados. Essa é uma prática fundamental para agricultores como Vany e outros que fazem pecuária de corte e leite. Além da alimentação animal, a palma também é usada para formar barreiras para a contenção do escoamento superficial de água no solo e funciona como uma fonte de irrigação natural, retendo a umidade.

Silvany mantém área com plantio de palma na propriedade. O cacto grande, à direita, é um mandacaru (Foto: Bruno Felin/WRI Brasil)

O fruto da palma também pode ter potencial: é doce, saboroso e nutritivo. Também conhecido como figo-da-índia, é comercializado em países como África do Sul, México, Chile, Peru e Bolívia, tanto para consumo interno quando para exportação. Durante o período de escassez de chuvas, quando falta palma, até mesmo os mandacarus podem servir de alimento aos animais.

Outras espécies, nativas da Caatinga, também têm potencial ainda pouco explorado. O maracujá da caatinga, mais doce e suave do que o maracujá comum, porém um pouco mais ácido também, já começou a ser comercializado pela Delícias do Jacuípe. O licuri, fruto de uma palmeira, é semelhante a uma amêndoa, com sabor que lembra coco e pode ser consumido in natura, utilizado para doces ou extração de óleo. Algumas cooperativas e indústrias da região processam e comercializam, mas ainda de forma incipiente. O fruto do mandacaru é outro que demonstra aptidão ao mercado. Além da fama por trás do cacto, ele é parecido em cor, forma e sabor com a pitaia, fruto exótico que já é vendido por um bom valor nas grandes cidades brasileiras. A diversificação de espécies poderia dar a agricultores da Caatinga novos ciclos produtivos além do umbu, que produz em apenas três meses do ano, e ainda ajudar na expansão da fábrica de polpa para novos mercados.

Frutos da Caatinga

Algumas espécies de frutas da Caatinga já tem valor comercial, enquanto outras seguem pouco exploradas.


Umbu

Licuri

Maracujá da Caatinga

Fruto do Mandacaru

Fotos: Bruno Felin e Luiz Fernando Ricci

O samba de roda sertanejo se apropria de músicas tradicionais com palmas e percussões variadas, do pandeiro a um prato e uma faca

Liderança também no samba

Ela puxa o samba, a restauração e muitas outras iniciativas em Pintadas. Usar o adjetivo “liderança” para Silvany no início deste texto não foi mera retórica. Além de fazer parte do Grupo de Mulheres do Território da Bacia do Jacuípe, envolvido em muitas iniciativas, ela dá aula no Ensino Fundamental, faz parte do grupo de catequese e da pastoral familiar, participa de militância política, entre outras atividades. “Como se diz, a união faz a força, uma andorinha só não faz verão. A gente se junta e começa a pensar o que é melhor para nós mulheres de Pintadas. Depois colocamos em prática”, conta Vany. Alguém duvida?