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Seis histórias sobre ambiente e desenvolvimento para acompanhar em 2017

Este artigo foi escrito por Sarah Parsons e publicado originalmente no WRI Insights.

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O ano passado trouxe grandes choques políticos para o mundo: a eleição de Donald Trump; a aparição das “notícias falsas”; o surgimento de movimentos populistas e antiglobalização no Reino Unido, nas Filipinas e em outros lugares. Muitos deles foram alimentados pelo sentimento crescente entre certos grupos de que eles estão sendo deixados de fora das oportunidades econômicas.

A grande questão para 2017 é: essas rupturas são apenas um obstáculo para o progresso rumo a um mundo mais sustentável e equitativo ou vão indicar um retrocesso muito maior?

Andrew Steer, presidente e CEO do WRI, abordou essa questão em Washington na apresentação do Stories to Watch, que ocorre anualmente e destaca seis histórias a serem examinadas ao longo do ano. O desenvolvimento de cada um desses temas ajudará a determinar se continuamos a reduzir as emissões, expandir a economia e fomentar o desenvolvimento sustentável - ou não.

História #1: Quão longe Trump irá?

Antes da posse como presidente dos EUA em 20 de janeiro, o presidente eleito Trump nomeou vários céticos climáticos para seu gabinete. Será importante observar como esses novos líderes e suas decisões políticas afetam as proteções ambientais, como as normas de emissões de ozônio e metano, os padrões de eficiência energética e de energia renovável e a regra de água potável.

O papel dos Estados Unidos como líder nas discussões climáticas também está em jogo, com um futuro incerto para o Plano de Energia Limpa, o compromisso dos EUA com o Acordo de Paris e a capacidade do país para cumprir seu objetivo nacional de reduzir as emissões de 26% a 28% até 2025.

"Não há nada particularmente partidário sobre proteger a criação de Deus - tradicionalmente foram os republicanos que muitas vezes lideraram", disse Steer. "Então não vamos assumir nada antes de ver evidências reais, mas não há dúvida de que as declarações (de Trump) sugerem que haverá um esvaziamento de algumas das proteções ambientais neste país".

Será interessante acompanhar como os líderes a nível local responderão. Até o momento, 15 estados e 51 cidades aderiram a ações climáticas. Em face das ameaças no nível federal, será que esses líderes, aqueles no Congresso e os cidadãos intensificarão suas demandas?

História #2: a renascença dos combustíveis fósseis vs o surgimento das energias renováveis

Embora Trump tenha prometido trazer de volta o carvão, é improvável que ele consiga fazê-lo, dadas as atuais condições econômicas.

A indústria de carvão dos Estados Unidos está em queda desde 2008, e a energia limpa agora é um dos setores de mais rápido crescimento em empregos nos EUA. A energia eólica e a solar agora são quase tão competitivas em termos de custo quanto o carvão e o gás natural em muitas áreas. "O declínio do carvão nos Estados Unidos quase não tem nada a ver com a legislação climática", disse Steer. "Tem a ver com economia pura".

E globalmente, mesmo que um terço da capacidade de energia planejada ainda esteja no carvão, o investimento em energia renovável no ano passado foi duas vezes maior do que em carvão e gás. Esse crescimento continuará? O acompanhamento da implementação dos compromissos em energias renováveis assumidos por grandes atores como Índia e a China dará importantes indicativos, assim como os resultados em termos de investimentos financeiros da cúpula do G20 em julho.

História #3: O momento internacional em torno da questão climática continuará?

O ano passado foi um marco para a ação climática internacional quando 196 países adotaram o Acordo de Paris. Os únicos três que não assinaram são Síria, Uzbekistan e Nicarágua.

Muitos países já estão transformando em ações os compromissos assumidos em Paris. Por exemplo, 38 nações e oito instituições aderiram à NDC Partnership, que tem o objetivo de acelerar as ações e elevar a ambição na implementação de metas climáticas nacionais.

Será importante observar se o progresso continuará no próximo ano. Alguns pontos importantes incluem: a Índia atingirá suas ambiciosas metas de energia solar? A China vai lançar com sucesso um mercado nacional de carbono? E será que o novo secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, fará da mudança climática uma prioridade tão alta quanto o seu antecessor Ban Ki-moon?

História #4: Os mercados de amanhã

Muitos negócios estão não apenas se movendo em direção à sustentabilidade; eles estão liderando. Mais de 200 corporações se comprometeram a estabelecer metas de redução de emissões baseadas no que a ciência diz ser necessário para evitar os piores efeitos das mudanças climáticas, cerca de 600 estão trabalhando para tornar suas cadeias de suprimento livres de desmatamento e 84 se comprometeram a utilizar 100% energia renovável.

Ao mesmo tempo, os investidores financeiros estão cada vez mais gerenciando fundos usando fatores ambientais, sociais e de governança (ESG), e evidências crescentes mostram que a incorporação dessa visão pode ter um efeito neutro ou mesmo positivo sobre os rendimentos. "Nos velhos tempos, governos estabeleciam regulamentos e o setor privado dizia 'OK, vamos cumpri-los'", disse Steer. "Hoje, o setor privado está realmente impulsionando a agenda nesse sentido".

A questão é se esse ímpeto continuará em 2017, e se a mudança para o investimento sustentável se traduzirá em pressão nas grandes lideranças do mundo dos negócios.

Pontos para se observar incluem a adesão de mais empresas a metas baseadas na ciência e se essas metas vão se expandir para outros setores, como uso da terra e da água. Será igualmente interessante ver como as empresas e os investidores respondem ao próximo relatório da Comissão Global para Empresas e Desenvolvimento Sustentável, que será apresentado durante o Fórum Económico Mundial da próxima semana, em Davos.

História #5: A ascensão de alimentos à base de plantas

O consumo de carne e especialmente de carne bovina é um dos setores com maiores impactos no ambiente. O gado é o principal motor de desmatamento e, se todo o gado no mundo fosse um país, seria o terceiro maior emissor. O desafio é conter esse impacto ao mesmo tempo em que será preciso produzir 70% mais comida até 2050 para alimentar a crescente população.

Felizmente, estamos vendo um crescente interesse no consumo de proteínas de origem vegetal, especialmente nos Estados Unidos. Um quarto dos americanos já dizem comer menos carne vermelha, enquanto um em cada 10 millennials é vegetariano ou vegano. A Tyson lançou um fundo de capital de risco no valor de US$ 150 milhões para explorar carnes alternativas.

Como parte da iniciativa Farm Animal Investment Risk & Return initiative, 42 investidores institucionais que representam US $ 1,25 trilhão em ativos pressionaram as empresas de alimentos a preservar futuras cadeias de suprimento, diversificando suas fontes de proteína. Produtos da Beyond Meat, incluindo proteínas de origem vegetal que têm gosto de hambúrgueres, frango e almôndegas, agora são vendidos em 11 mil lojas.

A questão é: os produtores de carne de bovina começarão a diversificar e implementar estratégias para reduzir o seu impacto? E a demanda dos consumidores por proteínas vegetais e outras alternativas sustentáveis crescerá?

História #6: a inovação na mobilidade irá ajudar as pessoas e o planeta?

Esqueça a carruagem sem cavalos. A nova tendência são os carros sem motorista. Mais de 30 grandes montadoras estão atualmente experimentando veículos automatizados. Entretanto, os serviços de carros compartilhados como o Uber e o chinês Didi valem dezenas de milhares de milhões de dólares, e já existem mais de um milhão de veículos eléctricos nas estradas pelo mundo.

A questão é se estas três tendências – automação, carros compartilhados e eletrificação – serão integradas para reduzir o impacto dos carros no ambiente, ou se vão operar em silos e aumentar o número de veículos na estrada. Como afirmou Robin Chase, que faz parto do conselho do WRI e é co-fundadora da Zipcar: "simplesmente eliminar os motoristas dos carros e manter igual todo o resto do sistema seria um desastre". Afinal, no modelo atual centrado no carro, os trabalhadores perdem oito dias por ano em produtividade parados no trânsito, e o transporte é responsável por 14% das emissões globais.

Também é importante que essas novas inovações complementem em vez de competir com as pessoas – e as opções de mobilidade que contribuem com o planeta como a bicicleta e o transporte coletivo.

Um ano empolgante pela frente

Pode não ser fácil de assistir essas histórias durante o ano, mas 2017 certamente não vai ser chato.

"Goste ou não, mudanças reais acontecerão (neste ano)", disse Steer. "Algumas mudanças parecem não ser muito boas. É nosso trabalho conseguir estabelecer um ciclo virtuoso, e obter mudanças realmente positivas".

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