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A descarbonização da economia passa pelo campo

Este texto foi escrito por Nancy Harris, Richard Waite e Katie Fletcher e publicado originalmente no Global Forest Watch.


Um artigo publicado recentemente na revista Science traça um roteiro para a descarbonização da economia com metas decenais que colocam em perspectiva o avanço monumental que a humanidade precisa conduzir para zerar as emissões líquidas de carbono até 2050 e manter o aquecimento global abaixo de 2 graus Celsius. Os autores detalham as ações específicas e os incentivos para os setores de energia e transportes, mas oferecem comparativamente poucas medidas concretas para o setor de uso da terra. O campo, que forma o terceiro principal componente do roteiro, é por vezes negligenciado no diálogo climático global.

A importância da transformação desse setor não pode ser colocada de lado. Atualmente, as emissões provenientes da agricultura e da mudança de uso da terra somam quase um quarto de todas as emissões geradas pelo homem. Ao mesmo tempo, as florestas absorvem um terço das emissões de combustíveis fósseis anuais da atmosfera e poderiam remover ainda mais. Isso significa que o setor de uso da terra pode ser tanto descarbonizado (redução das emissões), quanto "recarbonizado" (removendo o carbono da atmosfera e introduzindo-o de volta nas florestas e paisagens).

O progresso no uso sustentável da terra manteve-se estagnado na última década. Apesar de investimentos substanciais para reduzir o desmatamento tropical, a maior fonte de emissões de carbono em terra, esses esforços fracassaram fora do Brasil. As emissões globais por desmatamento permaneceram frustrantemente estáveis no século XXI.

Fonte: SEEG e GFW Climate. As estimativas de emissões refletem a perda de biomassa acima e abaixo do solo.


Se quisermos levar a sério a meta de zerar as emissões de carbono até 2050, não podemos deixar o campo para trás. Abaixo, estão quatro ações concretas que precisam ser realizadas:

2017-2020: Conter a expansão agrícola sobre as turfeiras tropicais

A turfa é um tipo de solo que acumula grande quantidade de carbono. Na Indonésia, é também um alvo popular da expansão das plantações de palma. Quando turfeiras são drenadas para a preparação da terra, o carbono estocado no solo é liberado. No mundo, a drenagem de turfeiras responde por 32% das emissões provenientes de terras cultivadas apesar dessas produzirem apenas 1,1% do total de calorias provenientes das colheitas. A drenagem também torna as turfeiras mais suscetíveis a incêndios, que podem levar a surtos incontroláveis. No país do Sudeste Asiático, uma maneira de reduzir o volume imediato e grande de emissões no setor de uso da terra é apoiando a implementação da nova - e fortalecida - lei para a conservação e restauração de turfeiras.

2020-2030: Mudar o que se come

Com o aumento da renda no mundo, a população global migra rapidamente para uma dieta no estilo ocidental, que é rica em calorias, proteínas e alimentos de origem animal, como carnes e laticínios. Esse fato tem grande relevância para a mudança de uso da terra, já que carne e produtos lácteos requerem mais área do que proteínas de origem vegetal, como feijão e lentilha. A carne particularmente exige ainda mais terra e gera mais emissões por unidade de proteína que qualquer outro alimento consumido normalmente. Reduzir o consumo de carne entre as populações mais ricas do planeta é essencial para alcançar as metas climáticas. Ainda assim, análises da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indicam que a demanda global por carne vai aumentar em 95% entre 2006 e 2050.

Simplesmente reduzir o consumo de carne bovina pode tomar muito tempo. Cortar pela metade o consumo de carne e produtos lácteos pode fazer cair pela metade a emissão de carbono proveniente de nossa dieta. Se populações inteiras reduzirem o consumo de carne bovina de suas dietas, seria possível liberar 300 milhões de hectares de terra - uma área quase do tamanho da Índia - e reduzir a pressão agrícola sobre as florestas. A mudança na dieta juntamente com a redução do desperdício de alimentos e resíduos e a intensificação da produção agropecuária sustentável podem fazer com que as emissões pelo uso da terra sejam mantidas em um nível que garanta que o aquecimento do planeta ficará abaixo dos 2 graus Celsius.

2030-2040: Criar uma indústria de produtos de madeira carbono neutro

Depois de 2030, o roteiro de descarbonização convoca a indústria da construção civil a usar concreto e aço livre de emissões ou substituir essa matéria-prima por alternativas carbono zero ou carbono negativo, como a madeira. A madeira pode ter uma pegada de carbono menor do que o concreto ou o aço e pode ser usada na construção de edifícios mais altos, reduzindo a pressão sobre o solo, que é característico da expansão urbana. No entanto, os benefícios climáticos se perdem se a madeira não for proveniente de área plantada que reabsorverá tanto ou mais carbono até 2050 como o emitido na colheita e na produção. Algumas florestas manejadas de forma sustentável já são carbono zero ou carbono negativo, mas esta não é a realidade de todos os lugares. No mundo, a colheita excessiva de madeira gera emissões no curto prazo, assim como reduz no longo prazo os índices de remoção de carbono, que devem ser mantidos para que a temperatura global aumento menos do que 2 graus Celsius. Para ajudar a zerar as emissões líquidas até a metade deste século, os programas de sustentabilidade para produtos feitos a partir de biomassa florestal devem exigir para a certificação a neutralidade do carbono.

2040-2050: Colher os frutos da floresta e da restauração de paisagens

O mundo continuará necessitando de terra para a produção de alimentos, combustível e outros produtos agrícolas. A ideia de reserva determinada área apenas para o sequestro de carbono é provavelmente limitada. Além disso, tem implicações sociais, ecológicas e econômicas significativas que podem ser positivas ou negativas. Aproveitar as oportunidades que oferecem benefícios econômicos e sociais, além de mitigação das mudanças climáticas, pode aliviar um pouco a tensão entre crescimento e sustentabilidade. Mas qualquer estratégia de restauração de paisagens, como a reposição do carbono em solos agrícolas ou o aumento do armazenamento de carbono em árvores, leva tempo e deve começar logo.

Superando uma lacuna

Vimos na última década sinais positivos de que o mundo está no caminho certo para transformar rapidamente o setor de energia, mas tais sinais ainda não são evidentes no campo. Ainda que alguns dos que formulam as políticas públicas em assuntos ligados à mudança do clima tenham dedicado atenção aos desafios apresentados pelo uso da terra, o sistema político não conseguiu até agora catalisar as reformas agrárias necessárias para atingir a ação climática em escala. Sozinhos, exemplos como esses não vão zerar as emissões líquidas de carbono até 2050. Portanto, devemos considerar a importância do campo num quadro de mitigação integrada e intersetorial se quisermos seguir um roteiro para a descarbonização da economia.

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