Este artigo foi originalmente publicado no Insights do WRI.


Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump anunciou em 1o. de junho que o país deixaria o Acordo de Paris, afirmou que isso desoneraria a economia norte-americana em trilhões de dólares e pouparia milhões de empregos. A decisão de Trump se baseou em maus conselhos e em uma análise econômica negativa. Uma avaliação mais rigorosa e dinâmica mostra que as políticas climáticas inteligentes podem, pelo contrário, impulsionar o crescimento da economia e a geração de emprego. Quando os líderes do G20 se reunirem em Hamburgo nos dias 7 e 8 de julho, terão a oportunidade e a responsabilidade de enviar uma mensagem clara à administração Trump de que é equivocada a posição de deixar o Acordo - e também a ideia de que crescimento econômico e ação sobre o clima não dialogam.

Por que o G20?

Os integrantes do G20 representam aproximadamente 80% do PIB mundial e 80% das emissões de gases do efeito estufa (GEE). Além do papel na harmonização da política em questões econômicas, o grupo ajudou a moldar e reforçar a direção da vontade política internacional e as recentes tomadas de decisão globais sobre as mudanças climáticas. Desde 2009, quando os 19 países e a União Europeia concordaram em eliminar os subsídios aos combustíveis fósseis antes da conferência sobre o clima de Copenhague, o G20 tem buscado acelerar a ação sobre mudanças climáticas e energia limpa - ainda que com resultados intangíveis.

Mais uma vez, mudanças climáticas e energia limpa estão na agenda do encontro dos líderes do G20. Assim como aconteceu na reunião do G7 na Itália na semana anterior ao anúncio de Trump, todos os líderes do G20 - menos os Estados Unidos - devem estar juntos para reforçar os compromissos adotados frente ao Acordo de Paris e defender o progresso econômico que ele possibilita. É extremamente importante que os 19 países do G20 e a União Europeia transmitam a mensagem de que o mundo vê o desafio climático de uma maneira diferente do que a atual administração dos Estados Unidos.

Um resultado climático a ser alcançado

Os líderes do G20 devem manter seu apoio ao Acordo de Paris e ao compromisso coletivo sem precedentes que ele representa para enfrentar as mudanças climáticas. Ao destacar publicamente o desacordo com os Estados Unidos em relação a Paris, os integrantes do G7 sinalizaram que a mudança do clima é uma questão de importância internacional que diz respeito ao comércio, à segurança e à estabilidade econômica. A decisão dos Estados Unidos já fez com que outros integrantes, como a China, a Índia e a UE, reforçassem a determinação frente ao acordo: elas definiram o Acordo do Clima de Paris como "irreversível" e "um artigo de fé" e seus compromissos firmes e and "inabaláveis". Essa posição prepara o cenário na Alemanha para uma ampla rejeição à posição de Trump sobre Paris - e com uma participação maior e mais diversificada de países.

Os líderes devem reunir-se para discutir o plano de ação sobre mudanças climáticas e crescimento energético proposto pela Alemanha no âmbito do G20. A declaração é a mais abrangente feita até agora pelo G20 em temas prioritários sobre clima e energia. Projetado para facilitar a implementação do Acordo de Paris e a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, o plano estabelece um conjunto de ações e medidas, incluindo a implementação das promessas de Paris (ajudando outros países a fazerem o mesmo), a criação de Estratégias de Desenvolvimento de Longo Prazo sobre Emissões de Gases do Efeito Estufa (LST), a Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) em energia limpa, a promoção de eficiência energética, o acesso a serviços energéticos modernos para todos, a adaptação aprimorada, os avanços em fluxos financeiros em energia e clima, a eliminação de subsídios para combustíveis fósseis e o incentivo a atores não estatais - como estados, cidades e o setor privado - para trabalhar na implementação do Acordo de Paris.

O endosso total do plano pela maioria dos líderes do G20 mostraria que eles não possuem apenas uma visão, mas também um conjunto concreto de prioridades para impulsionar o momentum de Paris e a confiança dos mercados globais.

O papel crucial das principais economias emergentes

Demonstrar a solidariedade global para Paris é ainda mais importante devido às principais economias emergentes estarem no G20, especialmente a Índia e a China. Além de endossar o Plano de Ação proposto pela Alemanha, é fundamental que os países em desenvolvimento integrantes do G20 sinalizem suas ações e compromissos frente ao Acordo de Paris. Todos sabem que as mudanças climáticas representam desafios fundamentais para o desenvolvimento e, ao mesmo tempo, oportunidades únicas para impulsionar a inovação e estimular o crescimento sustentável e inclusivo.

Trump acredita erroneamente que os países "ganharam" as negociações em Paris, obtendo um acordo que supostamente permite não fazer nada nos próximos 13 anos. Nada poderia estar mais distante da verdade. Por exemplo, a China foi além de uma de suas quatro metas climáticas para 2020 prometidas em Paris; a Índia adicionou 5,5 GW de capacidade eólica em sua matriz energética no ano fiscal de 2017, superando seu objetivo anual de 4 GW; e o México avançou a fim de estabelecer regras para a precificação do carbono.

Ao anunciar e demonstrar sua intenção de liderar a luta contra as mudanças climáticas, as economias emergentes também enviarão um sinal claro de que querem usufruir dos mercados globais frutos do Acordo de Paris, uma oportunidade estimada em 23 trilhões de dólares. A saída de Trump de Paris posicionará a China na liderança do mercado mundial de energia limpa no futuro, como foi previsto pela chanceler alemã Angela Merkel na reunião do G7, e também aumentar consideravelmente a influência chinesa no planeta.

Próximos passos

Os líderes do G20 devem mostrar claramente o que o povo dos Estados Unidos perderá pela determinação de Trump de ser um "solitário do clima": geração de emprego, redução de custos e riscos para as empresas norte-americanas e perda de competitividade global por meio de oportunidades de investimento.

Com ou sem a presença dos Estados Unidos, o Acordo de Paris e o amplo regime internacional que serve à civilidade e à estabilidade do planeta sobreviverão e ficarão ainda mais fortes. Mas isso só será possível se os líderes globais mantiverem-se firmes em seus compromissos frente às mudanças climáticas e o desenvolvimento econômico sustentável.