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Pecuária: de vilã do desmatamento a campeã de sequestro de carbono?

Pesquisadoras do WRI Brasil promoveram ciclo de debates e workshops com especialistas e lideranças sobre a agricultura de baixo carbono, o uso de mudas nativas para o reflorestamento e a participação de lideranças femininas na cadeia de restauração florestal no Pará. Acompanhe no blog.


O município de Paragominas, a aproximadamente 300 quilômetros de Belém (PA), já esteve na lista suja dos que mais desmatavam a floresta amazônica. Em 2011, o esforço conjunto de produtores rurais e outros atores locais para promover boas práticas, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), a recuperarão de áreas degradadas e o aumento da produtividade da pecuária levou o município do nordeste do Pará a ser o primeiro a sair da lista do Ministério do Meio Ambiente (MMA) de campeões do desmatamento na Amazônia.

Essas foram algumas das razões para a escolha de Paragominas (PA) para o treinamento de produtores no uso do GHG Protocolo Agropecuário, que calcula as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) em propriedades rurais. A ferramenta foi apresentada nesta segunda-feira (14) no auditório do Sindicato dos Produtores Rurais de Paragominas por uma equipe de pesquisadoras de Clima do WRI Brasil e pelo pesquisador sênior da Embrapa Informática Agropecuária, Eduardo Assad. O Treinamento Boas Práticas Agropecuárias e Uso da Ferramenta GHG Protocolo Agropecuário foi realizado durante a Feira Agropecuária de Paragominas (Agropec).

Criado pelo WRI Brasil e adaptado para as condições tropicais do Brasil em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o GHG Protocolo Agropecuário pode melhorar a gestão da propriedade rural e levar à conquista de novos mercados com carne sustentável. A ferramenta, que é gratuita, consegue demonstrar se uma propriedade produz carne de baixo carbono.

A pecuária brasileira é a principal responsável pelas emissões do setor agropecuário. Reduzir as emissões da atividade está entre as metas da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil, que prevê a restauração de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas e o incremento de 5 milhões de hectares de sistemas de integração lavoura-pecuária-florestas (iLPF) até 2030.

Juliana Speranza durante treinamento (Foto: Nick Elmoor)

“A pecuária é a única atividade que pode deixar de emitir e passar a sequestrar carbono nos próximos anos”, explica Assad. Isso pode acontecer apenas com o manejo e a conservação do solo e a melhoria de pastagens. O capim, por exemplo, é capaz de neutralizar as emissões de metano produzidas a partir da ruminação e da flatulência do gado. O metano é um dos gases mais potentes que causam o efeito estufa.

“É muito mais fácil mudar o paradigma da agropecuária do que mudar o parque industrial brasileiro. É muito mais fácil mudar certas práticas agrícolas do que aumentar a eficiência de uma fábrica ou indústria. Isto está entrando no jogo. Se conseguirmos fazer isto, seremos imbatíveis”, diz Assad.

“Paragominas é uma liderança no combate ao desmatamento e pode tornar-se também uma liderança na produção de pecuária de baixo carbono”, argumenta a gerente de Clima do WRI Brasil, Viviane Romeiro.

“Muitos dos produtores de Paragominas já fazem o que a gente sugere. O que eles não sabiam fazer era a conta, como calcular o quanto deixaram de emitir. Isso é o que vai ser solicitado no mercado internacional”, conclui Assad.

“Muita gente acha que isso é discurso ambientalista, mas é discurso econômico. A agricultura brasileira é o único setor que pode deixar de ser carimbado como altamente emissor e, em pouco tempo, passar a ser sequestrador de carbono. A Embrapa e as universidades apostam nisso e o WRI Brasil também está apoiando”, sustenta Assad.

A analista de pesquisa do WRI Brasil, Juliana Speranza, lembra que integração de lavoura, pecuária e floresta, Sistemas Agroflorestais (SAFs), plantio direto, fixação biológica de nitrogênio (a partir do plantio de leguminosas e outras plantas que fixam o nitrogênio no solo, substituindo a adubação e poupando até US$ 3 bilhões ao ano), florestas plantadas e tratamento de dejetos animais também são tecnologias incentivadas para reduzir emissões e que vêm sendo adotadas na região. “A calculadora de emissões é um instrumento para apoiar esse movimento de mudança”, diz.

“A maioria dos produtores daqui já têm consciência, mas ainda precisam mostrar a diferença e conquistar mercados diferenciados”, afirma o secretário de Agricultura de Paragominas, Breno Colonnelli.

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