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Troca de experiências entre cidades pode ajudar a elevar a qualidade do transporte coletivo

Diante da constante queda no número de passageiros do transporte coletivo brasileiro, cresce a necessidade de melhorar o serviço para torná-lo mais competitivo frente a outras alternativas de transporte e evitar a migração para outros modais. Está na qualidade a oportunidade de mostrar ao cidadão as vantagens do serviço público, melhor alternativa para o ambiente e a sustentabilidade urbana. De forma independente, diversas cidades brasileiras trabalham nesse sentido, por meio de avaliações periódicas e constante monitoramento de seus sistemas. Mas essa busca pela melhoria pode ser potencializada e mais efetiva se as cidades puderem comparar suas experiências e compartilhar boas práticas, o que é possível apenas se elas adotarem metodologias de medição e qualidade iguais e padronizadas.

A falta de padronização nos indicadores de avaliação do transporte coletivo do país dificulta o compartilhamento de conhecimento, faz com que cada município desenvolva esforços próprios, mas pouco possa aprender com erros e acertos dos vizinhos. O WRI Brasil percebeu essa necessidade e tem trabalhado para que sejam adotados padrões únicos para esses esforços, a fim de promover a troca de experiências e estabelecer um objetivo comum: qualificar o transporte coletivo para atrair usuários e tornar a mobilidade nacional mais sustentável.

A partir do projeto QualiÔnibus, desenvolvido com apoio financeiro da FedEx Corporation e da Children's Investment Fund Foundation (CIFF), a organização trabalha há alguns anos na execução de pesquisas de satisfação criadas sob medida para a realidade brasileira, desenvolvimento de indicadores de qualidade baseados nas melhores práticas internacionais e, neste momento, propõe que as cidades estabeleçam um grupo de benchmarking capaz de fazer com que as boas práticas de uma cidade se tornem inspiração para outras. Este é um exemplo do ciclo de abordagem da organização: analisar, a partir de pesquisas independentes e análise rigorosa, mudar, ao influenciar políticas públicas, estratégias da sociedade e empresariais, e multiplicar, ao engajar tomadores de decisão de forma a aumentar o impacto do trabalho. O Grupo de Benchmarking QualiÔnibus busca incentivar que o conhecimento não fique concentrado nas equipes técnicas dos municípios, mas seja partilhado para servir de solução por quem tem desafios similares.

Os responsáveis por gerir os sistemas de transporte no país percebem essa necessidade. O secretário municipal de Transportes e Mobilidade Urbana de Florianópolis, Marcelo Roberto da Silva, ressalta que não adianta “planejar sem auditar os próprios dados”. Segundo ele, somente com uma base científica robusta de avaliação são gerados resultados realmente importantes. “Os dados precisam virar informação antes que se tome qualquer decisão. É comum olharmos para a iniciativa privada quando se pensa em cobrança por resultados, mas não é por que somos gestores públicos que não devemos ter esse mesmo desejo”, afirma.

A proposta do WRI Brasil é engajar diversas cidades brasileiras a adotar uma metodologia única de avaliação do transporte coletivo, para que o grupo de benchmarking, a ser definido nos próximos meses, possa estabelecer comparações entre si e gerar conhecimento de forma mútua. Assim, experiências já adquiridas por um dos membros podem servir de base para mudanças em outra cidade. Além disso, só tendo uma forma de comparar é que a cidade pode ter uma ideia real de seu desempenho. “Queremos saber se outras cidades estão indo bem em algum indicador para aprender com essa experiência, ver quais medidas adotaram e replicá-las também”, explica Celio Bouzada, presidente da BHTRANS.

O benchmarking tem o objetivo de estabelecer comparações entre diversos atores de determinado setor. Normalmente, o grupo realiza um acordo geral para estabelecer as regras de funcionamento e de divulgação dos dados. No caso das ferramentas QualiÔnibus, a pesquisa de satisfação e os indicadores de qualidade permitem que sejam feitas análises mais básicas ou completas, dependendo das necessidades e do porte da cidade. As comparações dentro do grupo poderão ser feitas apenas entre níveis iguais de dados – quem levantou menos detalhes, terá acesso a menos resultados do resto do grupo.

A Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor), estabeleceu, no início de 2015, um grupo de benchmarking entre os operadores de ônibus no Rio de Janeiro. Essa experiência foi apresentada por Eunice Horácio, gerente de Mobilidade Urbana da Fetranspor, durante um encontro promovido pelo WRI Brasil em Belo Horizonte para apresentar a proposta de criação do grupo a participantes de diversas cidades. Segundo Eunice, o grupo criado na Fetranspor já começa a colher os frutos da troca de experiências com a realização de fóruns e reuniões temáticas a partir de pautas identificadas entre os indicadores.

<p>Célio Bouzada, presidente da BHTRANS, apresentou a experiência da capital mineira com o projeto QualiÔnibus</p>

Célio Bouzada, presidente da BHTRANS, apresentou a experiência da capital mineira com o projeto QualiÔnibus (Foto: Bruno Felin/WRI Brasil)

Se o setor privado já percebe a necessidade de compartilhar experiência com seus concorrentes, no caso das cidades, que não disputam mercados, estabelecer um grupo de benchmarking faz ainda mais sentido como forma de impulsionar a melhoria no serviço público. “Desde o início do projeto QualiÔnibus, sempre colocamos os usuários como prioridade. Depois que a cidade identifica os desejos dos cidadãos a partir da pesquisa de satisfação e estabelece indicadores de avaliação para medir seus resultados, o passo seguinte é agir. Para isso, nada melhor do que aproveitar experiências de sucesso. Queremos favorecer essa troca saudável para que as pessoas se sintam estimuladas a continuar utilizando o transporte coletivo”, afirma Cristina Albuquerque, coordenadora de Mobilidade Urbana do WRI Brasil.

A possibilidade de comparação também pode servir de motivação para fazer mais, conforme destaca Vladimir Constante, diretor executivo da Secretaria de Planejamento Urbano e Desenvolvimento Sustentável de Joinville. “Pode ser uma forma de estimular a alcançar índices ainda melhores a partir dos resultados das pesquisas. O nível de discussão entre várias cidades é algo que não conseguiríamos fazer apenas a partir do nosso quadro técnico”, destaca Constante.

O Grupo de Benchmarking QualiÔnibus está sendo definido e está aberto a receber cidades que desejem melhorar a qualidade de seu transporte coletivo e trocar experiências com outros municípios. O WRI Brasil será um facilitador e contribuirá para consolidar o funcionamento do grupo, reunir dados e organizar encontros e reuniões periódicas.

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