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Robin Chazdon: “É uma enorme contradição coexistirem políticas destrutivas ao mesmo tempo em que há apoio à restauração”

A Conferência Mundial sobre Restauração Ecológica, organizada pela Society of Ecological Restoration (SER), é um evento bienal destacado como o mais importante no mundo para as discussões sobre recuperação de ecossistemas degradados, danificados ou destruídos. A atual edição acontece pela primeira vez no Brasil e na América do Sul. O WRI Brasil é uma das organizações patrocinadoras. Acompanhe as atualizações neste blog.


Robin Chazdon é conselheira sênior de Florestas do World Resources Institute (WRI) e professora de Ecologia na Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos. A pesquisadora norte-americana publicou mais de 140 artigos científicos, co-editou dois livros e é autora de Renascimento de Florestas: regeneração na era do desmatamento (2016). Na entrevista abaixo, Robin fala sobre os desafios da implementação de políticas de restauração com espécies nativas no Brasil.

WRI BRASIL - O planeta tem um enorme desafio: restaurar florestas que foram destruídas, danificadas ou degradadas. O que é possível fazer de hoje para o futuro?

ROBIN CHAZDON - Precisamos repensar a forma como os países operam a alocação de recursos para a restauração, por exemplo. Há uma necessidade de realinhamento das atividades e de planejamento por parte dos governos. A restauração não é uma atividade separada da silvicultura ou da agricultura – ou mesmo separada da conservação. Está em todas essas atividades. E essas atividades também devem estar alinhadas umas com as outras porque elas se afetam mutuamente. Grupos políticos diferentes tomam diferentes decisões políticas. Eles quase sempre trabalham uns contra os outros – e essa não é uma receita eficiente para o progresso. Meu sincero desejo é o de que governos realmente queiram enfrentar os problemas e comecem realinhando as suas políticas. É verdade que isso começa a se encaixar nas convenções e acordos internacionais, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), mas nem sempre no plano nacional. Cabe aos governos o esforço de financiar e planejar a ação prática. É carente a articulação interna do ator governamental responsável por promover a restauração, o amplo apoio legal nacional e um sistema econômico devidamente organizado capaz de capitalizar a enorme biodiversidade florestal.

Se de um lado está o governo, em outras pontas estão a sociedade civil, o setor privado, a academia…

RC - Sim, a tarefa é enorme. Todos contribuem para o desafio de restaurar paisagens florestais. Rede de coordenação de pesquisadores, organizações não governamentais, tomadores de decisão, profissionais da restauração. Os diferentes atores colaboram com recomendações e sintetizam informações úteis para a restauração. Nossa concepção coletiva precisa expandir e os envolvidos necessitam de algum consenso em grupo. E isso também vale para o governo.

Há fóruns capazes de facilitar a interação entre atores estatais e não estatais?

RC - Depende do país. No Brasil, você possui a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Ela tem uma gestão bastante eficaz. O setor privado está envolvido, por exemplo, o que é extremamente importante no Brasil. Mas num país como as Filipinas, exemplos como o da Coalizão não existem. Lá, o setor privado é fragmentado. Então, você precisa juntar um grupo diferente de pessoas, como organizações comunitárias e grupos produtivos. E isso oferece desafios para a estrutura de governança. Se você tem um setor privado forte, ele precisa estar envolvido. Especialmente o setor florestal que pensa além da monocultura, combinando diferentes espécies nativas e usando a silvicultura como ferramenta de restauração.

Você conhece o Brasil e desenvolve pesquisa aqui. Como entende o cenário para a realização da restauração de paisagens florestais no país?

RC - Para muitos países da América Latina, o Brasil é um bom modelo. Ainda que enfrente turbulência política, social e econômica, o Brasil ainda é um país fortemente democrático e com um setor privado robusto. O país está engajado em promover avanços tecnológicos que poderiam ser exportados, como os viveiros de mudas de espécies nativas que são essenciais para a meta de restauração em larga escala. Outro fator muito importante é que o Brasil percebeu a importância do legado deixado pela economia florestal baseada no cultivo do eucalipto, que ainda é muito presente na área do bioma Mata Atlântica.

O cultivo do eucalipto deixou um legado para a indústria florestal. O que foi feito com a indústria baseada na espécie serve de modelo para o desenvolvimento da nova economia florestal com espécies nativas que se pretende no Brasil?

RC - Sim. Mas a resposta também vai depender de cada país. É importante olhar para o quê esse setor econômico significa e se perguntar se os produtos oriundos do eucalipto poderiam ser modificados ou substituídos e como isso impulsionaria a restauração com espécies nativas. Porque muda a oferta e o valor. No Brasil, a indústria florestal do eucalipto se desenvolveu com o apoio do setor privado e de políticas e leis governamentais. É bastante surpreendente o que aconteceu. O desafio agora é ver como será o realinhamento para o segmento de nativas. É uma pergunta aberta. Temos que manter o trabalho de restauração de base porque vimos a rapidez com que a política e a administração pública podem mudar. E as prioridades mudam. Se vamos conquistar algo no longo prazo, precisamos de pessoas envolvidas. E as pessoas precisam querer a transição. Elas devem governar o processo. A Lei 12.651/2012 [que trata sobre a proteção da vegetação nativa e é conhecida como o Novo “Código Florestal] é apenas o primeiro passo para que isso aconteça.

Em sua palestra durante a SER2017 [Robin foi um dos destaques da conferência], você afirmou que a regeneração natural é complemento essencial para a restauração florestal em larga escala. Por que também deveríamos considerar a regeneração natural em uma paisagem?

RC - Penso na restauração da floresta como um conceito amplo. Isso pode ser feito usando o plantio ativo, mas também aproveitando a habilidade da floresta para se regenerar naturalmente. Plantar árvores nativas definitivamente tem seu lugar, mas, na minha opinião, perderemos biodiversidade se não permitirmos que a floresta também se regenere naturalmente. A regeneração natural é parte de um legado natural e deve ser mantida viva. Tem a vantagem do baixo custo. Não é grátis, mas é barata. Entendo que seria uma decisão razoável também dar prioridade para essa atividade.

O que você pensa sobre os retrocessos na área ambiental no Brasil?

RC - Estou muito preocupada. Na verdade, não sei se estou mais preocupada com o que acontece no Brasil ou no meu próprio país [os Estados Unidos]. É uma enorme contradição coexistirem políticas destrutivas ao mesmo tempo em que há apoio à restauração. Preocupa-me se as metas de restauração seriam as próximas a serem afetadas ou o que pensam os políticos sobre a conservação de parques naturais e outras áreas protegidas. Política destrutiva não compensa. A comunidade da restauração precisa emitir uma mensagem forte dizendo que a restauração não pode ser considerada uma compensação para o que foi destruído, danificado ou degradado na Amazônia ou em outro bioma brasileiro.

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