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No sertão da Bahia, o conhecimento dos agricultores mostra que é possível restaurar a Caatinga

No sertão da Bahia, em uma região castigada pela seca, uma iniciativa que une comunidade, governo e sociedade civil mostra que o conhecimento local tem muito a contribuir com a restauração da Caatinga. Essa questão foi explorada no working paper “Conhecimento agroecológico local: caminhos para a adaptação às mudanças climáticas e restauração da Caatinga”, publicado nesta segunda-feira (23) pelo WRI Brasil. O relatório mostra que é possível gerar renda e, ao mesmo tempo, recuperar a vegetação nativa em larga escala.

O estudo analisou o conhecimento agroecológico de produtores rurais em Pintadas, Bahia, cidade de pouco mais de 10 mil habitantes a cerca de 225 quilômetros da capital Salvador. Os pesquisadores visitaram 42 propriedades rurais na região para conversar com os pequenos agricultores e conhecer as soluções encontradas para produzir em meio ao clima semiárido da Caatinga. O conhecimento desses agricultores sobre o uso das árvores nativas da Caatinga também foi registrado.

Segundo o trabalho, o conhecimento que esses agricultores acumularam no convívio diário com vegetação e clima são extremamente valiosos para construir um modelo de produção mais adaptado à realidade semiárida da Caatinga. “Em vários dos sistemas de produção visitados, observamos espécies arbóreas nativas da Caatinga misturadas com as espécies agrícolas, em uma lógica de agroecologia", diz Aurelio Padovezi, gerente de projetos de restauração do WRI Brasil e um dos autores do estudo. "Essa lógica resulta em sistemas mais produtivos e resilientes, além de, ao mesmo tempo, promover a recuperação e conservação da vegetação nativa”.

O working paper defende que esse conhecimento deve ser incorporado nas decisões estratégicas do país, como na mitigação e adaptação às mudanças climáticas. “Reconhecer e valorizar o conhecimento local sobre o uso de espécies nativas regionais e sistemas produtivos de base agroecológica abre uma porta de oportunidade para o Brasil implementar o Acordo de Paris e diminuir a vulnerabilidade local, permitindo a inclusão social pelo empoderamento das mulheres na região semiárida do Brasil”, diz o estudo.

Caatinga

Saberes locais promovendo desenvolvimento agroecológico e conservação

Projetos de restauração na Caatinga são, via de regra, caros, pouco eficientes e sem retorno econômico direto. Isso acontece porque a maior parte das pesquisas e experiências em restauração no Brasil se encontram em biomas florestais, como a Mata Atlântica, onde uma abordagem de restauração ecológica, exclusivamente para garantir o provimento de serviços ambientais, pode dar bons resultados.

No semiárido é diferente. É a região mais pobre e de menor disponibilidade hídrica no país. Além disso, carece de investimentos em tecnologia da restauração. Por isso, muitas vezes os produtores rurais sentem-se desestimulados a colocar sua força de trabalho em atividades de restauração, uma vez que não estão diretamente ligadas ao seu ganha-pão e apresentam grandes chances de fracasso. Para superar essa grande barreira, o estudo recomenda que os projetos de restauração estejam mais intimamente conectados com a produção agrícola. Se o produtor rural souber que determinadas espécies nativas melhoram a produtividade da sua roça, certamente ele vai querer plantá-las e conservá-las.

Quais espécies podem ser aproveitadas dessa forma? Um exemplo interessante encontrado pela pesquisa é o de uma árvore típica da Caatinga conhecida por quixabeira (Sideroxylon obtusifolium). Como a quixabeira tem uma copa bem desenvolvida, com muita folhagem, ela gera boa sombra, diminuindo a temperatura do solo. Quando suas folhas caem, elas levam matéria orgânica para a terra. Isso faz com que o solo perto da quixabeira seja mais fértil e propício para a produção agrícola.

“O sertanejo sabe disso e, por isso, não corta a quixabeira”, diz Mariana Oliveira, pesquisadora do WRI Brasil e uma das autoras do estudo. “Mas ainda não planta essa espécie dentro do seu roçado. Ele sabe o valor, mas ainda precisa descobrir uma forma de trazer isso para o sistema produtivo”.

A quixabeira, hoje, é uma espécie considerada vulnerável à extinção, segundo o Ministério do Meio Ambiente. O reconhecimento dos saberes tradicionais, aliado ao conhecimento acadêmico, pode fortalecer a estruturação de políticas de incentivo à adoção de sistemas de produção agroecológicos, que incorporem espécies nativas – como a quixabeira – aumentando a resiliência desses sistemas às mudanças do clima e promovendo a conservação de exemplares da rica biodiversidade brasileira.

Outra espécie identificada como importante tanto para a produção quanto para a restauração é a palma (Opuntia ficus-indica). A palma é uma espécie exótica, mas muito bem adaptada ao clima do semiárido. Uma prática dos agricultores locais é cortar a palma e distribuir no solo para reter água, aumentando a fertilidade e umidade do solo. Assim, ela cria condições para a regeneração e desenvolvimento de outras espécies nativas. “Ao compreender a sabedoria do sertanejo sobre as espécies arbóreas nativas e o papel que elas desempenham nos ecossistemas naturais e produtivos, novas tecnologias podem ser desenvolvidas, tornando os sistemas produtivos mais sustentáveis e eficazes. Isso inverte a lógica da desertificação, pois o plantio ou regeneração de espécies nativas adaptadas à condição local passam a ser desejadas pelo produtor rural”, diz Padovezi.

Experiência de outras regiões secas

Os resultados da pesquisa em Pintadas dialogam com um estudo internacional do WRI chamado “Scaling Up Regreening: Six Steps to Success” (Dando escala para o reflorestamento: seis passos para o sucesso, em tradução livre). Nesse estudo, os pesquisadores avaliaram as experiências de campo nas regiões áridas e semiáridas da África e apontaram seis passos para uma estratégia de restauração de paisagens. É possível aplicar esses seis passos para entender se Pintadas está apta a desenvolver um grande projeto de restauração.

Pintadas não foi escolhida como objeto de estudo por acaso. A região é hoje uma das mais vulneráveis às mudanças climáticas. A temperatura da região está 2 graus Celsius mais quente do que a média e o volume de chuvas caiu pela metade. Ao mesmo tempo, Pintadas é um polo de articulação e engajamento social. Desde 2006, uma iniciativa chamada Adapta Sertão ajudou a organizar economicamente a comunidade, por meio de uma cooperativa para comercializar produtos como leite, hortaliças e frutas. Em 2016, as mulheres de Pintadas se lançaram ao empreendedorismo e construíram uma fábrica de polpa de frutas, chamada Delícias do Jacuípe, que tem capacidade de produzir 28 toneladas de polpa para sucos por mês.

Esse engajamento social coloca Pintadas na posição ideal para o desenvolvimento rural sustentável com base na agroecologia e na liderança feminina. A análise dos seis passos mostra que, hoje, a região está preparada para iniciar um projeto de restauração em larga escala. “O incentivo a práticas agroecológicas que consideram a abordagem de gênero pode ser interessante e eficiente para transformar a crise climática numa oportunidade de recuperar e conservar a Caatinga, preservar a cultura regional e melhorar a qualidade de vida do sertanejo”, conclui o estudo.

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