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Como a adaptação pode contribuir para evitar que 100 milhões de pessoas caiam na pobreza

Este artigo foi escrito por Rebecca Carter, Katerina Elias-Trostmann e Sophie Boehm e publicado originalmente no WRI Insights.


Mês passado, uma forte onda de calor matou pelo menos 60 pessoas em Karachi, Paquistão. Por todo o leste da África, enchentes severas desalojaram centenas de milhares de pessoas, e nos primeiros dias da temporada de furacões deste ano vimos a formação repentina de uma tempestade de Categoria 4. Nos próximos 12 anos, impactos das mudanças climáticas como esses podem jogar mais de 100 milhões de pessoas na pobreza extrema.

Ao mesmo tempo em que precisamos aumentar os esforços para limitar o aumento de temperatura global, também precisamos rapidamente ampliar as ações de adaptação às mudanças do clima.

Esse é um desafio que cerca de mil tomadores de decisão, empresários, especialistas e ativistas se debruçaram ao se reunir na Cidade do Cabo, África do Sul – uma cidade enfrentando uma forte crise hídrica – para a conferência bianual Adaptation Futures. Quais soluções eles estão propondo? Confira um resumo de quatro mudanças que precisam acontecer para preparar o mundo, especialmente as comunidades mais pobres e vulneráveis, a se adaptar para os impactos de um clima extremo.

1. Integrar a adaptação em todos os setores

Muitos países já estão avançando com ações inovadoras de adaptação: abrigos contra ciclones em Bangladesh, reabilitação de manguezais em Fiji, sistemas de alerta de desmoronamentos no Rio de Janeiro. Mas esses esforços não estão sendo suficientes.

Para ajudar milhões de pessoas a ter maior resiliência aos impactos de um mundo mais quente, os países precisam fazer com que políticas de adaptação se tornem uma pauta constante e presente no dia a dia. Isso poderia simultaneamente melhorar o desenvolvimento, maximizar recursos e evitar investimentos em atividades que prejudicam o meio ambiente. O maior porto da Europa, que fica em Roterdã, na Holanda, oferece um bom exemplo: a adoção de uma abordagem integrada que protege os cidadãos de enchentes, assegura empresas de possíveis danos com o aumento do nível do mar e melhora os espaços públicos, especialmente em bairros de população de baixa renda. A cidade construiu diques, áreas de recreação infantil que funcionam como espaço para coletar água, e canais que podem captar excesso de água para evitar o aumento do nível do mar. Em apenas um ano, a cidade instalou cerca de 185 mil metros quadrados de telhados verdes, cobertos de vegetação, que absorvem o excesso de água de chuva.

<p>Espaços verdes são parte da estratégia de adaptação de Roterdã. Foto: Luis Suarez/Flickr</p>

Espaços verdes são parte da estratégia de adaptação de Roterdã. Foto: Luis Suarez/Flickr

Muito do sucesso dos esforços de adaptação de Roterdã, que vem ajudando outras cidades vulneráveis ao redor do mundo, depende de investimentos públicos em adaptação e da decisão de incluir a resiliência no desenvolvimento urbano.

Outro caso positivo foi implementado a milhares de quilômetros de distância, na Zâmbia. O país também integrou a adaptação, em seu Sexto Plano de Desenvolvimento Nacional, para sustentar o crescimento econômico, a redução da pobreza, e catalisar investimentos de adaptação em larga escala. Esse plano permite que tomadores de decisão em setores altamente vulneráveis às mudanças climáticas – agricultura, água, saúde, energia e moradia – sigam um roteiro para gerenciar riscos climáticos. Além disso, o plano ajudou a Zâmbia a incluir a adaptação em seu orçamento, uma mudança significativa para colocar a resiliência no seio das políticas nacionais do país.

2. Adotar a adaptação transformativa

O aumento dos impactos das mudanças do clima estão começando a testar os limites da nossa agricultura, abastecimento de água e outros sistemas importantes para a sociedade e a economia. Em alguns lugares, esses impactos exigirão uma mudança fundamental em como os alimentos são produzidos, como a terra é manejada e em onde as pessoas vivem, para garantir ganhos de desenvolvimento e reduzir o risco de conflitos.

<p>Um agricultor do departamento de Nariño, na Colômbia. Foto: CIAT/Flickr</p>

Uma agricultora do departamento de Nariño, na Colômbia. Foto: CIAT/Flickr

As 120 milhões de pessoas que dependem do café para sua sobrevivência econômica, por exemplo, enfrentarão um futuro incerto. Com o aumento de temperatura, os cafezais podem acabar produzindo menos e as pragas podem aumentar. Como governos podem apoiar agricultores a mudar a produção para culturas adaptadas a um novo clima? Como os produtores podem acessar recursos para fazer isso? Um planejamento de longo prazo pode ajudar países dependentes da produção de café a minimizar os problemas, pulverizar os custos de mudança de sistemas de produção e garantir que os mais pobres e mais vulneráveis possam participar das decisões que os afetam.

3. Enfatizar as soluções

Tão importante quanto entender os riscos das mudanças climáticas é fazer um trabalho melhor para colocar as soluções em evidência. Muitas comunidades já estão se adaptando aos impactos de um clima mais quente. No Brasil, por exemplo, pesquisadores conseguiram aumentar em 20% a produção do café ao integrar a produção com florestas. As árvores funcionam como um escudo para o cafezal, protegendo-o da luz solar em altas temperaturas. Mas esse tipo de solução ainda precisa ser testado em larga escala.

4. Permitir maior colaboração e troca de conhecimento

Países em desenvolvimento estão na linha de frente da adaptação às mudanças do clima, e abrem o caminho para criar soluções de resiliência. Um consórcio de universidades dos países menos desenvolvidos vem trabalhando desde janeiro de 2017 para apoiar 48 nações compartilhando conhecimento. A iniciativa de adaptação da África (Africa Adaptation Initiative, AAI) oferece outro exemplo de um esforço coordenado e efetivo para dar escala a ações de adaptação. Liderado por países africanos, a iniciativa ajuda governos a criar e implementar os Planos de Adaptação Nacionais, acessar fundos financeiros para o clima e fortalecer serviços de informação e monitoramento. Mais esforços como esse são necessários.

Aproveitar o momento

Todos os países signatários do Acordo de Paris concordaram com uma meta global em adaptação, e 140 países incluíram metas de resiliência em suas NDCs, as Contribuições Nacionalmente Determinadas. Cerca de mil regiões e cidades já desenvolveram mais de 1.500 iniciativas em adaptação. Os especialistas que estiveram presente na conferência Adaptation Futures podem aproveitar o momento positivo e acelerar as ações de resiliência climática ao redor do mundo.

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