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Com 1,2 bilhões de fiéis, Igreja Católica poderia exercer liderança na ação climática

No início de julho, o Papa Franscisco convidou a Roma um grupo diversificado de cientistas, economistas, ativistas, diplomatas, jovens e representantes indígenas para uma conferência que celebra o terceiro aniversário de sua marcante encíclica Laudato Si. Na carta, o papa pediu ao mundo que proteja os ecossistemas globais e com isso melhore a vida de pobres e vulneráveis, enviando um alerta aos 1,2 bilhão de católicos em todo o mundo – e muitos outros – para se unirem por um movimento global pela ação climática.

Depois da ambição vem a ação. Com a liderança moral do Papa Francisco e apoio da comunidade de fiéis pelo mundo, a Igreja Católica está posicionada de maneira singular para liderar um movimento global pela ação climática. Aqui estão três coisas que o Vaticano pode fazer para inspirar o mundo e demonstrar sua liderança na ação climática.

1) Pressionar por maior ambição para limitar o aumento da temperatura

Para manter a elevação da temperatura global abaixo dos 2ºC e visar limitá-la a 1,5ºC – as metas de temperatura identificadas pelo Acordo de Paris para evitar uma mudança climática catastrófica as emissões globais precisam atingir um pico até 2020. De 2020 em diante, o mundo precisa transformar-se completamente para entrar nos trilhos de uma descarbonização até a metade do século é esperado que o próximo Relatório Especial do IPCC sobre Aquecimento Global de 1,5ºC detalhe essa necessidade.

Os próximos meses – na verdade, os próximos 1.000 dias – serão, portanto, essenciais para concretizar as ambições do Acordo de Paris. Ações imediatas são necessárias para garantir o pico de emissões até 2020. Além disso, o processo de Paris ainda tem momentos decisivos pela frente. Não só os países devem implementar os compromissos de reduzir emissões de suas contribuições nacionalmente determinadas (NDCs), como fortalecer esses compromissos até 2020. Essa ação climática mais intensa exigirá financiamento e competência.

Isso requer novas lideranças, impulsionando eventos como a Cúpula Global para Ação Climática (São Francisco, de 12 a 14 de setembro, a COP24 (Katowice, Polônia, 3 a 14 de dezembro) e a Cúpula do Clima (Nova York, setembro de 2019).

Reduzir os gases do efeito estufa requer honestidade, coragem e responsabilidade, sobretudo por parte daqueles países que são mais poderosos e poluem mais disse o Papa Francisco, defendendo o direito de todas as pessoas – incluindo as gerações futuras e as comunidades vulneráveis ​​de hoje – a viverem um mundo que consiste em mais do que escombros, desertos e refúgios. Ele deve continuar a falar em nome dos sem voz, enviando uma mensagem forte para aumentar a ambição de líderes mundiais.

2) Redirecionar fluxos financeiros para apoiar uma transição de baixo carbono

O dinheiro faz o mundo girar, mas enfrentaremos a destruição do planeta se os fluxos financeiros não se transferirem de atividades de alta emissão para soluções de baixo carbono. Durante uma recente reunião com executivos do setor petroleiro, o papa Francisco expressou que não podemos continuar a explorar e explorar as reservas de combustíveis fósseis, mas sim mantê-las no solo.

A igreja católica poderia mostrar que faz aquilo que prega através de ações concretas. Por exemplo, o Banco do Vaticano e os fundos de pensão católicos poderiam seguir o exemplo da Igreja da Inglaterra e aderir à iniciativa Climate Action 100+, que buscar pressionar empresas de alta emissão a adotar modelos de negócio de baixo carbono nos próximos anos. A ameaça implícita da iniciativa é que, se as empresas não apresentarem sérios avanços, os membros irão desinvestir coletivamente. A Igreja da Inglaterra recentemente tornou esta ameaça muito clara – anunciando que vão retirar investimentos em empresas de combustíveis fósseis em 2023 caso elas não tenham alinhado seus negócios aos objetivos do Acordo de Paris. O Banco do Vaticano e outros fundos de pensão católicos poderiam fazer o mesmo.

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Investimentos em desenvolvimento resiliente e de baixo carbono, como em comunidades Andinas onde geleiras estão derretendo, são necessários (foto: Flickr/World Mountain Forum)

Embora grande parte do debate em torno da Laudato Si tenda a centrar-se na mitigação dos efeitos da mudança climática, a encíclica é igualmente sobre dignidade humana e assegura-se que as comunidades pobres e vulneráveis ​​estejam equipadas para impactos climáticos irreversíveis. Isso exigiria que a Igreja Católica, o Banco do Vaticano e a comunidade global de fiéis fossem além do princípio de não fazer mal ao próximo e investissem no desenvolvimento resiliente e de baixo carbono, que são cruciais para alcançar os objetivos da Laudato Si.

O Vaticano também poderia se comprometer com algum dos fundos climáticos internacionais, que ajudam os países em desenvolvimento na ação climática. A contribuição financeira do Vaticano seria uma maneira concreta de apoiar o Acordo de Paris e implementar o espírito da Laudato Si.

3) Neutralidade de carbono nas propriedades e operações

Para colocar o discurso em prática também é preciso para a sua pegada de carbono. A Igreja Católica tem muitas oportunidades para reduzir seu impacto climático, considerando a grande quantidade de propriedades que gerencia, incluindo cerca de 223 mil paróquias, 140 mil escolas, 1.200 universidades e 1.000 instalações de saúde. Além disso, possui uma quantidade considerável de terra, estimada em cerca de 72 milhões de hectares.

Caso fosse adotado um compromisso claro e concreto da própria Igreja Católica durante algum dos próximos encontros climáticos globais, como por exemplo se comprometer a uma meta de redução de gases de efeito estufa, demonstraria como a própria Igreja transforma as ambições expostas na Laudato Si em ação. Isso poderia inspirar seus fiéis e até mesmo outras religiões a serem igualmente ambiciosos.

Medir e mitigar efetivamente as emissões e aplicar a neutralidade de carbono para as grandes propriedades da Igreja espalhadas globalmente não será uma tarefa fácil. Isso exigiria o estabelecimento de um inventário de emissões de gases de efeito estufa, um roteiro de ação e monitoramento rigoroso por meio de ferramentas, relatórios e análises. Mas se houve um momento para mostrar o que pode (e deve) ser feito na prática para realizar a visão e a ambição de Laudato Si, esse momento é agora.

A injustiça não é invencível

O papa Francisco pediu a grupos da sociedade civil organizada em todo o mundo para promover e praticar a ecologia integral, assegurando que a injustiça não é invencível. Se o Papa Francisco conseguir complementar sua liderança moral anunciando e implementando um conjunto concreto ações, poderá inspirar e incentivar a criação desses tão necessários movimentos de massa. Como o WRI já observou, o sucesso exigirá parcerias políticas, sociais e corporativas que quebrem paradigmas movimentos concretos em vez de meras mudanças políticas, motivados pela oportunidade de um futuro melhor, e não por metas ambientais impostas.

Estamos correndo contra o tempo. Há esperança de que a pressão popular possa forçar outros grandes líderes a ter coerência e colocar o discurso em prática também.

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