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Conheça a Especialista: Berta Pinheiro

Do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul. Esse foi o percurso feito pela especialista em Mobilidade Urbana e Clima do WRI Brasil, Berta Pinheiro, que deixou a capital carioca para se unir ao time de mobilidade urbana do WRI.

Geógrafa pela Universidade Federal Fluminense com mestrado em Engenharia de Transportes pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Berta já trabalhou na Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Rio, desenvolvendo pesquisas nas áreas de economia verde e políticas de mitigação às mudanças climáticas. Desde abril de 2017, ela apoia o trabalho do WRI Brasil na área de mobilidade urbana, promovendo uma visão integrada entre o ambiente urbano e o meio ambiente, a fim de apoiar as cidades na implementação de um transporte coletivo limpo e eficiente.

Em uma nova edição da série “Conheça o Especialista”, conversamos com Berta sobre sua trajetória profissional, as inter-relações nas áreas de clima e cidades e os desafios das cidades brasileiras para implementarem sistemas de ônibus limpos. Confira:

 

 

Conte um pouco sobre sua trajetória profissional e seu trabalho no WRI Brasil.

Sou geógrafa. Não sabia muito bem o que fazer e pensei “bom, a geografia nunca vai me dar uma maneira única, pronta, de ver as coisas”, então fui por esse caminho. Durante a faculdade, comecei a trabalhar na Secretaria de Meio Ambiente do Rio. Foi um instinto. Não tinha certeza do que exatamente me atraía na área de meio ambiente; acho que eu tinha uma inquietude interna. Em paralelo, na faculdade, também comecei a me encantar por geografia urbana e a estudar mais o desenvolvimento das cidades. Minha monografia abordou a sustentabilidade antes da sustentabilidade, estudei modelos de cidades sustentáveis utópicas para tentar entender o que é possível propor hoje como cidade sustentável.

E a moral na história é que não existe uma conclusão sobre isso. Temos em mãos um grande desafio, porque as cidades estão maiores e os desejos das pessoas também estão maiores. Ter uma cidade sustentável hoje é ainda mais complexo do que nos séculos anteriores. O meu trabalho no WRI Brasil é poder contribuir com essa visão integrada entre o ambiente urbano e o meio ambiente e apoiar as cidades para que consigam oferecer um serviço de transporte coletivo limpo e eficiente. Para isso, um dos nossos focos é o trabalho com ônibus elétricos. E o que fazemos é tentar desmistificar o receio que ainda existe em torno dessa tecnologia.

 

Na Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, você trabalhou em pesquisas nas áreas de economia verde e políticas de mitigação às mudanças climáticas. Como enxerga a relação entre essas duas áreas, entre os desafios de clima e os desafios urbanos?

No geral, me parece que costumamos considerar as políticas implementadas pelas cidades em prol do clima como uma espécie de favor que fazemos ao meio ambiente. Tentamos reduzir nosso impacto ambiental porque nos importamos com o meio ambiente. Na verdade, é o oposto: quando implementamos ações e políticas de mitigação às mudanças climáticas estamos fazendo um favor a nós mesmos. Porque o impacto que causamos no meio ambiente uma hora vai voltar para nós.

Seja nessa geração ou nas próximas. As cidades já sentem hoje os impactos das mudanças climáticas, então precisamos pensar nessas ações como algo que estamos fazendo pela nossa própria sobrevivência. É preciso pensar também em medidas de adaptação a esses impactos, que já estão acontecendo. O desafio é esse: ver os dois lados. Pensar em como impactamos e como somos impactados.

 

De que forma as cidades podem usar o transporte coletivo como ferramenta para reduzir suas emissões e a poluição do ar? Que ações são necessárias?

Existem duas formas principais de utilizarmos o transporte coletivo como ferramenta para reduzir emissões. A primeira delas é ter um transporte de qualidade. Um serviço eficiente atrai usuários do carro – e com isso já é possível reduzir emissões, porque haverá menos veículos nas ruas, menos congestionamentos, mais pessoas utilizando um modo sustentável. Além disso, é preciso desconstruir a visão do automóvel como símbolo de poder e conquista.

Para ter um sistema de transporte coletivo eficiente, é preciso contar também com uma operação que contribua para essa eficiência, com faixas e corredores exclusivos, por exemplo. Com isso, melhora-se a eficiência dos veículos em termos de consumo de combustível, o que, consequentemente, também contribui para reduzir as emissões. Esse é o primeiro passo. O segundo passo, complementar a esse, é o transporte coletivo limpo. Ou seja, implementar tecnologias limpas. Aqui estamos falando de ônibus elétricos. E esse é um dos nossos focos de atuação no WRI Brasil. Os ônibus elétricos são uma forma de reduzir a poluição local e, no caso do Brasil, também há o potencial de contribuir para a redução de emissões em escala nacional, uma vez que temos uma matriz elétrica já bastante limpa.

 

Na sua visão, quais são os principais entraves para as cidades implementarem ônibus elétricos e como podem superá-los?

Em geral, as cidades brasileiras já têm curiosidade em relação aos ônibus elétricos e vontade de implementar. Não é mais uma questão de “se”, mas de “quando”. Os desafios estão relacionados a isso. O primeiro deles é o custo inicial, que tende a ser alto. Um ônibus elétrico pode custar até duas vezes mais do que um a diesel. Pensando sob a ótica de um operador de transporte, dificilmente essa empresa vai querer trocar uma tecnologia já conhecida por outra mais cara e cujo funcionamento a empresa ainda não conhece e que exigirá adaptações.

Mais da metade do valor de um ônibus elétrico está na bateria. No WRI Brasil, estamos criando modelos de negócio que permitam que o preço da bateria seja desvinculado do custo inicial para a implementação dos ônibus elétricos. E, com um custo inicial mais acessível, esperamos fomentar a tecnologia. Esse é o primeiro desafio. O segundo eu enxergo como um combo: o desconhecimento da tecnologia elétrica (porque hoje ainda não se sabe de fato se a tecnologia vai corresponder ao que o fabricante promete, como os ônibus vão performar na rua em uma ladeira íngreme, com uso do ar condicionado etc) que gera incerteza entre os operadores.

E por trás de tudo isso tem a questão dos incentivos. Não há incentivos para essa nova tecnologia seja adotada. E a falta de incentivo faz com que as empresas operadoras não queiram pagar mais caro por um veículo para realizar a mesma operação, mas correndo um risco muito maior, por ainda não conhecer a tecnologia dos ônibus elétricos. É preciso ter os incentivos corretos para conseguir desmembrar cada um desses desafios e superá-los.

 

A implementação de ônibus elétricos pode ser feita de forma gradativa, em longo prazo. Como o WRI Brasil pode contribuir nesse sentido?

No WRI Brasil, temos uma metodologia de modelo de negócios, desenvolvida com base em estudos de caso de 26 cidades do mundo que obtiveram sucesso nesse processo. A partir dessa metodologia, ajudamos as cidades a estabelecerem seus modelos de negócio para a implementação desse tipo de ônibus. Cada cidade tem sua realidade, seus desafios e sua forma de solucioná-los. Nós planejamos em conjunto com as cidades o melhor modelo de negócios para a realidade de cada uma, estabelecendo cenários de custos e de emissões.

Ainda existe muito receio em relação à tecnologia de ônibus elétricos, como se essa transição fosse ser imediata. Na verdade, não é assim. A transição para a tecnologia elétrica vai acontecer de forma gradativa, mas vai acontecer. Precisamos pensar agora em como queremos estar nas próximas décadas – planejar agora para não estarmos despreparados no futuro.

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