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Conheça o especialista: Guillermo Petzhold

Desde 2012 no WRI Brasil, o hoje especialista de Mobilidade Urbana, Guillermo Petzhold, tem a missão de contribuir para que as organizações exerçam seu papel na melhoria do transporte nas cidades brasileiras. Um dos responsáveis pelo desenvolvimento da área de Gestão de Demanda de Viagens (GDV) no WRI Brasil, Guillermo trabalhou para avançar os projetos da organização ao mesmo tempo em que definia sua carreira acadêmica.

Com o crescimento das inovações em transporte, Guillermo também assumiu parte da responsabilidade de tratar das questões da Nova Mobilidade e todos os desafios trazidos por essa nova área. Conversamos com ele sobre essas e outras questões na entrevista abaixo.

 

A sua tese de mestrado trata de observar como podem ser aplicadas as estratégias de mobilidade corporativa nas organizações. O seu trabalho no WRI também é focado nesse assunto. Como isso aconteceu? Foi o seu interesse que despertou o tema no WRI ou foram os projetos do WRI que despertaram o seu interesse em Gestão de Demanda de Viagens (GDV)?

O meu primeiro contato com Mobilidade Corporativa foi em 2012 quando eu ainda era estagiário no WRI. Participamos de um projeto piloto de mobilidade corporativa em São Paulo que era liderado pelo Banco Mundial e, desde esse primeiro momento, eu já me apaixonei pelo assunto. Ele me motivou demais. Quando eu entrei no mestrado, não sabia exatamente qual tema iria focar. Mas então, por uma grande coincidência, no mesmo ano em que eu tinha entrado no mestrado, também começamos no WRI um projeto de mobilidade corporativa. Quando fiquei sabendo dessa oportunidade, logo me voluntariei e comecei a trabalhar nesse assunto, que me instiga muito e me deixa muito curioso.

Pensar como podemos compartilhar as responsabilidades dos problemas de mobilidade urbana não só pensando no papel do poder público – responsável por prover a infraestrutura da malha viária, asfaltar as ruas, definir os serviços de transporte –, mas também enxergarmos que cada uma das organizações tem papel crucial em definir um ambiente satisfatório nas cidades.

 

Como os programas de gestão de demanda de viagens podem transformar regiões inteiras ou até cidades inteiras? Você acredita nisso?

Quando falamos em gestão da demanda de viagens é muito importante ter claro o conceito. Normalmente, as pessoas pensam que GDV é só restringir as viagens de automóvel, mas, na verdade, o conceito é muito mais amplo. Ele busca qualificar as opções sustentáveis de transporte ao mesmo tempo em que se otimiza as viagens em veículos individuais como motocicleta ou automóvel. Existe um conjunto de ações de incentivo como a melhoria da infraestrutura de transporte coletivo ou de bicicletas e a otimização das linhas do transporte coletivo, por exemplo.

Mas o que a gente percebe é que muitas vezes não basta só incentivar outros meios, não basta só qualificar ou prover essa infraestrutura, também é preciso adotar medidas chamadas de "push", medidas de empurrar, impulsionar, que visam otimizar as viagens de automóvel ou até mesmo restringir elas de alguma forma, como, por exemplo, uma política de estacionamento, um pedágio urbano. Porém, normalmente essas medidas são muito duras para o poder público porque elas exigem um convencimento, um trabalho de governança muito forte para alertar a população, explicar porque estão sendo implementadas tais medidas e deixar muito claro quais são suas finalidades, quais os benefícios que elas trarão para a população.

É claro que não se pode desincentivar algum meio de transporte sem antes prover medidas que qualifiquem as opções sustentáveis. Esse balanço das iniciativas de incentivo aos meios sustentáveis e desincentivo aos meios de transporte individual motorizado, junto com as ações de planejamento urbano é que têm o potencial de transformar, sim, as nossas cidades.

 

Atualmente você também trabalha com a Nova Mobilidade. Você vê uma relação entre esse tema e GDV? Como um pode contribuir com o outro?

Ambos projetos têm características bem peculiares, tudo cabe embaixo do “guarda-chuva” deles. GDV diz respeito às ações de incentivo aos meios sustentáveis e desincentivo ao automóvel e à motocicleta. Inovações em mobilidade urbana podem abranger desde mobilidade compartilhada até a experiência do usuário, inovação dos produtos, veículos elétricos e autônomos. Ambos são "caixas" extremamente amplas. Existe, sim, uma grande relação entre ambos assuntos e é justamente nessas interfaces em que estão as melhores ideias e as melhores oportunidades que podem transformar as cidades.

Quando falamos em mobilidade corporativa, a adoção de um aplicativo de caronas ou de um aplicativo que faça a gameficação do deslocamento, por exemplo, são oportunidades de interface entre os dois temas. Da mesma forma que uma política de estacionamento e um estacionamento inteligente também são uma conexão entre ambos, por exemplo.

 

Como você analisa o contexto global e o brasileiro no início dessa possível revolução da mobilidade urbana? Você acredita que estamos realmente à beira de uma revolução?

Acho que não estamos à beira, acho que já estamos no início dela, ela já começou. E teve início há alguns anos quando começaram a surgir justamente essas ideias inovadoras, esses aplicativos sob demanda, os sistemas de compartilhamento de bicicletas e, mais recentemente, de automóveis. Sobre a revolução, sim, ela já começou especialmente com os aplicativos sob demanda.

Vimos um grande crescimento desse mercado nos últimos anos. Especialmente nos últimos dois anos, as grandes montadoras começaram a adquirir apps de mobilidade urbana ou ter participação ativa dentro deles por entenderem que não podem mais ser apenas uma montadora de veículos automotores, elas têm de ser um provedor de mobilidade. Os veículos elétricos também ganham cada vez mais espaço. Existe um grande progresso, mas ainda há muito a ser avançado.

Porém, é preciso ter cuidado com o conceito de inovação. As pessoas pensam que significa uma ideia completamente nova, nunca antes implementada por nenhuma outra cidade. Mas o conceito mais acurado de inovação seria uma medida nova que muda um ecossistema onde está inserida, que transforma como as pessoas se deslocam naquela cidade, e não algo que é completamente novo em qualquer lugar do planeta Terra.

Quando falamos nessas inovações, muito pouco é conhecido sobre os reais impactos que elas vão ter. Os primeiros estudos estão sendo conduzidos, tanto em relação aos veículos autônomos quanto aos impactos dos aplicativos sob demanda. Será que eles são tão sustentáveis quanto alegam ser? Sabemos que não estão diminuindo o número de carros nas ruas ou as emissões de poluentes. Na verdade, está acontecendo o contrário.

O poder público tem um papel fundamental nisso. As regulamentações postas em prática nas cidades têm o papel e o dever de fazer com que essas inovações caminhem alinhadas com os objetivos de sustentabilidade das nossas cidades, e que também visem a integração entre a mobilidade inovadora e a mobilidade tradicional, entre os apps sob demanda e o transporte coletivo e o transporte ativo.

 

Muito se fala em Nova Mobilidade, mas possivelmente a maioria das pessoas ainda não enxerga o verdadeiro potencial que ela possui para tornar o transporte nas cidades mais equânime. Qual a importância do apoio dado pelo WRI a projetos que focam justamente nesse aspecto?

Quando falamos em Nova Mobilidade e cidades mais equânimes nem sempre é possível fazer essa conexão. Por exemplo, todas as pessoas têm acesso a um smartphone? Todas elas foram beneficiadas por esses aplicativos? Qual vai ser o preço final de mercado de um veículo autômono? Será que todo mundo vai poder adquirir ou usar um serviço com veículo autônomo? Será que serão criadas pistas exclusivas para quem tem veículos autônomos para não ter interferências dos veículos tradicionais? Como isso é privilegiar uma certa classe? O Hyperloop, por exemplo, que pode revolucionar o transporte coletivo, qual vai ser o preço dele? Vai ser acessível para todo mundo? As inovações em mobilidade ao mesmo tempo que oportunizam cidades melhores, também impõem diversos desafios para o poder público.

Elas possibilitam, sim, reduzir as emissões, aumentar a ocupação dos veículos, aumentar a acessibilidade das pessoas aos serviços das cidades, mas, ao mesmo tempo, podem tirar as pessoas do transporte coletivo, levar esse transporte a falência, aumentar o número de deslocamentos em veículos particulares. As regulamentações do poder público têm um papel fundamental em direcionar as inovações para a sustentabilidade ao invés de para uma mobilidade mais ineficiente.

Nesse sentido, o WRI começou um esforço há mais de um ano, ao criar um grupo que trata apenas dessas questões de Nova Mobilidade. Recentemente, elaboramos o primeiro banco de dados voltados para regulamentações de inovações de mobilidade nos países em desenvolvimento do hemisfério sul para ver como as cidades estão lidando com o surgimento dessas inovações. A partir disso, vamos realizar alguns estudos de caso para medir os impactos que essas regulamentações estão tendo nessas cidades e quais são, digamos, os dez mandamentos para fazer com que as inovações estejam alinhadas com uma mobilidade mais sustentável.

Temos o papel de fazer essa conexão, promover essa troca de conhecimento e fazer com que as inovações caminhem junto com a sustentabilidade.

 

Dentro do WRI Brasil você também desempenha um papel importante ao participar do GT de Sustentabilidade. Como você acha que iniciativas como essa podem contribuir para a imagem da organização e quais têm sido os ganhos decorrentes da criação desse grupo?

Ações de sustentabilidade são um tema que o WRI não pode ter apenas no discurso. É o nosso dever colocar elas em prática. Não adianta praticar o “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. A gente tem a obrigação de implementar no nosso escritório as medidas que visam a sustentabilidade, não só a ambiental, mas também a social e a econômica. É muito importante ter claro esse conceito do tripé da sustentabilidade. O papel do GT é justamente esse, fazer a gente avançar na execução dessas atividades.

O GT foi criado há pouco menos de dois anos. Desde lá, já conduzimos uma pesquisa com todos os funcionários do WRI para identificar quais eram as necessidades e as ações prioritárias que eles queriam ver implementadas dentro dos nossos escritórios. Identificamos as ações de mobilidade, de reciclagem e de uma política de eventos sustentáveis. A partir disso, então, implementamos essa política de eventos sustentáveis, instalamos uma composteira no escritório de Porto Alegre e de São Paulo e, em relação à mobilidade, conseguimos fazer a implementação da política de home office e também uma dinâmica na semana da mobilidade urbana aqui no Brasil. Ainda temos várias outras ações sendo planejadas, mas não posso dar “spoilers” (risos).

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