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Como vai o comprometimento dos bancos com a sustentabilidade? Não tão bem

Este post foi publicado originalmente no WRI Insights.


Os bancos privados podem desempenhar um papel central no financiamento da transição para um futuro sustentável de baixo carbono – e enfrentam cada vez mais pressão política do mercado e da sociedade para fazê-lo.

Na Cúpula do Clima da ONU, em Nova York, bancos assumiram novos compromissos para divulgar as emissões de carbono de suas carteiras de investimentos e empréstimos, aderindo a uma recém-lançada carta de princípios por um setor bancário mais responsável.

Outra maneira de os bancos responderem à crescente pressão de acionistas, empresas e governos é através de compromissos financeiros sustentáveis: compromissos de conhecimento público, com prazo determinado, para fornecer ou facilitar acesso a capital para iniciativas e soluções climáticas e/ou ligadas à sustentabilidade. É importante saber que compromissos são esses, e se eles são rigorosos o suficiente para atender à amplitude do desafio climático.

A nova ferramenta de Green Targets do WRI é a primeira plataforma a explorar e comparar, no detalhe, os compromissos financeiros sustentáveis ​​dos bancos privados. A ferramenta apresenta dados e informações sobre cada compromisso, de acordo com nove indicadores focados em especificidade, prestação de contas e magnitude (veja definições no fim do texto). Quatro grandes tópicos surgem do levantamento:

1. Apenas metade dos grandes bancos assumiu um compromisso financeiro sustentável.

A ferramenta de Green Targets analisa os 50 maiores bancos privados do mundo. Em julho de 2019, apenas 23 deles tinham metas de financiamento sustentável. (Desde 1º de julho de 2019, Santander e Canadian Imperial Bank of Commerce também anunciaram compromissos financeiros sustentáveis, elevando para 25 o número de grandes bancos com compromissos. Os compromissos desses dois bancos ainda não foram incluídos na ferramenta.)

Esses compromissos públicos desempenham um papel importante na sinalização – externa e interna – de que os bancos pretendem apoiar a sustentabilidade de maneira mensurável. Compromissos públicos podem incentivar clientes a procurar essas instituições para financiamento de projetos de baixo carbono. Também podem incentivar as equipes dos bancos a buscar novas oportunidades que apoiem ​​a sustentabilidade – e tranquilizar clientes que desejem saber que seu banco apoia soluções para os desafios da sustentabilidade.

Um compromisso por si só não prova a dedicação de uma instituição à sustentabilidade. Há outros pontos a se questionar: a meta representa uma nova alocação de capital que não teria sido feita sem o compromisso financeiro sustentável? Para cumpri-la, o banco tem de ir além de seus próprios interesses?

Ao mesmo tempo, a ausência de compromisso não significa necessariamente que os bancos estão fazendo pouco em financiamento sustentável: um compromisso formal é apenas uma das muitas maneiras pelas quais se pode promover a sustentabilidade.

<p>Gráfico lista bancos com e sem compromissos</p>

2. Os termos e definições dos compromissos de financiamento sustentável variam consideravelmente entre os bancos.

Embora seja tentador avaliar e comparar compromissos financeiros sustentáveis ​​com base no montante de financiamento prometido, há uma enorme variação na maneira como os bancos definem e descrevem seus objetivos.

Uma das distinções mais importantes entre os bancos é o critério que eles usam para seus compromissos. Alguns oferecem financiamento para uma longa lista de atividades ou setores, alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Outros têm foco restrito, por exemplo, com financiamento apenas para energias renováveis.

Outra diferença importante está nos tipos de serviços financeiros. Alguns bancos oferecem apenas empréstimos ou outros tipos de financiamento direto. Outros contam com uma ampla gama de serviços, incluindo investimentos e gerenciamento de ativos. Isso geralmente reflete as linhas de negócios do próprio banco.

O horizonte temporal do compromisso é outro diferencial revelador. O horizonte médio de um compromisso é de 8,5 anos, mas alguns têm apenas 5 anos, e outros chegam a 14 anos.

3. A maioria dos bancos ainda investe consideravelmente mais em combustíveis fósseis do que em financiamento sustentável.

Para compreender por completo a importância das metas de financiamento sustentável, elas devem ser consideradas no contexto do tamanho dos bancos e de suas outras atividades de financiamento. O financiamento de combustíveis fósseis é um ponto essencial de comparação para entender se uma meta sinaliza um compromisso genuíno com a sustentabilidade.

Lamentavelmente, as metas anuais de financiamento sustentável da maioria dos bancos são consideravelmente menores do que o financiamento anual de combustíveis fósseis. Entre os bancos com compromissos, o nível médio anual de financiamento de combustíveis fósseis de 2016 a 2018 é quase o dobro do valor de compromissos financeiros sustentáveis. Apenas sete bancos têm metas de financiamento sustentável maiores que a quantidade de financiamento que fornecem para transações relacionadas a combustíveis fósseis a cada ano.

Essa tendência varia de acordo com a região. Em média, os bancos europeus e australianos têm compromissos financeiros sustentáveis ​​mais ambiciosos em relação ao financiamento de combustíveis fósseis do que os bancos dos EUA.

Dito isso, a comparação deve ser interpretada com cautela. Os bancos geralmente não fornecem dados granulares, superdetalhados, sobre o financiamento anual de combustíveis fósseis. A estimativa mais completa, consistente e disponível ao público vem de um consórcio de pesquisa que produz um boletim anual sobre o financiamento de combustíveis fósseis dos bancos. O escopo e a metodologia usados ​​no relatório são diferentes daqueles usados ​​por cada banco para quantificar seus financiamentos sustentáveis ​​(que, como já apontamos, têm definições bastante diversas). Assim, é impossível fazer uma comparação precisa.

A comparação aproximada, no entanto, fornece informações úteis e sugere que os bancos ainda têm um longo caminho a percorrer antes que possam dizer que suas operações financeiras são favoráveis ​​ao clima.

4. A não divulgação de uma metodologia para medir compromissos é falha grave.

A maioria dos compromissos atende aos critérios básicos descritos em nossos indicadores qualitativos de especificidade e responsabilidade. A única área em que a maioria fica aquém é a divulgação da metodologia contábil. Menos da metade dos bancos divulga uma metodologia contábil para rastrear compromissos.

Para se comparar com seus pares, os bancos precisam entender como suas práticas contábeis diferem. As partes interessadas também precisam dessa transparência para entender os compromissos dos bancos e responsabilizá-los. Embora mais de três quartos dos bancos relatem ativamente (ou planejem reportar) o progresso em direção a suas metas, se eles também não divulgam suas metodologias contábeis, é impossível interpretar precisamente seus relatórios.

<p>Gráfico lista participação de bancos segundo vários critérios da ferramenta</p>

Compromissos financeiros não são a única maneira de promover a sustentabilidade

Compromissos financeiros sustentáveis ​​não são a única maneira com a qual os bancos buscam alinhar seus negócios à sustentabilidade. Outros exemplos incluem:

  • 130 bancos assinaram os novos Princípios para Bancos Responsáveis, apoiados pela ONU, lançados antes da Cúpula de Ação Climática deste ano. Os princípios esboçam uma nova estrutura para o setor bancário alinhar os objetivos de negócios com os ODS e o Acordo de Paris.

  • Os cinco principais bancos europeus se comprometeram a trabalhar para alinhar suas carteiras de empréstimos aos objetivos do Acordo de Paris.

  • 16 bancos estão testando novos métodos para alinhar carteiras de investimentos e empréstimos às vias de estabilização do clima no âmbito da iniciativa Science Based Targets.

  • Vários bancos estão publicando seu relatório inicial da Força-Tarefa sobre Divulgação Financeira Relacionada ao Clima (TCFD), incluindo um grupo de 16 bancos que trabalharam com o UNEP FI para testar as recomendações.

  • Mais de 25 bancos se comprometeram a obter 100% de sua eletricidade a partir de recursos renováveis, como parte do RE100.

  • Mais de 100 instituições financeiras se comprometeram a eliminar progressivamente ou restringir o financiamento do carvão.

Ainda assim, compromissos com o financiamento sustentável ​​são uma forma importantes e altamente visível de comunicar um compromisso com a sustentabilidade. São compromissos públicos de disponibilizar grandes volumes de capital a serviço de um futuro sustentável e de baixo carbono.

Fortalecendo compromissos financeiros sustentáveis futuros

No pouco tempo que resta para evitar uma catástrofe climática, esse é um momento importante para os bancos privados mostrarem que levam a sério a sustentabilidade.

Precisamos não apenas de compromissos maiores ou de mais bancos, mas de compromissos melhores.

Os bancos precisam estabelecer metas ecológicas mais ambiciosas, apoiadas por metodologias contábeis mais robustas. Essas metas precisam ser combinadas com reduções significativas no financiamento de combustíveis fósseis. E os bancos que ainda precisam avançar em metas sustentáveis devem começar com compromissos ambiciosos e bem-projetados.

Já passamos do ponto em que os bancos podem comprar nosso apoio com cifras atraentes. Precisamos de compromissos claros, transparentes, com prazo determinado e que incorporem a sustentabilidade como o núcleo dos negócios.

O que a ferramenta pode comparar

Especificidade Os compromissos variam em termos de critérios de sustentabilidade, serviços financeiros disponíveis e horizontes temporais.

Prestação de contas Os bancos podem ou não fornecer metodologias contábeis, planos de relatórios e sinais de apoio da liderança.

Magnitude Os compromissos podem ser convertidos em termos anuais e colocados no contexto do tamanho do banco e do financiamento de combustíveis fósseis.

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