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Países e empresas precisam se engajar para que produção do chocolate seja sustentável

Este post foi publicado originalmente no WRI Insights.


O cacau pode ter se tornado a “commodity de melhor desempenho em 2018”, mas a sombra das mudanças climáticas ameaça as perspectivas de longo prazo da indústria. Manchetes alarmantes como “Chocolate pode entrar em extinção em 40 anos” e “Fabricante dos M&Ms teme escassez de chocolate em 2050” ilustram como a indústria está preocupada com os riscos de longo prazo das mudanças climáticas.

Nossa pesquisa sugere que a chave para garantir o futuro da indústria do chocolate está no que chamamos de “loop de ambições” – um termo para descrever um círculo virtuoso onde governos e o setor privado mutualmente aumentam as ambições pela sustentabilidade em tópicos como ação climática e desmatamento líquido zero.

O futuro da produção de cacau depende de combinar esse aumento de ambições com estratégia de negócios. E a indústria já está assinalando que está no caminho do “loop de ambições”. No entanto, se empresas e governos dos países produtores de cacau quiserem atingir progresso real, eles precisarão ser mais específicos em seus comprometimentos. Caso isso não ocorra, eles arriscam paralisar o “loop de ambições” em sua infância, ameaçando o futuro da produção.

Produtores de cacau caminham rumo à sustentabilidade

Garantir que o cacau é produzido de forma sustentável é uma preocupação não apenas ética, mas também econômica para os produtores de chocolate. Empresas estão entendendo que ignorar princípios de sustentabilidade pode resultar em preços piores, produção mais escassa e choques adversos no mercado nos próximos anos.

Para lidar com esses riscos, as organizações World Cocoa Foundation (WCF), The Sustainable Trade Initiative e Prince of Wales International Sustainability Unit (ISU) criaram a Cocoa and Forests Initiative (Iniciativa Cacau e Florestas, ou CFI, na sigla em inglês) em novembro de 2017, em parceria com os governos da Costa do Marfim e de Gana. A CFI apresentou comprometimentos de alcançar duas metas interdependentes: 1. acabar com o desmatamento; 2. usar novas tecnologias para produzir mais cacau em uma área menor, dessa forma garantido a sustentabilidade ambiental de longo prazo na cadeia de produção do cacau.

Em março de 2019, a CFI anunciou as principais etapas tomadas para aumentar a transparência e sustentabilidade na indústria do cacau. Trinta e quatro empresas – que correspondem a cerca de 85% do uso de cacau no mundo – divulgaram seus planos de ações individuais. Eles detalham como cada empresa vai produzir cacau de forma mais sustentável, incluindo a proteção e restauração de florestas, a proteção dos meios de vida dos agricultores e a melhora do engajamento com a comunidade e inclusão social.

Essas empresas implementarão seus planos de ação em acordo com os planos nacionais desenvolvidos por Costa do Marfim e Gana, os dois maiores produtores de cacau do mundo, e Colômbia, o primeiro país da América Latina a assinar os princípios da CFI. Ao fazer isso, as empresas respondem a um sinal enviado por vários dos países produtores de cacau.

Os planos divulgados pelos governos de Costa do Marfim, Gana e Colômbia são importantes primeiros passos. Como “loops de ambições” em outros setores demonstram, esses passos são essenciais para que os setores público e privado tenham um engajamento substancial para avançar a agenda climática. Em outras palavras, “são precisos dois para dançar o tango”, como diz o ditado. O envolvimento dos setores público e privado permite que cada lado determine metas ambiciosas e discuta formas para a parceria ajudar a atingir essas metas. Esse diálogo tem o potencial de impulsionar cada parte, fazendo com que a ambição cresça em forma de espiral na busca por metas mais ambiciosas.

O baile é no salão do setor privado

A CFI é um exemplo encorajador desse tipo de relação: essas 34 empresas e três governos se comprometeram, em março, a “não mais converter áreas de floresta para a produção de cacau” e “a eliminar gradualmente a produção ilegal de cacau em áreas protegidas”. Os planos de ação dos governos nacionais mostram esferas de responsabilidade e metas claras.

Alguns planos empresariais foram redigidos em resposta aos planos dos governos e têm metas específicas e mensuráveis. Cargill se compromete a mapear 100% de seus agricultores (mais de 82 mil) nas suas cadeias diretas de fornecimento em Gana e Costa do Marfim até 2022. Unilever treinará 12 mil agricultores em “Bons princípios agrícolas” até o mesmo ano. Mondelez distribuirá mais de 2 milhões de “árvores de vários propósitos” para promover diversificação de renda e agrofloresta. O impacto dessas metas ainda precisa ser avaliado.

Lamentavelmente, no entanto, tanto Gana quanto Costa do Marfim estão esperando muitas empresas apresentarem seus planos. A falta de claridade nas definições dos planos empresariais pode gerar problemas para a iniciativa, a não ser que empresas e governos trabalhem juntos para pressionar uns aos outros de maneira que todos sejam responsáveis.

Doce e amargo

A falta de transparência na cadeia de fornecimento da indústria do cacau já resultou em promessas não cumpridas no passado. Uma recente investigação identificou que “as empresas mundiais de chocolate não cumpriram os prazos para acabar com trabalho infantil na cadeia do cacau em 2005, 2008 e 2010. No próximo ano, vence um novo prazo e, segundo porta-vozes do setor, é provável que não cumpram nessa data também”.

Alguns dos maiores desafios do setor parecem ter resultado do oposto de um “loop de ambições”: falta de sinais claros de governos e empresas leva a incertezas, tornando o cumprimento das metas mais difícil. Para evitar repetir os mesmos erros, tomadores de decisão dos setores público e privado precisam se comprometer a seguir o “loop de ambições”. Fazer isso vai garantir métricas como a criação de “um framework nacional efetivo para rastrear todos os elos da cadeia de fornecimentos”, considerado um elemento-chave da CFI (e após se comprometer com esses passos, as empresas precisam segui-los!).

Como disse um diretor da World Cocoa Foundation, “o potencial para ação coletiva é significativo e o momento é agora. Não será rápido ou fácil, mas seremos firmes no comprometimento de finalmente mudar a realidade do desmatamento”.

Mars Inc, fabricante da marca M&Ms, é um membro do WRI´s Consultative Corporate Group, assim como Cargill. Unilever e Mondelez já deram apoio financeiro ao WRI. Este blog reflete apenas as opiniões de seus autores.

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