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Como as instituições financeiras podem cumprir o Acordo de Paris?

Este post foi publicado originalmente no Responsible Investor.


Este é um ano crítico para a ação climática. Cinco anos após o marco do Acordo de Paris, os governos de todo o planeta vão se reunir em novembro em Glasgow, na Escócia, para colocar na mesa planos nacionais de ação climática mais ambiciosos.

A produção científica mais recente diz ser necessário que as emissões cheguem ao pico neste ano e comecem a cair rapidamente para termos uma boa chance de manter o aquecimento a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, e assim evitar os impactos mais severos de um clima em mudança.

Existem alguns sinais de esperança. A Agência Internacional de Energia anunciou recentemente que as emissões globais de dióxido de carbono pelo uso de energia permaneceram inalteradas em 2019 em comparação com 2018, uma pista de que as emissões podem ter atingido o pico. O Conselho da União Europeia se reúne em junho para chegar a um acordo sobre que medidas tomar para zerar as emissões líquidas até 2040.

No setor privado, mais de 800 empresas já se comprometeram a estabelecer metas baseadas na ciência para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa de acordo com as metas do Acordo de Paris, e as metas e ambições do setor corporativo crescem diariamente.

Esses sinais de esperança são importantes, mas não suficientes. Os últimos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas revelaram que a transição para um mundo com zero emissões líquidas de carbono requer uma transformação econômica sistêmica, apoiada por fluxos de capital consistentes. Como uma mudança assim não pode vir de apenas um setor, grupo ou região, é essencial a responsabilidade compartilhada e a colaboração de várias partes interessadas. Para estimular essa transformação, precisamos de estrutura para as instituições financeiras estabelecerem metas baseadas na ciência.

Conduzindo a transformação sistêmica

Para descarbonizar a economia global de maneira alinhada às metas de Paris, todas as empresas precisam reduzir suas emissões diretas de gases de efeito estufa com rapidez suficiente para permanecer dentro dos orçamentos de carbono estabelecidos pela ciência climática.

Essas emissões não ocorrem no vácuo. Elas fazem parte de um sistema econômico e regulatório mais amplo que cria uma rede complexa de incentivos e desincentivos para que os atores da economia real reduzam as emissões. Todo ator em uma determinada cadeia de valor influencia as emissões de outros atores e, portanto, compartilha a responsabilidade de reduzi-las. A iniciativa Science Based Targets (SBTi) torna explícita a responsabilidade compartilhada da cadeia de valor entre os atores, exigindo que as empresas definam metas não apenas para suas emissões diretas (escopo 1) e emissões da eletricidade que compram (escopo 2), mas para todas as emissões significativas em toda a cadeia de valor (escopo 3). Essa prática baseia-se em décadas de contabilização de emissões corporativas através do uso das normas de contabilidade e relatórios corporativos e da cadeia de valor do GHG Protocolo.

O setor privado está avançando para abraçar essa responsabilidade compartilhada. Mais de 90% das 339 empresas com metas científicas aprovadas estabeleceram metas ambiciosas de escopo 3, provocando um efeito cascata positivo em um amplo círculo de empresas em todo o mundo.

O elo vital

As instituições financeiras são o elo vital para possibilitar a mudança que precisamos, que é de todo o sistema. Emprestando e investindo, elas têm o poder de redirecionar o capital para as tecnologias e soluções sustentáveis do futuro e para as empresas que fazem o máximo para se preparar para uma economia de zero emissões líquidas. Por meio do financiamento que fornecem, as instituições financeiras podem influenciar as empresas a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa, mesmo sem controle direto sobre essas reduções.

A estrutura da Science Based Targets Initiative para o setor financeiro foi criada para permitir que as instituições financeiras acelerem a transformação necessária, alinhando as carteiras de empréstimos e investimentos com o nível de ambição exigido pela ciência. Essa abordagem se aproveita da influência e da responsabilidade compartilhada das instituições financeiras para fornecer o capital necessário para financiar a transição para um mundo de zero carbono líquido.

Colocando a ciência em prática

Manter o aquecimento em um caminho de 1,5°C exigirá um aumento significativo nos investimentos em sistemas de energia, em uma escala de US$ 1,6 trilhão a US$ 3,8 trilhões por ano, aproximadamente, entre hoje e 2050. Isso é o triplo do valor investido em atividades favoráveis ao clima em 2017.

Ainda não está claro que ações específicas das instituições financeiras reduzirão as emissões da economia real. Hoje, praticamente não existem métodos para medir adequadamente o impacto climático das ações das instituições financeiras, e não está claro se isso um dia existirá. Mais pesquisas são necessárias para tentar entender quais ações das instituições financeiras funcionam melhor para conter as emissões. Isso será valioso para subsidiar a abordagem em constante evolução do SBTi para estabelecer metas.

Ao mesmo tempo, a urgência da crise climática exige ação agora e, portanto, uma abordagem imediata para as instituições financeiras agirem agora. O SBTi está focado em fornecer uma solução prática que permita ação de curto prazo e impacto em escala. Nossa estrutura está sendo desenvolvida em diálogo com instituições financeiras, consultores, ONGs, acadêmicos e outros por meio de um processo transparente, inclusivo e com várias partes interessadas.

Até agora, mais de 50 instituições financeiras se comprometeram publicamente a estabelecer metas baseadas na ciência, incluindo HSBC, Credit Agricole, AXA Group, Societe Generale e ING Group. Este ano, lançaremos métodos e ferramentas de definição de metas, critérios de validação e diretrizes de definição de metas para ajudar a transformar os compromissos das empresas em metas concretas. A definição de metas que redirecionem os fluxos de capital para investimentos e empréstimos mais sustentáveis pode levar a reduções massivas de emissões na economia.

A soma de tudo

Para impactar todo o sistema, medição e transparência serão fundamentais. A divulgação anual da estratégia de implementação de metas de uma empresa e o progresso em relação a suas metas serão um componente essencial dos requisitos do SBTi para instituições financeiras. Essas informações criarão um entendimento das ações mais eficazes que instituições financeiras podem tomar para impulsionar reduções de emissões e quais são as melhores métricas para acompanhar seu progresso, ajudando a refinar nossa estrutura ao longo do tempo.

A estrutura do SBTi será atualizada anualmente com o avanço da nossa compreensão de como as instituições financeiras podem obter reduções de emissões na economia real. Nosso objetivo é aprender à medida que avançamos e melhorar com o tempo, reconhecendo que, embora não exista uma solução perfeita agora, as instituições financeiras precisam começar imediatamente a se mover na direção certa.

O lançamento da metodologia SBTi para instituições financeiras neste ano coincide com o primeiro questionário CDP adaptado ao setor. A partir de abril, as empresas de serviços financeiros listadas em bolsa serão questionadas sobre os riscos e impactos climáticos de seus portfólios e como eles estão sendo gerenciados. Esperamos ver uma relação que se reforça mutuamente entre maior conscientização e transparência no setor e o estabelecimento de metas baseadas na ciência.

Ao colocar foco no setor para que ele realize seu potencial como divisor de águas na transição para uma economia com zero emissões líquidas de carbono, o SBTi tem o objetivo de estabelecer que metas baseadas na ciência se tornem uma prática padrão entre instituições financeiras.

O Acordo de Paris e a ciência climática nos mostraram o nível de ambição necessário para garantir uma economia sustentável e próspera capaz de evitar mudanças climáticas catastróficas. O setor financeiro tem um papel vital a desempenhar para ajudar o mundo a chegar lá e moldar a economia com zero emissões líquidas de carbono do futuro. Com o futuro do nosso planeta em risco, todos têm uma participação no resultado e um papel a desempenhar. Não há tempo a perder.


Cynthia Cummis é diretora de Mitigação Climática para o Setor Privado do WRI e parte do Comitê Diretor da iniciativa Science Based Targets (SBTi).

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