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4 motivos para priorizar veículos elétricos depois da Covid-19

Este blog foi publicado originalmente no WRI Insights.


A Covid-19 afetou quase tudo em relação aos transportes.

Para o setor público, as paralisações econômicas acabaram com a receita necessária para comprar e manter frotas de veículos. Talvez nenhuma entidade municipal tenha sido tão atingida quanto as agências de transporte coletivo, que viram o número de passageiros despencar em até 97%. Há empresas do setor à beira da falência e alguns serviços de ônibus podem ser encerrados de forma permanente.

Para o setor privado, a Covid-19 aumentou o interesse no uso de veículos privados, uma vez que as pessoas passaram a se sentir mais seguras e protegidas nos carros do que no transporte coletivo. Não apenas a população começou a usar mais o carro em vez do vale-transporte como pessoas que nunca tiveram um carro agora consideram a compra de um.

Essas são duas tendências preocupantes que ameaçam os princípios fundamentais da mobilidade sustentável: transporte coletivo de qualidade e redução do uso de veículos particulares. O transporte público é fundamental para a criação de cidades mais eficientes e sustentáveis, e as cidades devem continuar priorizando-o em detrimento dos veículos privados.

Os veículos particulares, contudo, dificilmente vão desaparecer – mas aqueles que forem comprados podem ser elétricos. Por meio de políticas e investimentos adequados, os governos locais podem incentivar os consumidores a fazerem a escolha certa ao mesmo tempo em que ampliam suas frotas de veículos elétricos (VE) e estimulam suas economias.

4 motivos para investir em VEs agora

Consideradas as circunstâncias impostas pela Covid-19, este é o momento perfeito para consumidores e operadoras investirem em VEs, especialmente em ônibus elétricos. Uma adoção rápida dos veículos elétricos durante a pandemia vai:

1. Estimular a economia

A Organização Internacional do Trabalho estima que mais de 14 milhões de trabalhadores foram afetados de forma negativa pela pandemia apenas nos Estados Unidos e na Europa. A expansão das frotas de veículos elétricos e a construção de nova infraestrutura podem gerar empregos imediatos e manter a atividade econômica. Estima-se que só os Estados Unidos precisem de pelo menos 330 mil pontos de recarga públicos e cerca de US$ 4,7 bilhões em investimentos em infraestrutura de VEs até 2025. Embora a geração de empregos provavelmente venha de outros setores, diversos estudos apontam que os VEs vão trazer um benefício líquido para o total de empregos gerados, com estimativas de até 2 milhões de novos empregos até 2030 nos setores de recarga e manutenção. Não existe investimento melhor para estimular a atividade econômica do que aquele que exige uma grande aplicação inicial com economia a longo prazo.

2. Economizar dinheiro

Apesar dos elevados custos iniciais, os veículos elétricos podem representar um custo total menor na posse de um veículo e economizar dinheiro a longo prazo. Um estudo recente mostrou que o custo de posse de um e-taxi será menor do que o de táxis convencionais depois de apenas quatro anos de uso. A Bloomberg estimou que os ônibus elétricos vão começar a ter um custo de posse menor que os ônibus a diesel em 2018, considerando que os ônibus percorram pelo menos 160 quilômetros por dia. Economias como essas podem ajudar os governos e as empresas a reforçarem seus fundos de emergência para enfrentar déficits operacionais em períodos de crise ou baixa demanda.

3. Criar novos fluxos de receita em emergências e períodos de baixa demanda

Os veículos elétricos – em especial aqueles com baterias grandes, como ônibus, veículos de entrega e caminhões municipais – possibilitam usos e fluxos de receita adicionais. Em tempos de crise ou baixa demanda, veículos elétricos pesados (ou uma rede agregada de baterias menores) podem ser usados para fornecer eletricidade estável para hospitais e outros serviços essenciais por meio de soluções vehicle-to-grid (veículo para rede). No estado da Virgínia, por exemplo, a Dominion Energy espera substituir 50 ônibus a diesel por modelos elétricos até o final de 2020, ampliando para mais de mil veículos até 2025, com aprovação estadual. Quando o plano estiver totalmente implementado, as baterias da frota de ônibus poderão armazenar até 105 megawatts-hora de eletricidade – o suficiente para abastecer mais de 10 mil residências. As estimativas são baseadas em um projeto-piloto liderado pela Universidade de Delaware, no qual os carros elétricos geraram mais de US$ 100 por carro por mês.

4. Manter avanços na qualidade do ar local

Durante o confinamento em decorrência da Covid-19, a poluição do ar caiu quase 60% em muitas cidades. Os veículos elétricos não têm emissões de escape, emitem menos calor e produzem menos ruído em comparação com os veículos convencionais. Priorizar a adoção de veículos elétricos agora ajudaria a manter as melhorias na qualidade do ar e a reduzir os riscos para saúde nas comunidades. Benefícios como esses podem ainda ser aprofundados com o uso de veículos elétricos para melhorar a integração das energias renováveis (a energia solar produzida durante o dia, por exemplo, pode ser armazenada em veículos elétricos e vendida de volta à rede para ser usada posteriormente).

ônibus elétrico Ônibus elétrico em Toronto, no Canadá (Foto: Can Pac Swire/Flickr)

Como os governos podem apoiar o uso de mais veículos elétricos?

Veículos elétricos – principalmente veículos grandes e compartilhados, como os ônibus – são uma ótima maneira de impulsionar a economia após a Covid-19. Embora a abordagem possa variar conforme a região, existem três passos principais que os governos podem dar para apoiar a adoção de VEs públicos e privados.

1. Ampliar a infraestrutura de recarga

A falta de infraestrutura de recarga é uma barreira importante para expandir o uso de VEs. Acelerar a implantação dessas infraestruturas não só aumenta a confiança dos consumidores, que demonstram ansiedade em relação ao raio de alcance dos veículos, como faz a ligação essencial com a rede elétrica. Instalações de recarga inteligentes também ajudarão no gerenciamento da carga elétrica na rede e no uso de VEs como dispositivos de armazenamento de energia. Ao focar na ampla implementação de infraestrutura de recarga e incentivar o carregamento dos veículos nos locais de trabalho, esse investimento terá resultados positivos.

2. Apoiar a compra de VEs nos pacotes de estímulo da Covid-19

Seja no âmbito dos governos nacionais ou de instituições internacionais, muitas cidades e países provavelmente serão elegíveis para estímulos pós-Covid-19 nos próximos meses. Os governos devem priorizar a destinação desses recursos para ações que promovam um crescimento econômico em cascata em curto prazo e economizem dinheiro a longo prazo, além de oferecer cobenefícios ambientais. A aquisição de VEs, em especial ônibus e outros veículos coletivos de alta quilometragem, é uma maneira concreta de atingir essas três metas. Legisladores devem criar pacotes de estímulo que subsidiem tanto a compra de veículos elétricos quanto sua respectiva infraestrutura de recarga. Um exemplo é o pacote de estímulo da Alemanha, de 15 bilhões de euros, que visa acelerar a adoção de VEs aumentando os subsídios para a compra dos veículos, reduzindo impostos e dimensionando a infraestrutura de recarga.

3. Implementar padrões de emissões e normas para VEs

Para apoiar os esforços de desenvolvimento da infraestrutura de recarga e estruturação dos pacotes de estímulo, legisladores também devem implementar leis para consolidar um estímulo de longo prazo à eletrificação. Em todo o mundo, padrões e normas veiculares se mostraram ferramentas efetivas para mitigar os gases de efeito estufa no setor de transportes e apoiar a adoção de VEs. No México, por exemplo, um novo padrão de eficiência veicular reduziu as emissões de dióxido de carbono em cerca de 30 milhões de toneladas entre 2013 e 2017, melhorou a eficiência geral dos veículos do país em cerca de 11% e preparou o terreno para a futura adoção de VEs.

Decretos para veículos de emissão zero também se mostraram eficazes em contribuir para o aumento das vendas de veículos elétricos, conforme evidenciam programas bem-sucedidos na Califórnia e na China. Políticas como essas estimulam as cadeias de fornecimento de veículos não poluentes e podem reforçar os planos para infraestrutura de recarga, além de incentivar recursos de estímulo, acelerando o ritmo de eletrificação das frotas.

Uma recuperação melhor com veículos elétricos

Os VEs podem ajudar a criar um mundo pós-Covid-19 mais ambiental e financeiramente sustentável. Como observou certa vez Paul Romer, economista vencedor do Prêmio Nobel: “Uma crise é uma coisa terrível de se desperdiçar”. Apesar da natureza destrutiva e dolorosa da pandemia, ela também oferece uma oportunidade única para interrompermos a produção convencional de veículos e encaminharmos um futuro limpo, econômico e elétrico.

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