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A ação climática precisa avançar muito mais rápido para atingirmos a meta de 1,5°C

No Acordo de Paris em 2015, os países concordaram em manter o aquecimento global abaixo de 2°C e, idealmente, a limitá-lo a no máximo 1,5°C. Para cumprir essa meta e evitar os piores impactos das mudanças climáticas, a ciência mais recente mostra que as emissões precisam cair pela metade até 2030 e chegar ao zero líquido até a metade do século.

A questão é: estamos no caminho certo para cumprir as metas climáticas até 2030 e 2050?

Um relatório do WRI e da ClimateWorks Foundation descobriu que, de modo geral, o progresso está acontecendo muito lentamente para que o mundo alcance as metas de redução de emissões – e, em alguns casos, avançamos na direção totalmente errada. O relatório State of Climate Action (“Estado da Ação Climática”) avaliou 21 indicadores em seis setores-chave. De todos os aspectos avaliados, apenas dois apresentam taxa de variação histórica suficiente para cumprir as metas de 2030 e 2050; 13 indicadores apontam mudanças na direção certa, mas lentas; e outros dois indicam mudanças na direção errada. Em quatro indicadores, não há dados suficientes para avaliar o progresso.

O consórcio Climate Action Tracker (CAT) projetou benchmarks para os setores de energia, indústria, construção e transportes, e o WRI, para florestas e agricultura. Todos os benchmarks foram embasados em várias linhas de evidências para contemplar evoluções recentes, avaliar a viabilidade e garantir a compatibilidade com o Acordo de Paris.

Aqui estão algumas das oportunidades de mitigação mais significativas nos setores de energia, construção, indústria, transportes, florestas e agricultura, necessárias para cumprir as metas globais de emissões de GEE:

1. Energia: aumentar as fontes renováveis 6x mais rápido e reduzir o carvão não compensado 5x mais rápido do que as taxas atuais até 2030

A energia renovável é hoje uma boa escolha entre as tecnologias de geração de eletricidade, representando 72% da nova capacidade em 2019. A presença das fontes renováveis tem aumentado a cada ano em escala global, e sua participação na geração total de eletricidade atingiu cerca de 27% em 2019.

Embora tenha ocorrido uma considerável aceleração no uso de energia renovável, para cumprir as metas climáticas de 2030 e 2050, o ritmo precisa ser seis vezes mais rápido.

Cada país segue um caminho diferente para atingir esses marcos, dependendo de seu ponto de partida. China e Índia, por exemplo, começam com uma parcela maior de energia a carvão, de 67% e 74%, respectivamente, de acordo com dados de 2018. Em outros países, como o Brasil, a participação das fontes renováveis na geração total de eletricidade já é maior do que a média mundial (mais de 80% em 2018), devido à abundância de energia hidrelétrica no país – mas a demanda por eletricidade também deve crescer.

Em paralelo, para evitar que o mundo siga preso a um futuro de alto carbono, as usinas elétricas a carvão ainda existentes precisam ser fechadas e nenhuma nova deve ser construída. Em todo o mundo, o carvão fornece atualmente 38% da eletricidade, mas até 2040 é preciso descontinuar¹ usinas a carvão que não compensam suas emissões (unabated coal, em inglês) na geração de eletricidade.

Os governos reconhecem cada vez mais os benefícios econômicos e de saúde de interromper o uso do carvão: o encerramento de usinas a carvão aumentou – de 2 GW encerrados em 2006 para 34 GW em 2019 –, mas outras continuam a ser construídas, principalmente em países onde a demanda por eletricidade cresce.

2. Edificações: acelerar a renovação de construções existentes e exigir padrões de eficiência muito mais altos para novos empreendimentos

Em todo o mundo, o ambiente construído é responsável por 30% do consumo de energia e 27% das emissões de CO2 relacionadas à energia. As construções existentes precisam ser renovadas para aumentar a eficiência energética e reduzir a intensidade de carbono, mas isso não vem sendo feito de forma rápida o suficiente. As taxas atuais de renovação de prédios residenciais e comerciais ficam entre 1% e 2% ao ano, em média; para atingir as metas climáticas, esses índices precisam ser de 2,5% a 3,5% ao ano até 2030, com melhorias de eficiência energética muito mais significativas.

A intensidade energética e de carbono em prédios residenciais e comerciais já existentes tem caído gradualmente nos principais países emissores, com algumas exceções. Esse declínio, porém, precisa ser muito mais rápido na maioria dos casos para que o mundo esteja no caminho certo da meta de 1,5°C.

Além de renovar as construções existentes, todos os novos empreendimentos em todos os países precisam seguir altos padrões de eficiência energética e usar tecnologias de aquecimento e refrigeração de emissão zero.

Em muitos países, grande parte das edificações que existirão em 2050 ainda não foram construídas. Esses países têm o desafio de atender a essa demanda e, ao mesmo tempo, melhorar a intensidade energética e de carbono das construções já existentes. Bombas de calor, aquecedores de água solares e altos padrões térmicos para as edificações são essenciais para manter baixas tanto a demanda por energia quanto as emissões e, ao mesmo tempo, oferecer um modo de vida confortável.

3. Indústria: reduzir de forma significativa as emissões na produção de cimento e aço até 2050

As emissões da produção de cimento e aço representam quase metade (44%) das emissões industriais. Para cumprir as metas climáticas, até 2050 as emissões da produção de cimento precisam cair entre 85% e 91% globalmente, e as de aço, entre 93% e 100%.

A média global da intensidade de carbono da produção de cimento permaneceu estável ao longo dos últimos oito anos, com alguns países (como os Estados Unidos) registrando aumentos. No mesmo período, na maioria dos principais países emissores, as emissões de CO2 da produção de aço diminuíram ligeiramente, mas precisam registrar uma redução mais rápida se quisermos cumprir as metas climáticas.

Existem diversas opções disponíveis para a descarbonização da produção de cimento e aço – e elas devem ser implementadas de maneira simultânea e rápida ao longo das próximas décadas. As principais alternativas incluem aumentar a reciclagem de sucata de aço, mudar para o hidrogênio na produção, usar combustíveis alternativos nos fornos de cimento e reduzir a proporção de clínquer no cimento. Mudanças adicionais de comportamento podem ajudar a diminuir ainda mais as emissões, como reduzir a demanda por esses produtos, aumentar a vida útil de construções e outras estruturas e aumentar a reciclagem e a reutilização de materiais.

4. Transportes: adotar veículos elétricos 12x mais rápido do que a atual taxa de vendas até 2030

Há uma série de caminhos possíveis para avançar em direção a um transporte mais sustentável, como investir em transporte coletivo e tornar as cidades mais caminháveis. Substituir os veículos motorizados tradicionais por veículos elétricos (VEs) pode fazer isso e, também, reduzir as emissões veiculares no transporte de passageiros – desde que a rede elétrica que os alimenta também esteja no caminho da descarbonização. Onde esse não for o caso, devem ser priorizados os combustíveis de baixo carbono.

Atualmente, os VEs representam uma pequena porcentagem – cerca de 1% – do estoque global de veículos de passageiros. Os modelos elétricos, no entanto, cresceram rapidamente ao longo dos últimos cinco anos e essa tendência deve aumentar. A expansão é especialmente significativa em países com políticas de apoio ao setor, como a China e a Noruega. Neste último, em 2019, os VEs representaram 56% dos veículos novos e 13% do estoque total de veículos do país.

À medida que o custo de possuir um modelo elétrico fica mais competitivo em relação ao dos veículos tradicionais, e com cada vez mais políticas de apoio promovidas pelos governos, o progresso avança na direção certa. No entanto, para que as metas climáticas sejam cumpridas, a taxa de vendas de VEs em todo o mundo ainda precisa ser 12x maior para que possamos chegar a uma frota de veículos totalmente eletrificada e descarbonizar o setor de transportes.

5. Florestas: desacelerar drasticamente o desmatamento e aumentar o ganho de cobertura florestal 5x mais rápido até 2030

As florestas podem ser fonte de emissões, quando cortadas, ou um instrumento de remoção de carbono da atmosfera, quando mais árvores são plantadas. Para garantir que as florestas sejam parte da solução climática, precisamos reduzir o desmatamento de forma substancial – particularmente nas florestas tropicais – e aumentar o número de árvores nas paisagens em até cinco vezes.

Na média, o desmatamento aumenta desde 2001. Especialmente preocupante é a perda de florestas primárias (veja a barra vermelha abaixo), insubstituíveis em termos de biodiversidade, para o funcionamento do ecossistema e para o sequestro de carbono.

Embora os compromissos para reduzir o desmatamento tenham aumentado, ainda não obtiveram muito sucesso. Os objetivos de restauração de paisagens degradadas estão quase no caminho certo para a meta de 2030 (os países já se comprometeram a restaurar 349 milhões de hectares², em comparação aos 350 milhões necessários até 2030 para cumprir as metas climáticas). Mas, é claro, os governos precisam garantir o alinhamento entre financiamento, incentivos e política para transformar essas promessas em ações concretas.

6. Agricultura: preservar as florestas e, ao mesmo tempo, acelerar os ganhos de produtividade e mudar os padrões de consumo para alimentar uma população crescente

Melhorar a eficiência no uso da terra é fundamental para alimentar uma população crescente, reduzir o desmatamento em larga escala e aumentar o reflorestamento. Ao mesmo tempo, é essencial desacelerar a taxa de crescimento da demanda por alimentos e terras agrícolas. Isso pode ser feito reduzindo a perda e o desperdício de comida, mudando as dietas ricas em carne para alternativas mais vegetarianas (longe, especialmente, das carnes bovina e ovina, que geram muitas emissões) e evitando a expansão da produção de biocombustíveis.

Dos 21 indicadores avaliados em nossa análise, os dois que estão no caminho para cumprir as metas de 2030 (se forem mantidas as taxas de ação recentes) são ambos do setor agrícola: rendimento das safras e consumo de carne de ruminantes. No entanto, embora em escala global esses dois indicadores estejam no caminho certo, uma grande variabilidade em escala nacional e regional conta uma história com mais nuances que devem ser observadas.

Na África Subsaariana, por exemplo, sem a expansão das terras de cultivo e perda de florestas e savanas, o crescimento da produção precisa acelerar mais de dez vezes para atender à crescente demanda por alimentos. As Américas e a Europa, para cumprir a meta de consumo de carne de ruminantes de forma equitativa, precisariam reduzir seu consumo três vezes mais rápido do que a taxa dos últimos cinco anos para dar espaço a um aumento modesto do consumo nos países de baixa renda.

E um indicador geral importante – o total de emissões de GEE da produção agrícola – ainda avança na direção errada.

Como os países podem assegurar um futuro de baixo carbono

O estado atual do progresso está em um descompasso significativo com as mudanças necessárias.

Embora o cenário pareça assustador, é possível revertê-lo e atingir as metas. Os avanços tecnológicos que observamos nos carros, telefones e computadores também já pareceram impossíveis. Uma transição rápida para um futuro de zero carbono configura uma oportunidade semelhante – mas apenas se devidamente encorajada por políticas adequadas, incentivos, financiamento e outras formas de apoio.

Antes das negociações da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26) em Glasgow no próximo ano, os países devem apresentar compromissos climáticos nacionais mais fortes atrelados ao Acordo de Paris e desenvolver estratégias de desenvolvimento de longo prazo e baixa emissão para todos os setores. Dependendo da ambição que projetarem, os planos climáticos nacionais podem nos prender a uma trajetória de alto carbono ou nos mover na direção de um futuro mais seguro, próspero e equitativo.

A rápida transformação de que precisamos exigirá investimentos significativos, transferência de tecnologia e capacitação para os países em desenvolvimento. Embora o financiamento climático tenha aumentado de forma considerável nos últimos anos, ainda não alcançou a escala necessária para revolucionar nossos sistemas de energia e transporte, acelerar a eficiência energética e proteger as florestas. Estimativas indicam que são necessários entre US$ 1,6 trilhão e US$ 3,8 trilhões por ano até 2050 apenas para a transformação do setor de energia. Além disso, as mudanças implementadas para concretizar um futuro de carbono zero precisam ser feitas de maneira que sejam duradouras, justas, equitativas e garantam prosperidade para todos.

Conforme detalhado no relatório Estado da Ação Climática, todos os setores possuem alternativas que permitem alinhar a trajetória das emissões de GEE ao que a ciência afirma ser necessário para evitarmos os piores efeitos das mudanças climáticas. Agora, cabe aos países, empresas e demais entidades implementar políticas, incentivos e investimentos para nos colocar no caminho certo.


1. Nos cenários que não ultrapassam o limite de 1,5°C, avaliados no SR15, o carvão não compensado representa 0,5% da produção total de eletricidade em 2040.

2. Com base no artigo de Susan Cook-Patton et al., a ser publicado.

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