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A economia de mercado deve trabalhar pelas pessoas e pelo planeta

Imagine por um momento como seria se a Terra fosse uma empresa. A Planeta Terra Ltda. é um conglomerado global que oferece produtos e serviços para consumidores em todo o mundo. A empresa está em operação há bastante tempo e com balanços tão positivos que só recentemente, diante de outros escândalos corporativos, seus auditores decidiram checar o histórico e analisar como de fato vai o negócio. A auditoria revela uma empresa com problemas profundos.

Catorze das 18 divisões da companhia estão no vermelho. Apenas quatro são lucrativas. A opinião da auditoria é preocupante, indicando a ausência de controles internos: contas de capital subvalorizadas e esgotadas para ganhos de curto prazo e uso extensivo de ativos e passivos fora do balanço. As unidades de negócios são colocadas umas contra as outras com mecanismos de transferência de preços ineficientes, nenhum planejamento estratégico e subinvestimento em Pesquisa e Desenvolvimento. A empresa não tem um CEO. A auditoria afirma que, para evitar a falência, a gestão precisa mudar suas práticas ou ser substituída.

O relatório global da Plataforma Intergovernamental de Ciência Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês – o “IPCC da natureza”) pode ser comparado a uma auditoria empresarial. Os 150 cientistas envolvidos descobriram que, dos 18 serviços ecossistêmicos avaliados em escala global, apenas quatro foram aprimorados desde 1970. Os demais encontram-se degradados ou esgotados, apesar dos alertas de uma avaliação anterior, 15 anos atrás.

Estamos ao mesmo tempo em meio a uma “Grande Aceleração” da pegada ambiental da humanidade e uma Grande Concentração de riquezas. De acordo com a Oxfam, 82% da riqueza gerada no mundo em 2017 foi para o 1% mais rico, enquanto metade da população mundial lutou para sobreviver com menos de US$ 5,50 por dia.

O que fazer?

Mudar as regras do mercado global

O sistema de mercado global é projetado para maximizar os lucros e atender as necessidades das pessoas. E teve algum sucesso nisso. Como observado pela historiadora econômica Deirdre McCloskey, a adesão da Europa Ocidental à busca pelo lucro foi o catalisador para o que ela chama de o “Grande Enriquecimento” dos últimos dois séculos. Nesse período, o mundo passou por uma melhoria sem precedentes nos padrões de vida e ampliou as liberdades individuais. Mas esses benefícios tiveram um preço alto e que continua crescendo.

Hoje, o mercado é a força mais destrutiva do planeta para o meio ambiente. É o elefante faminto no Jardim do Éden. Prospera às custas do meio ambiente e, em última instância, da própria sociedade. E até 2050 deve ser mais de duas vezes maior do que em 2016.

Precisamos frear e redirecionar o capital sempre inatingível e a engenhosidade do mercado como uma força restauradora para o planeta. Sabemos o que move o mercado – crescimento e lucro. CEOs podem fazer discursos amigáveis, assinar declarações positivas, adotar bons valores, mas se não seguirem aumentando os lucros de forma contínua perdem seus empregos.

Felizmente, o mundo dos negócios é pragmático em relação a como aumentar seus lucros. Se for para gerar mais lucro, existe disposição para mudar localização, produtos, tecnologias, insumos etc. Precisamos, portanto, assegurar que as regras do mercado incentivem uma administração em sociedade. Isso implica levar em consideração os custos e benefícios ambientais no cálculo dos lucros. E não pode ser um exercício voluntário – precisa ser uma exigência. Sim, é mais fácil falar do que fazer. Mas precisa ser feito.

Como incluir custos e benefícios ambientais nos lucros?

Duas ações são necessárias. O governo desempenha um papel central em ambas, mas a sociedade e as empresas também precisam somar forças.

1) Reparar as omissões no cálculo dos lucros corporativos

A busca por lucro não é o problema. O problema real é o cálculo incompleto desse lucro.

O cálculo deixa de fora o que mais importa, o valor do ar limpo, da água, de ecossistemas saudáveis, dos custos que recaem sobre a sociedade – em especial das pessoas mais vulneráveis – quando esses recursos são degradados. Essas omissões talvez tenham sido menos significativas um século atrás, quando havia recursos em abundância e a população era menor. Hoje, porém, à medida que nos aproximamos e ultrapassamos os limites do planeta, elas se tornam o principal problema.

Voltando para a auditoria da Planeta Terra Ltda., é revelador que as quatro divisões que melhoraram segundo o IPBES (alimentos, pesca, bioenergia e a colheita de outros produtos) tenham um preço de mercado que reflete seus benefícios para a sociedade. Entre as 14 divisões no vermelho, a maioria não estipula um preço para os benefícios que oferecem à sociedade. São serviços ambientais como a polinização e a regulação do clima, de riscos naturais e a qualidade e disponibilidade de água.

A contabilidade financeira deve sua integridade à contabilidade por entrada e saída que registra tanto créditos quanto débitos. No entanto, quando se trata do meio ambiente, praticamos uma contabilidade apenas de entrada. Registramos o valor do que obtemos da natureza, mas não fazemos nenhuma entrada referente a seu esgotamento ou degradação. As empresas alimentícias não levam em consideração a erosão do solo, a poluição da água ou os efeitos, em termos de mudanças climáticas, da conversão de florestas em terras agrícolas. As empresas do ramo da pesca não consideram o esgotamento dos recursos. E as empresas de produtos florestais não contabilizam a redução ou perda de regulação de carbono decorrentes das colheitas feitas nas florestas. Não se trata apenas de uma falha dos mercados: é uma falha dos governos em definirem regras de mercado adequadas.

Alguns são contrários a estipular um valor à natureza. Argumentam que é muito difícil. Que prejudica seu valor intrínseco, o qual não pode ser calculado. Que a natureza é parte de um sistema integral. Mas, sem um valor, a natureza se torna, essencialmente, sem valor. E embora a mão invisível do mercado tenha algum poder para administrar a escassez, ela não tem como saber o que não conhece!

Estamos começando a entender o que a mão invisível não conhece, e os resultados são perturbadores. Pesquisadores da Faculdade de Economia de Harvard, por exemplo, quantificaram o impacto ambiental de 1.800 empresas e descobriram que os custos ambientais com frequência ultrapassavam os lucros. Das 1.694 empresas que eram lucrativas em 2018, 252 (15%) teriam seus lucros apagados se fossem considerados os custos ambientais e outras 543 (32%) teriam os lucros reduzidos em 25% ou mais.

É tarefa dos governos assegurar que os mercados operem segundo regras que não prejudiquem a sociedade e o meio ambiente do qual todos dependemos. O verdadeiro custo do meio ambiente precisa ser calculado e incluído nos cálculos de lucros corporativos.

Um bom começo é precificar o carbono. O número de sistemas de precificação de carbono quadruplicou ao longo dos últimos dez anos, cobrindo atualmente 78 jurisdições e mais de 22% das emissões globais de GEE. Além disso, quando necessário, os governos devem utilizar mecanismos mais antigos e não mercadológicos, como as leis do Ar Limpo e da Água Limpa dos Estados Unidos, para garantir que determinados comportamentos destrutivos estejam fora de alcance.

De novo: mais fácil falar do que fazer, especialmente se considerados os interesses envolvidos na política. Mas isso nos leva à segunda ação necessária.

<p>Imagem mostra fábrica ou usina com chaminés soltando fumaça</p>

Os custos e benefícios ambientais precisam ser incluídos nos cálculos de lucros corporativos. Por onde começar? Pela precificação das emissões de carbono (Foto: Patrick Hendry/Unsplash)

2) Reduzir a influência das empresas em políticas públicas e eleições

Diferentes métricas medem o crescimento da influência das empresas sobre o legislativo desde os anos 1970: a quantidade de lobistas, o tempo investido em lobby, gastos indiretos em organizações de pesquisa para benefício próprio, canais diretos entre governos e empresas, gastos em eleições, entre outros. As cinco maiores empresas de capital aberto de petróleo e gás do mundo gastam cerca de US$ 200 milhões por ano em lobby contra políticas climáticas. Não deveria ser surpresa, portanto, que os países do G20 tenham destinado US$ 207 bilhões para combustíveis fósseis em suas medidas de estímulo com a Covid-19 (dados de setembro de 2020) em comparação a apenas US$ 137 bilhões para energia limpa. E boa parte sem quaisquer condicionalidades – nem mesmo que os empregos dos funcionários sejam mantidos.

Os governos precisam encarar o problema de frente se quisermos ter qualquer esperança de aprovar políticas que corrijam as falhas do mercado. É preciso reduzir o poder das empresas e, ao mesmo tempo, dar mais voz aos cidadãos. As maneiras de fazer isso incluem limitar os gastos dos partidos, acabar com as contribuições de empresas e lobistas e ampliar a divulgação de dados de arrecadação de recursos e gastos. Precisamos afastar o dinheiro e os interesses corporativos da política e devolver esse poder às pessoas.

Autorregulação verde dos mercados: bom, mas insuficiente

A comunidade empresarial vai se opor à redução de sua influência e a uma maior supervisão por parte dos governos. O argumento será: deixe por conta dos mercados. Podem ressaltar o fato de que mais de mil empresas se comprometeram com metas climáticas embasadas de redução de emissões, ou relembrar a promessa emergente de uma nova economia circular, ou apontar que um quarto (25%) dos ativos financeiros globais hoje são administrados de forma sustentável em algum aspecto. Embora essas sejam iniciativas importantes, elas não determinam o jogo. São, na melhor das hipóteses, degraus bambos que precisam ser reforçados por ações governamentais significativas se quisermos resolver a questão dos limites ecológicos no tempo finito que nos resta para tanto.

No início da década de 1990, John Elkington cunhou o termo “tripé da sustentabilidade” (em inglês, tripple bottom line) para inspirar as empresas a considerar de forma equivalente em seus resultados o valor dos fatores ambientais, sociais e econômicos. Desde então, milhares de empresas passaram a produzir relatórios de sustentabilidade. Mas esses números não financeiros não contam em relação ao que é mais importante: o próprio resultado final. Não é uma surpresa, portanto, que no 25º aniversário do lançamento do tripé da sustentabilidade, Elkington tenha divulgado um recall de produto para seu conceito. Sem contar com uma ação governamental robusta, a ideia não atingiu seu objetivo de mudar o sistema.

Os governos precisam voltar a governar

Quando os governos estabelecerem regras que incluam o valor da natureza nos cálculos de lucro, isso ajudará a alinhar a geração de lucros com a solução para a crise que enfrentamos em casa – nossa casa comum, o planeta. Então esse elefante, em vez de continuar correndo desenfreado, voltará sua atenção aos cuidados com o jardim, sem deixar de obter seus lucros.

Algumas lideranças empresariais começam a ter essa mesma ideia. Em setembro de 2020, 200 CEOs da Mesa Redonda de Negócios dos EUA emitiram uma declaração solicitando uma ação governamental para as mudanças climáticas. Essa movimentação no mundo dos negócios deve ser acompanhada por exigências também por parte da população. E, se empresas e cidadãos conseguirem que os governos voltem a governar, talvez tenhamos a aprovação de políticas que façam jus à escala dos desafios ambientais enfrentados pelo mundo.

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