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Como restaurar 150 mil hectares de florestas pode ajudar ES no combate à desertificação

A porção norte do Espírito Santo é uma região que historicamente sofreu perda de cobertura florestal e alto grau de degradação por conta da ocupação da terra por atividades como pastagens e monoculturas que resultaram em perda do solo, erosão e assoreamento dos cursos d’água. A região tem hoje menos de 15% da cobertura original de Mata Atlântica.

Essa situação coloca a segurança hídrica do norte do estado em risco. Os proprietários rurais já convivem com secas frequentes e crises de água, e a situação pode piorar, a ponto de o governo brasileiro incluir essa paisagem em seu plano de combate à desertificação.

O retorno da floresta pode melhorar a qualidade da água nas bacias e garantir a segurança hídrica na região. Um novo estudo, publicado nesta terça-feira (15) pelos Comitês de Bacias Hidrográficas (CBHs) dos rios Itaúnas e São Mateus, com o apoio do WRI Brasil e do Instituto Internacional para a Sustentabilidade (IIS), mostra que há uma grande oportunidade para a restauração de paisagens e florestas na região.

O estudo, intitulado “Planejamento da restauração de paisagens e florestas das Bacias Hidrográficas dos Rios Itaúnas e São Mateus”, mostra que há na região uma oportunidade de restaurar 156 mil hectares de florestas. Essas bacias podem se beneficiar dessa restauração, gerando renda para produtores e produtoras rurais, e ainda permitindo adequar produtores rurais às regras do Código Florestal.

Planejando a restauração no norte do estado

O estado do Espírito Santo vem se consolidando como um polo da restauração florestal, com iniciativas inovadoras como o Programa Reflorestar. O norte do estado, porém, ainda teve pouca participação nas atividades de restauração. O estudo apresenta, em mapas, áreas prioritárias para a recuperação de florestas nas duas bacias, ajudando as autoridades a identificar as melhores áreas para o plantio.

A priorização se baseou nas áreas definidas no Código Florestal que precisam ser recuperadas, as Áreas de Preservação Permanente (APPs) e a Reserva Legal (RL), identificando os passivos existentes nas duas bacias. Também foram considerados dados relacionados à segurança hídrica, como potencial de recarga de águas subterrâneas, registro de secas e inundações, entre outros.

O planejamento reconhece que a restauração pode ter um custo elevado para o produtor rural, e por isso propõe modelos em que se pode plantar florestas com fins produtivos, buscando conciliar serviços ambientais essenciais, como melhora do solo e infiltração de água, com a geração de emprego e renda. Entre esses modelos, destacam-se os Sistemas Agroflorestais, em que o produtor combina o plantio de árvores com culturas anuais ou culturas agrícolas, e a integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF), em que se introduz árvores no pasto.

Um plano de ação com atividades de curto a médio prazo foi elaborado ao longo do processo, sendo um passo inicial para construir estratégias que possam mudar o cenário presente na região. Esse também é um conteúdo relevante porque é um primeiro passo na estruturação dos mecanismos para financiar a agenda da restauração na região.

Atores locais engajados para dar escala à restauração

Além dos dados ambientais e econômicos, um dos resultados mais importantes do trabalho foi o engajamento de pessoas interessadas na restauração da paisagem.

Esse engajamento começou mesmo antes da elaboração do estudo, com a forte atuação dos CBHs Itaúnas e São Mateus. Em março de 2020, os dois CBHs criaram Câmaras Técnicas para tratar de restauração, e no segundo semestre deste ano participaram de uma série de oficinas, em parceria com WRI Brasil e IIS, no âmbito do projeto Pró-Restaura, que levaram ao estudo publicado hoje.

O processo participativo é crucial para fazer a restauração não ficar apenas no planejamento e ser executada, acompanhada e monitorada com sucesso. Processos participativos como esse têm um valor importante em gerar condições e movimentos regionais e locais que se fortalecem e criam capacidades pra receber e acessar recursos e potencializar a ação. O planejamento e desenvolvimento dos estudos permitiu que as organizações locais se estruturassem para atuar mais ativamente na agenda da restauração, criando as bases para acelerar e dar escala à restauração florestal na paisagem.

O Espírito Santo está engajado na restauração florestal - o estado se comprometeu com a restauração de 80 mil hectares na Iniciativa 20x20. Impulsionar a restauração no norte do Estado, incentivando o plantio de florestas numa região que apresenta sérios problemas com a seca, não só trará grandes benefícios locais como ajudará a tornar o estado referência da silvicultura de nativas no país. Os atores locais e os CBHs já estão mobilizados para acelerar e dar escala à restauração.

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