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Apesar dos benefícios, faltam recursos para soluções baseadas na natureza para adaptação

Soluções baseadas na natureza (SbN) são cruciais para o avanço da adaptação climática. Essas são abordagens que trabalham com a natureza, não contra ela – desde a restauração de zonas úmidas, que podem ser uma proteção contra tempestades, até a conservação de florestas que estabilizam o solo e o escoamento superficial durante as enchentes. As florestas de mangue, por exemplo, economizam globalmente US$ 80 bilhões por ano em prejuízos evitados durante inundações costeiras e protegem até 18 milhões de pessoas. Além disso, soluções baseadas na natureza podem oferecer diversos cobenefícios – para a natureza, economias, comunidades, para a cultura e para a saúde.

No entanto, apesar dos amplos benefícios, uma nova pesquisa mostra que apenas 1,5% de todo o financiamento climático público internacional foi destinado a apoiar soluções baseadas na natureza (SbN) para adaptação nos países em desenvolvimento. Apenas alguns dos grandes doadores bilaterais e instituições multilaterais destinaram financiamento público para essas abordagens.

A primeira análise de financiamento global para soluções baseadas na natureza para adaptação, produzida pelo WRI e pela Climate Finance Advisors – em apoio ao Nature-based Solutions Action Track, da Comissão Global de Adaptação – conclui que, embora a conscientização e o interesse nas soluções naturais para adaptação sejam crescentes, essa tendência ainda não se traduziu em apoio financeiro adequado para os países em desenvolvimento.

O financiamento bi e multilateral para essas abordagens começa a crescer, mas ainda não é o suficiente para atender a demanda crescente por SbN para adaptação. Recursos públicos também são cruciais para mobilizar o tão necessário financiamento privado.

<p>gráfico mostrando divisão de recursos públicos e privados destinados a soluções baseadas na natureza para adaptação</p>

Em 2018, o financiamento público de doadores destinado a soluções baseadas na natureza para adaptação representou aproximadamente 0,6% do total dos fluxos do financiamento climático e 1,5% do total dos fluxos de financiamento climático público.

A urgência de financiar SbN para adaptação

Como ressaltado pela Comissão no relatório Adaptation Now, as soluções baseadas na natureza oferecem um triplo dividendo de benefícios. Esses benefícios incluem ajudar as comunidades a evitar prejuízos com os impactos climáticos ao proteger contra eventos climáticos extremos e, assim, representam uma economia de bilhões de dólares todos os anos para os países. A restauração de zonas úmidas, por exemplo, pode absorver e filtrar a água de inundações e do excesso de chuvas, ajudando as comunidades a evitar a perda e a contaminação da água.

As soluções baseadas na natureza também podem gerar ganhos econômicos por meio da criação imediata de empregos, do aumento da produtividade dos negócios e do turismo. Em comparação à infraestrutura tradicional, essas soluções com frequência geram retornos econômicos mais altos, são mais rápidas de implementar e mais sustentáveis a longo prazo.

Além disso, podem trazer outros benefícios sociais e ambientais, desde um ar mais limpo, o que melhora a saúde das pessoas, até o sequestro de carbono e preservação do habitat para espécies ameaçadas. A maioria das intervenções que reduzem os impactos climáticos também aumentam a absorção e o armazenamento de carbono. Soluções climáticas naturais podem ser responsáveis, por exemplo, por um terço da mitigação climática necessária entre hoje e 2030 para manter o aquecimento global abaixo de 2°C.

Superando as barreiras financeiras para aumentar a escala

Apesar dos significativos benefícios dessas abordagens, de acordo com a Comissão elas não têm sido utilizadas em escala devido a uma série de barreiras, incluindo o acesso a financiamento. Diversas questões relacionadas impedem os países de financiar e implementar soluções baseadas na natureza para adaptação de forma mais ampla.

Primeiro, não há recursos suficientes disponíveis para responder ao interesse crescente nessas abordagens. Até hoje, repetidas chamadas convocaram doadores e bancos de desenvolvimento a aumentar a parcela de financiamento para adaptação e resiliência para pelo menos 50% do financiamento climático. O último relatório da OCDE sobre Financiamento Climático Fornecido e Mobilizado por Países Desenvolvidos mostra que o financiamento público para adaptação aumentou 85% em cinco anos – de US$ 9,1 bilhões em 2013 para US$ 16 bilhões em 2018. Mesmo assim, o financiamento para adaptação ainda gira em torno de 20% do financiamento climático global – e a parcela destinada a soluções baseadas na natureza para adaptação é consideravelmente menor.

Em segundo lugar, faltam definições e orientações universais e claras para rastrear de forma consistente o financiamento para soluções baseadas na natureza, dificultando o processo de quantificar e monitorar esses investimentos.

Em terceiro, a falta de métricas e metodologias padronizadas para medir os benefícios das soluções baseadas na natureza é uma barreira para que países e instituições financeiras comparem essas soluções com outras potenciais opções de investimento.

Quarto ponto: muitos países em desenvolvimento carecem de expertise técnica para integrar abordagens baseadas na natureza em seus planos e estratégias de investimento e, com isso, desenvolver um bom pipeline de projetos. Somado a uma falta de orientação clara por parte dos canais de financiamento sobre como o financiamento climático pode apoiar essas abordagens, isso dificulta o acesso aos recursos para muitos países.

Para superar cada uma dessas barreiras, doadores bilaterais e bancos de desenvolvimento multilaterais podem considerar as seguintes ações:

  • Aumentar a mobilização de financiamento público. Antes da COP 26 em novembro deste ano, parceiros de desenvolvimento poderiam identificar oportunidades estratégicas para considerar abordagens baseadas na natureza à medida que formulam novos compromissos de financiamento para adaptação. Mais financiamento público também pode ajudar a catalisar o investimento necessário por parte do setor privado. Os governos dos Estados Unidos e do Canadá, por exemplo, apoiaram o projeto Infraestrutura Natural para Segurança Hídrica no Peru para aumentar os investimentos na gestão e restauração de bacias hidrográficas com o objetivo de garantir o abastecimento de água e aumentar a resiliência climática. Esse trabalho levantou mais de US$ 30 milhões, arrecadados pelo governo peruano de concessionárias de serviços públicos e outros usuários como parte de um programa governamental para fortalecer a segurança hídrica.

  • Melhorar o rastreamento e os relatórios de financiamento. Uma mudança nesse sentido permitiria avaliar de forma mais precisa e consistente quanto do financiamento vai apoiar soluções baseadas na natureza para adaptação. Países doadores e instituições multilaterais já relatam suas contribuições ao Comitê de Assistência ao Desenvolvimento da OCDE e poderiam trabalhar em conjunto com o Comitê para elaborar orientações comuns sobre como marcar o financiamento relacionado a soluções baseadas na natureza.

  • Identificar formas melhores de medir os benefícios de soluções baseadas na natureza para adaptação. Apoio à capacitação poderia ajudar os países a desenvolver, adotar e acelerar o uso de abordagens comuns para quantificar e avaliar esses benefícios e, com isso, embasar políticas e decisões de investimento. Caso contrário, permanecerá difícil para investidores e outros tomadores de decisão fazerem a comparação entre soluções baseadas na natureza e abordagens convencionais – por exemplo, para o desenvolvimento de infraestruturas.

  • Apoiar a integração de soluções baseadas na natureza em esforços de adaptação mais amplos. Oferecer assistência técnica e apoio à capacitação poderia ajudar os países em desenvolvimento a avaliar os custos e benefícios dessas soluções e a incorporar essas abordagens em seus planos nacionais de adaptação e desenvolvimento de longo prazo. Além disso, poderia ser fornecido apoio para o desenvolvimento de projetos liderados localmente que ofereçam esses benefícios diretamente às comunidades.

Com desafios globais crescentes como as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade, bem como as atuais crises econômica e de saúde, o interesse e a consciência a respeito de soluções baseadas na natureza aumentaram muito nos últimos anos. No entanto, ainda é necessário muito trabalho para que essas abordagens sejam adotadas de forma mais ampla e em escala. À medida que preparam seus compromissos para a COP 26, países doadores e instituições financeiras não devem esquecer o potencial das soluções baseadas na natureza e a ampla gama de benefícios que elas podem oferecer em termos de adaptação.

Nota: Patricia Fuller é a Embaixadora do Canadá para Mudanças Climáticas


*Este artigo foi publicado originalmente no WRI Insights.”

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