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Por que a preparação para desastres não pode esperar

Uma versão deste artigo foi publicada originalmente no site Project Syndicate.


O mundo tem se preparado para o futuro a partir da crença, equivocada, de que se parecerá com o passado. No entanto, à medida que observamos a crise de Covid-19 coincidir com a época de monções no sul da Ásia, ciclones no Pacífico e enxames de gafanhotos no leste da África e outras partes do planeta, a necessidade de nos prepararmos para um mundo de abalos inesperados ficou mais clara do que nunca. Epidemias, inundações, tempestades, secas e incêndios – todos devem se tornar ainda mais frequentes e severos, afetando centenas de milhões de pessoas todos os anos.

A pandemia de Covid-19 é um sinal de alerta global. Como líderes de organizações internacionais, entendemos ao mesmo tempo a gravidade da ameaça e a potencial oportunidade de mudança que essa crise representa.

Em particular, a Covid-19 e outros desastres climáticos mostram que precisamos aumentar o investimento necessário para nos prepararmos agora em vez de esperar que a próxima crise nos atinja. A escolha é clara: esperar e pagar ou planejar e prosperar.

Sabemos que investir na preparação para desastres vale a pena – tanto em termos de vidas humanas salvas quanto de retornos econômicos. Uma pesquisa da Comissão Global de Adaptação, por exemplo, mostra que a relação custo-benefício dos investimentos em adaptação climática varia de 2:1 para 10:1.

Certamente, a preparação para grandes abalos envolve gastos substanciais. Construir resiliência a impactos climáticos pode ter um custo anual de US$ 140 a 300 bilhões até 2030, e o cumprimento dos padrões mínimos da Organização Mundial da Saúde de preparação para pandemias exigirá outrosUS$ 3 a 4 bilhões por ano.

Mas essas somas são pequenas se comparadas ao custo de não estar preparado. Desastres naturais já custam centenas de bilhões de dólares todos os anos; com um aumento de 2°C na temperatura, de acordo com uma estimativa, os danos causados pelas mudanças climáticas podem chegar a US$ 69 trilhões até 2100.

O custo humano é alto também. Uma análise do ano passado da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC, na sigla em inglês) descobriu que não fazer nada pode aumentar o número de pessoas que precisam de ajuda humanitária internacional durante inundações, tempestades, secas e incêndios – atualmente 108 milhões – em 50% até 2030. E esse total pode quase dobrar até 2050, chegando a 200 milhões de pessoas.

O próximo ano representa uma janela decisiva para o investimento em resiliência, uma vez que os governos terão de gastar trilhões de dólares para retomar suas economias depois da pandemia. O perigo é que os recursos financeiros – e com eles a vontade política pela mudança – encolham. Por isso que agora é o momento de os países ricos ajudarem os mais pobres a reiniciar suas economias e reforçar a resiliência para ameaças futuras, incluindo as mudanças climáticas.

Uma das coisas mais importantes que os governos podem fazer hoje é investir em melhores processos de coleta e análise de dados referentes aos riscos de desastres em seus países. O simples fato de contar com um alerta de 24 horas de antecedência para a chegada de uma tempestade ou ter conhecimento prévio de uma onda de calor iminente pode reduzir as perdas em 30%. Investir US$ 800 milhões em sistemas de alerta em países em desenvolvimento representaria uma economia de US$ 3 a 16 bilhões por ano.

Um exemplo: embora o ciclone Amphan recentemente tenha causado estragos na Índia e em Bangladesh, matando dezenas de pessoas, os sistemas de alerta ajudaram a salvar muito mais vidas. Previsões precisas, aliadas a décadas de planejamento e preparação, permitiram aos dois países evacuar mais de três milhões de pessoas e manter o número de mortos muito menor do que teria sido no passado.

Governos e organizações internacionais estão trabalhando agora para tornar a tecnologia dos sistemas de alerta mais acessível e eficaz por meio de uma nova parceria de ação antecipada. A iniciativa tem o objetivo de tornar um bilhão de pessoas mais seguras contra desastres até 2025, em parte aumentando o chamado financiamento baseado em previsões, que usa projeções meteorológicas para fornecer às comunidades vulneráveis os recursos necessários para a preparação. Esquemas de financiamento inovadores como esses, que contam com o apoio dos governos alemão e britânico, entre outros, podem salvar vidas e reduzir os danos diante de tempestades e ondas de calor.

Mas nenhuma dessas soluções será efetiva se o financiamento e as informações a respeito das ameaças não chegarem à escala local. Comunidades e organizações locais em geral são as primeiras a responder em qualquer tipo de crise, e é crucial que estejam empoderadas para agir.

Antes de o ciclone Amphan chegar à terra firme, por exemplo, a IFRC enviou fundos para a sede do Crescente Vermelho de Bangladesh, que ajudou 20 mil pessoas vulneráveis com alimentos e água potável, primeiros socorros, equipamentos de segurança e transporte para abrigos de ciclones. Ao mesmo tempo, a entidade também ajudou a implementar as medidas de segurança exigidas pela Covid-19, como desinfetar os abrigos, disponibilizar espaço adicional para permitir o distanciamento social e fornecer equipamentos de proteção individual.

As comunidades locais também estão em melhor posição para identificar soluções efetivas. Depois que o tufão Ondoy atingiu as Filipinas em 2009, por exemplo, pessoas que moravam em assentamentos informais trabalharam com as autoridades municipais para projetar moradias resilientes que pudessem aguentar futuras inundações.

À medida que os países emergirem da pandemia de Covid-19 no próximo ano, os líderes mundiais enfrentarão um momento decisivo. Aumentando os investimentos em preparação para desastres, podem moldar seu legado e colocar a humanidade em um caminho mais seguro para a próxima década e além.

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