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Conhecimento agroecológico local: caminhos para a adaptação às mudanças climáticas e restauração da Caatinga

As 20 milhões de pessoas que vivem no sertão nordestino deverão enfrentar as transformações mais drásticas causadas pelas mudanças climáticas no Brasil. Projeções regionais de mudanças climáticas indicam que o semiárido brasileiro se tornará ainda mais seco.

Na experiência de vida dos milhões de agricultores familiares reside uma fonte valiosa de saberes e práticas de convivência com o semiárido, desenvolvidas através de gerações que, periodicamente, enfrentam eventos climáticos extremos. Esse conhecimento tem o potencial de embasar o atendimento das necessidades da população local em produção de alimentos, matérias-primas para vestuário, produtos medicinais e construção.

Este trabalho contribui para a sistematização desse conhecimento sobre as práticas e saberes locais na adaptação às mudanças climáticas e na conservação e restauração da Caatinga.

Key Findings

Executive Summary

As 20 milhões de pessoas que vivem no sertão nordestino deverão enfrentar as transformações mais drásticas causadas pelas mudanças climáticas no Brasil. Projeções regionais de mudanças climáticas indicam que o semiárido brasileiro se tornará ainda mais seco. Com um aumento regional de pelo menos 2 graus na temperatura, prevê-se um aumento na probabilidade de enfermidades e na perda de produção agrícola, podendo desencadear novas ondas migratórias.

Na experiência de vida dos milhões de agricultores familiares reside uma fonte valiosa de saberes e práticas de convivência com o semiárido, desenvolvidas através de gerações que, periodicamente, enfrentam eventos climáticos extremos. Esse conhecimento tem o potencial de embasar o atendimento das necessidades da população local em produção de alimentos, matérias-primas para vestuário, produtos medicinais e construção.

É fundamental identificar, compreender e registrar esses conhecimentos. Eles podem configurar fonte de aprendizagem e inspiração para a elaboração de estratégias de adaptação que embasem políticas públicas para o enfrentamento das consequências negativas das alterações nos padrões do clima.

Sobre o manuscrito

O contexto dessa pesquisa são as atividades do projeto Adapta Sertão e da fábrica de polpas de fruta “Delícias do Jacuípe”, gerenciada pela Cooperativa Ser do Sertão e localizada no município de Pintadas, Bahia. Esse manuscrito é um dos resultados no âmbito do projeto “Green Business Through Restoration in Drylands of Brazil”, apoiado pela Good Energies Foundation.

Este estudo também se insere no contexto de um esforço global para identificar oportunidades de restauração de paisagens florestais. A região de Pintadas foi considerada relevante para esse fim, por apresentar registros de soluções inovadoras que conciliam a geração de renda e a inclusão social com ações de combate e adaptação às mudanças climáticas por meio da restauração.

Nas propriedades analisadas, foi observada a opção prevalente por sistemas produtivos com base agroecológica em consórcio ou na forma de quintais agroflorestais. Essa característica configura uma estratégia de convivência e adaptação à grande variabilidade e imprevisibilidade das chuvas do semiárido. A pluralidade de cultivos garante segurança alimentar às famílias agricultoras, bem como diversificação de renda – aspectos especialmente relevantes no contexto socioeconômico vulnerável da população do sertão nordestino.

Esta publicação tem como audiência-foco a comunidade de agricultores da Caatinga, técnicos de assistência técnica e extensão rural, agências governamentais de meio ambiente, agricultura e de desenvolvimento, organizações da sociedade civil e setor privado que trabalham em regiões semiáridas ao redor do mundo. Além da rede Adapta Sertão e da cooperativa Ser do Sertão, a pesquisa contou com o apoio da Rede de Desenvolvimento Humano (REDEH) da empresa C3 – Floresta, Meio Ambiente e Energia.

O problema específico de pesquisa

Historicamente as frutas nativas da Caatinga têm sido colhidas de forma extrativista, apenas para a subsistência das famílias. Hoje o abastecimento de frutas nativas da fábrica Delícias do Jacuípe é feito, predominantemente, de forma extrativista. A partir deste estudo, propõe-se que, além do extrativismo, também seja feita introdução da prática do plantio de espécies nativas regionais nos sistemas produtivos locais, de forma a contribuir com a conservação da biodiversidade da Caatinga e ampliar as fontes de renda para as populações locais.

Este trabalho contribui também para a sistematização do conhecimento sobre as práticas e saberes locais na adaptação às mudanças climáticas e na conservação e restauração da Caatinga. Mais especificamente, o foco deste estudo é o registro do conhecimento etnobotânico sobre o uso de espécies arbóreas nativas em processo simultâneo à análise do manejo agroecológico empregado como tecnologia de produção agrícola adaptada à baixa disponibilidade hídrica que garantam, em médio e longo prazos, o abastecimento sustentável de matéria-prima à fábrica de polpas de fruta Delícias do Jacuípe.

Conclusão e resultados

Na região estudada, existe uma prevalência de sistemas produtivos de base agroecológica em consórcios ou em quintais agroflorestais. Essa característica configura uma estratégia de adaptação às condições de clima do semiárido.

Nesse cenário, o múltiplo uso da propriedade rural confere maior garantia de adaptação que os sistemas monoculturais. A pluralidade de cultivos garante a segurança alimentar das famílias e comunidades rurais ao longo do ano, bem como a diversificação da renda.

Cerca de 30% das propriedades analisadas têm a sua produção voltada exclusivamente para a subsistência. Os produtos comercializados de forma mais expressiva são o leite e seus derivados, seguidos de frutas, mel e milho.

A produção de palma (Opuntia ficus-indica) está presente em todas as propriedades visitadas, predominantemente em consórcio com outras plantas ou disposta em sistemas agroflorestais, sendo usada principalmente para a alimentação de ovinos e bovinos. Sua relevância está diretamente associada à segurança alimentar dos animais nos períodos de estiagem, uma vez que a pecuária de corte e leite se configura a atividade econômica principal em boa parte das propriedades visitadas.

O uso da palma distribuída no solo como cobertura seca, cortada em pedaços, é uma prática agrícola de incorporação de matéria orgânica ao sistema produtivo, contribuindo para o armazenamento de carbono do solo. Essa prática melhora a capacidade de retenção hídrica e reduz a demanda por fertilizantes químicos. Notadamente, a adubação praticada na maior parte das propriedades analisadas é de origem orgânica, com destaque para o uso de esterco, biofertilizantes e adubação verde.

A fruticultura e o extrativismo de remanescentes, embora citados com frequência nas entrevistas, possuem pouca representatividade comercial para as propriedades analisadas. De acordo com as entrevistas, o baixo envolvimento com a fruticultura é justificado pela escassez de mão de obra e pela falta de um planejamento estratégico para o beneficiamento e a comercialização dos produtos. As espécies mais cultivadas são acerola (Malpighia glabra), goiaba (Psidium guajava), mamão (Carica papaya), pitanga (Eugenia uniflora), manga (Mangifera indica) e seriguela (Spondias purpurea), além de melancia (Citrullus lanatus) e pinha (Annona squamosa).

O conhecimento ecológico dos agricultores mostrou ser bastante vasto, provavelmente devido ao tempo que vivem em cotidiana interação com a Caatinga: todos os entrevistados moram há mais de 20 anos na região e encontram na agricultura sua principal ocupação. Além das plantas cultivadas, são conhecidas por eles 59 espécies da flora, das quais 47 são associadas a algum tipo de uso: 23 alimentícias (humano e/ou animal), 3 com efeito inseticida, 9 espécies de boa qualidade de madeira e 32 medicinais (humano e/ou animal). A lista de espécies da flora local com o respectivo registro etnobotânico e referências bibliográficas de uso é apresentada no Anexo II.

Recomendações

  • O conhecimento agroecológico local deve ser considerado na construção de soluções para a adaptação às mudanças climáticas. Na região estudada, o resultado da interação entre os saberes e as práticas agroecológicos com o conhecimento das universidades, instituições governamentais de pesquisa e extensão e organizações não governamentais tem se mostrado bastante favorável para a construção de estratégias de adaptação e enfrentamento das mudanças climáticas;
  • A inserção de espécies nativas regionais nos sistemas produtivos de base agroecológica pode vir a ser uma boa estratégia para a restauração da paisagem da Caatinga. O valor econômico das espécies nativas regionais, aliado ao conhecimento local sobre o uso, e a importância funcional dessas nos sistemas produtivos devem ser potencializados por políticas públicas, pela assistência técnica e pela extensão rural. Dessa forma, essas espécies poderão ser incorporadas aos sistemas produtivos, estabelecendo sistemas agroflorestais biodiversos e mais resilientes, com indivíduos representativos da flora da Caatinga;
  • O enfoque em gênero pode contribuir com o desenvolvimento de negócios de produtos agroecológicos. O protagonismo das mulheres no cooperativismo e na economia local, bem como sua inserção como lideranças nas organizações, permitiram a construção da fábrica de polpa de frutas Delícias do Jacuípe, a articulação com fornecedores, estratégias de comercialização, fatores que resultaram na venda de produtos;
  • Incentivar práticas agroecológicas com base no conhecimento local e melhorar o processamento e a comercialização de produtos da flora regional, considerando a abordagem de gênero, são ferramentas importantes para uma estratégia de restauração da Caatinga. Essa combinação tem o poder de transformar a ameaça climática em uma oportunidade de recuperar e conservar a Caatinga, preservando a cultura regional e melhorando a qualidade de vida local. Essa abordagem abre uma janela de oportunidades interessantes que contribuem para o cumprimento dos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil nas agendas de clima, biodiversidade e combate à desertificação.
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