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Conservação de florestas poderia reduzir as emissões de carbono tanto quanto eliminar todos os carros da Terra

Este artigo foi escrito por Susan Minnemeyer, Nancy Harris e Octavia Payne e publicado originalmente no WRI Insights.


Uma nova análise da The Nature Conservancy, do WRI e de outras organizações estima que o fim dos desmatamentos, o restabelecimento das florestas e a melhoria das práticas florestais poderia eliminar de forma eficaz 7 bilhões de toneladas métricas de dióxido de carbono anualmente, o que resultaria no mesmo que eliminar 1,5 bilhões de carros – mais do que todos os carros no mundo de hoje!

Na verdade, as florestas são fundamentais para pelo menos seis das 20 "soluções climáticas naturais", indicadas pelo estudo, que poderiam reduzir coletivamente 11,3 bilhões de toneladas métricas de emissões de gases de efeito estufa por ano. Isso equivale a deter o consumo global de petróleo, e nos colocaria em um terço do caminho necessário para limitar o aquecimento global a 2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais – o limiar para evitar efeitos catastróficos das mudanças climáticas – até 2030.

Acabar com o desmatamento oferece o maior benefício

Evitar o desmatamento poderia gerar mais de 40% das reduções totais de emissões oferecidas por soluções de baixo custo. (O baixo custo, conforme definido no estudo, significa que seria necessário menos de 100 dólares por ano para reduzir uma tonelada de emissões de dióxido de carbono.) Proteger as florestas também oferece o maior potencial para mitigar as mudanças climáticas dependendo do território. O Brasil e a Indonésia contribuem com mais de 50% das emissões de carbono decorrentes da perda de cobertura das árvores nos trópicos e, portanto, oferecem a maior oportunidade de mitigação com o combate ao desmatamento.

A perda global da cobertura verde atingiu um recorde em 2016, com países tropicais especialmente lutando para reduzir as emissões do desmatamento. Nos países tropicais de alta emissão, a produção de carne bovina, as culturas agrícolas, como a soja, e as grandes plantações industriais de óleo de palma são os principais fatores de perda de cobertura de árvores.

Apesar desses obstáculos, a política REDD+ (Reduzir Emissões do Desmatamento e da Degradação Florestal), desenvolvida no âmbito do Acordo de Paris, e a inclusão do setor de terras em 83% dos planos de redução de emissões de países tropicais (conhecidas como Contribuições Nacionalmente Determinadas ou NDCs) significam que essas tendências podem ser revertidas. Por exemplo, o fortalecimento e a expansão da Moratória Florestal da Indonésia poderiam ajudar o país a evitar 427 milhões de toneladas métricas de emissões relacionadas ao desmatamento até 2030. Se todos os países alcançarem suas NDCs para mudanças de uso do solo até 2030, as florestas do mundo juntas poderiam armazenar mais gases de efeito estufa do que a Rússia emite hoje.

Encontrando um meio-termo

Embora as soluções climáticas relacionadas às florestas sejam fundamentais, elas devem ser equilibradas com a necessidade de uma maior produção de alimentos à medida que as populações e as rendas aumentam. Assim como o desmatamento evitado, o reflorestamento também oferece um grande potencial de mitigação climática, particularmente a longo prazo.

De acordo com o estudo, 42% das reduções totais de emissões que poderiam ser obtidas a partir do reflorestamento dependem da redução de pastagens, inclusive ao reflorestar todas as pastagens em ecorregiões florestadas. Este cenário pode ser difícil de se concretizar, dada a crescente demanda por alimentos, incluindo um aumento projetado de 95% na demanda de carne entre 2006 e 2050. Em vez disso, precisaremos encontrar formas de aumentar a produtividade em pastagens para concentrar a produção de alimentos em uma menor área de terra e liberar solo para restauração. O Brasil, por exemplo, visa restaurar 22 milhões de hectares de terras até 2030, incluindo aumentar a produtividade em 5 milhões de hectares de pastagens degradadas até 2020. A restauração proporciona um bom meio-termo. Os produtos de base florestal produzidos em florestas restauradas – como nozes, frutas e caça selvagem – promovem a segurança alimentar, enquanto as árvores absorvem dióxido de carbono. A pesquisa apoia ainda os negócios para investir na restauração.

Também podemos reduzir a demanda por pastagens mudando nossas dietas e reduzindo a perda e o desperdício de alimentos. Cortar nosso consumo de carne e produtos lácteos pela metade poderia reduzir quase a metade da pegada de carbono resultante das nossas dietas, e se as populações inteiras tirassem a carne bovina de suas dietas, poderia liberar cerca de 300 milhões de hectares de pastagem – uma área quase do tamanho da Índia – e reduzir a pressão da agricultura sobre as florestas. Da mesma forma, reduzir a perda de alimentos e os resíduos poderia liberar centenas de milhões de hectares de pastagens.

A Costa Rica provou que esta abordagem funciona. Na década de 1980, o país retirou os subsídios para o setor pecuário, o que, além de baixar os preços internacionais da carne bovina, tornou-se menos lucrativo para as fazendas pequenas. O rebanho de gado da nação caiu em um terço e a pressão sobre as terras de pastagem diminuiu. Enquanto isso, a economia da Costa Rica começou a se concentrar mais nas áreas urbanas e no turismo. A cobertura florestal aumentou de 41% na década de 1980 para 48% em 2005.

Turfa e zonas húmidas são um bom ponto de partida

Uma das áreas mais eficazes para evitar emissões advindas da floresta e da conversão de terras é proteger e restaurar terras turfosas. Os terrenos úmidos são o tipo de terra mais rico em carbono e oferecem 14% das soluções de clima natural de baixo custo disponíveis – o maior benefício sobre a menor área de terra. O WRI estima que cada hectare de turfa tropical drenada para desenvolvimento de plantações emitem uma média de 55 toneladas métricas de dióxido de carbono a cada ano, aproximadamente o equivalente a queimar mais de 6 mil galões de gasolina. A Indonésia tem um dos maiores potenciais de benefícios de mitigação da restauração de turfas e zonas úmidas e de evitar a sua conversão. Proteger as zonas úmidas também aumenta a resiliência climática. Os manguezais protegem os litorais das ondas de tempestade e o aumento do nível do mar, e as zonas úmidas fornecem prevenção de inundações em meio à precipitação extrema que deverá aumentar com um aquecimento climático.

Adotando Soluções Climáticas Naturais

Mais organizações de pesquisa estão fazendo campanha para aumentar a conscientização e implementação de estratégias climáticas naturais. Um movimento mais amplo, incluindo governos, setor privado e partes interessadas da sociedade civil, poderia implementar soluções mais rapidamente e em grande escala.

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