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IPCC 1,5 °C: Precisamos construir e viver de maneira diferente nas cidades

Este post foi escrito por Aniruddha Dasgupta e publicado originalmente no WRI Insights.


Em meio a onda de notícias sobre desastres naturais relacionados ao clima e sobre conferências internacionais de mudanças climáticas, é importante reconhecer os verdadeiros pontos de virada - quando um acontecimento é realmente um caso de tomar nota. O relatório especial sobre aquecimento global de 1,5°C do IPCC, lançado no mês passado, é um desses casos.

Nós já estamos vivendo em um mundo que é 1°C mais quente do que as temperaturas pré-industriais. Limitar o aquecimento global a 1,5°C - sendo que cientistas esperam que um aquecimento além desse provoque dano significativamente maior aos ecossistemas globais - exige "transição rápida e de longo alcance" em sistemas de energia, uso da terra, indústria e infraestrutura urbana, conclui o relatório.

Em resumo, nós precisamos viver e construir de forma diferente.

Quem trabalha com foco nas cidades sabe que isso é verdadeiro. A trajetória das principais tendências em áreas urbanas precisa mudar significativamente para se atingir as metas adotadas pelos governos dos países do mundo no Acordo de Paris, nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e na Nova Agenda Urbana. Não estamos precisando de retoques e ajustes, mas de transformações em uma escala massiva, começando agora.

O relatório do IPCC, uma síntese das últimas pesquisas climáticas coletadas por 91 autores, reforça essa mensagem. Desde reduzir emissões até expandir oportunidades econômicas para todos, as cidades são a chave para um futuro sustentável.

Uma forma diferente de construir

Grandes mudanças no setor da construção são necessárias para limitar o aquecimento a 1,5°C. Nós precisamos construir de forma mais inteligente. As emissões de edifícios precisam cair em 80% a 90% até o meio do século, e toda nova construção precisa ser livre de combustíveis fósseis e com consumo quase zero de energia em apenas dois anos.

Essas mudanças precisam acontecer em todos os lugares. No mundo desenvolvido, nós precisamos ver a otimização e descarbonização dos serviços já existentes. Nos países em desenvolvimento, nós precisamos providenciar novos serviços - incluindo estradas, saneamento básico e eletricidade - para os que ainda não os têm, e as cidades precisam construir esses serviços de forma diferente do que era feito no passado. Novas soluções precisam ser adotadas rapidamente já que a infraestrutura construída hoje vai durar décadas. É um desafio, mas também uma significante oportunidade de remodelar as cidades - cerca de 75% da infraestrutura que estará em funcionamento em 2050 ainda não começou a ser construída.

Atingir a meta de 1,5°C vai exigir 40% da redução do uso final de energia no setor dos transportes até o meio do século, diz o relatório do IPCC. Escolhas individuais podem ajudar, mas um melhor planejamento urbano pode ir além. Os autores notam que "um planejamento urbano efetivo pode reduzir emissões de gases de efeito estufa no setor de transportes entre 20% e 50%".

Cidades sitiadas

Com um aquecimento de 2°C até 2040, mais de 70% das áreas costeiras enfrentarão um aumento do nível do mar de 0,2 metros. Entre os locais que serão mais atingidos estão as áreas urbanas mais densas, incluindo pelo menos 136 "megacidades" (definidas por "cidades portuárias com uma população maior do que um milhão em 2005"). Essa definição não inclui as cidades que entrarão nessa categoria nas próximas décadas por conta do aumento populacional.

Ondas de calor já são uma das principais preocupações para muitas cidades, e o relatório aponta que o desafio será muito maior se nada for feito. "Com 1,5°C, duas vezes mais megacidades (Como Lagos, na Nigéria, e Xangai, na China) poderiam sofrer com ondas de calor, expondo mais de 350 milhões de pessoas a mais a ondas de calor mortais até 2050".

Com 2°C, sem mudanças na construção, como telhados que resfriam ou desenho urbano verdade, cidades como Karachi, no Paquistão, e Kolkata, na Índia, podem esperar novas ondas de calor como a que matou milhares de pessoas em 2015.

(Foto:Flickr/Nicolas Mirguet)

Vivendo de forma diferente

Não são apenas as mudanças físicas de um mundo aquecido que são alarmantes; são as implicações sociais e econômicas. As mudanças climáticas "multiplicam a pobreza de forma a tornar os pobres ainda mais pobres", diz o relatório.

"Não mitigar o aquecimento poderia remodelar a economia global em meados do século a reduzir a riqueza média e ampliar a desigualdade de renda", diz. "Os impactos mais severos são projetados para áreas urbanas e algumas regiões rurais na África Subsaariana e no sudeste da Ásia".

As cidades são especialmente vulneráveis a essas tendências em parte por que o número de pessoas vivendo em assentamentos informais - áreas que não recebem os serviços básicos de assistência municipal - deve triplicar para 3 bilhões até 2050. O risco para cidades que já estão enfrentando os efeitos da desigualdade é que atender essas populações vai ficar ainda mais difícil, não apenas colocando milhões em risco literal como também arrastando economias urbanas e nacionais.

Será preciso considerar uma ênfase ainda maior em governança, equidade e participação para reduzir os riscos urbanos. Mesmo esforços de adaptação bem intencionados podem sair pela culatra se eles marginalizarem cidadãos pobres.

O relatório "Towards a More Equal City," do WRI, sugere formas de construir cidades para todos mostrando os desafios de equidade setor a setor, assim como explorando abordagens práticas que já funcionam em cidades ao redor do mundo.

Cidades para todos

O relatório do IPCC é um chamado à transformação em escala massiva - não apenas em política energética ou climática, mas em como nós vivemos e construímos em geral. Apesar de ser fácil focar no potencial de custos de uma mudança como essa, os benefícios podem ser significativos também.

Os autores notam que estão surgindo "economias verdes" urbanas do setor informal, ajudando a atender a demanda por água limpa, por exemplo, e melhorando a reciclagem. E cidades na África e Ásia têm o potencial de dar um salto na forma tradicional de gerar eletricidade, trazendo energia limpa para mais cidadãos e melhorando a capacidade adaptativa ao mesmo tempo (aqui, o relatório cita o trabalho do WRI em gerar energia no Hemisfério Sul) .

Estimativas do valor líquido de investimentos de baixo carbono nas cidades chegam a US$ 16,6 trilhões até 2050, segundo a Coalition for Urban Transitions.

O ritmo furioso da urbanização nos traz a oportunidade de fazer rápidas mudanças. Uma janela para transformação está aberta, e depende de nós aproveitá-la. As cidades são nossa melhor chance de fazer dar certo.

Catlyne Haddaoui contribuiu com esse artigo.

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