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Mais forte que a tempestade: 3 lições para construir resiliência climática nas comunidades urbanas mais carentes

Este post foi escrito por Katerina Elias-Trostmann e Lauretta Burke e publicado originalmente no WRI Insights.


As mudanças climáticas afetam primeiro e de forma mais intensa os mais pobres e as comunidades marginalizadas. E não estamos falando de um futuro distante – esses efeitos já estão acontecendo agora.

Particularmente no caso das cidades, a falta de acesso a serviços básicos, um histórico de desenvolvimento urbano não sustentável e exclusão política juntos fazem com que a população de renda mais baixa seja um dos grupos mais vulneráveis a eventos climáticos extremos, como inundações, deslizamentos e secas. Ainda assim, estratégicas focadas em reduzir a vulnerabilidade desses grupos com frequência não consideram diferenças cruciais em suas necessidades e diferentes situações.

À medida que aumentam tanto o crescimento das populações urbanas quanto os efeitos das mudanças climáticas, as administrações municipais precisam tomar medidas para preparar suas cidades para impactos prejudiciais. Identificar as diferentes necessidades das comunidades, por meio de processos de participação social, pode ajudar os governos a direcionar recursos, mobilizar ações de forma mais rápida e efetiva e construir a resiliência climática necessária.

Medindo a resiliência das comunidades

Uma novo estudo do WRI, Stronger Than the Storm (em português, “Mais forte que a tempestade), apresenta a Avaliação da Resiliência em Comunidades Urbanas (UCRA, na sigla em inglês), uma ferramenta de planejamento criada para ajudar as cidades a mensurar as diferentes necessidades das comunidades em termos de resiliência climática. Trabalhando em parceria com governos municipais e parceiros locais, o WRI conduziu a aplicação da ferramenta no Brasil em sete comunidades: duas no Rio de Janeiro e cinco em Porto Alegre. As duas cidades enfrentam riscos climáticos como inundações severas e crescimento urbano desigual. Ambas fazem parte da rede 100 Cidades Resilientes, o que as auxiliou no desenvolvimento de suas estratégias de resiliência. No Rio de Janeiro, a UCRA foi aplicada no Morro da Formiga e no Morro dos Macacos; em Porto Alegre, nas comunidades Coronel Aparício Borges, Partenon, Santo Antônio, São José e Vila João Pessoa.

A UCRA mensurou a resiliência de cada comunidade utilizando um conjunto de indicadores identificados em workshops realizados nas duas cidades. Esses indicadores consideram a resiliência a partir de uma abordagem local: o ambiente no entorno de uma pessoa molda sua resiliência, assim como seus laços sociais nesse ambiente, fatores que são capturados pelos indicadores de Contexto de Vulnerabilidade e Resiliência Comunitária. As percepções, comportamentos e hábitos de determinado indivíduo também influenciam na resiliência, e esse fator aparece nos indicadores de Capacidade Individual.

A avaliação ajuda as cidades a calcularem como as comunidades mais pobres podem responder melhor a potenciais riscos climáticos. Também propõe métodos de participação que podem auxiliar na identificação de soluções baseadas no conhecimento e nas necessidades locais.

Depois de realizadas 400 pesquisas com moradores das comunidades de Rio e Porto Alegre, os resultados trouxeram conclusões e orientações úteis sobre como as cidades podem alocar melhor seus recursos a fim de fortalecer a resiliência dessas comunidades. Três conclusões-chave se destacam:

1. Foco em planejamento e serviços urbanos

A ferramenta UCRA considera o desenvolvimento sustentável e o acesso a serviços urbanos de qualidade como pilares para fortalecer a resiliência climática das comunidades mais pobres. Nossas pesquisas mostraram o efeito direto dessa abordagem.

No Morro dos Macacos, por exemplo, a avaliação revelou que o serviço ineficiente de coleta do lixo acaba fazendo com que os sacos de acumulassem, bloqueando os sistemas de drenagem e causando inundações mais frequentes durante as chuvas. Nos workshops, os moradores contaram que o serviço de coleta realizado anteriormente que empregava os próprios membros na comunidade foi suspenso, mesmo sendo eficiente e contribuindo para a gestão dos resíduos locais.

Nesse caso, a UCRA ajudou a identificar a necessidade de reativar o serviço, aumentando ainda mais a colaboração com a comunidade local. Esse é um exemplo de solução que valoriza o conhecimento e a experiência dos moradores locais e estimula a colaboração da comunidade para aumentar a resiliência.

2. Mensurar os laços sociais pela força, não pela quantidade

Estudos sugerem que a coesão social nas comunidades é uma força positiva que impulsiona a resiliência. Na pesquisa realizada pela UCRA, quase todas as comunidades mostraram forte apego ao bairro, com os moradores afirmando conhecer seus vizinhos pelo nome e possuir um forte senso de identificação com a comunidade. Esse laço, no entanto, não necessariamente se traduzia em relações entre vizinhos, já que muitos não costumavam se falar por telefone ou se encontrar regularmente.

Os moradores do Morro da Formiga também indicaram que a comunidade não costumava se envolver com a governança local ou associações de bairro – atividades úteis para organizar, fortalecer e manter a comunicação com o governo municipal e, consequentemente, ajudar a comunidade a se preparar para impactos climáticos. Como resultado dessa falta de comunicação, a coesão social não estava sendo alavancada o suficiente para ajudar a construir a resiliência necessária naquela comunidade.

3. Melhorar comunicação e capacitação

Nas comunidades urbanas mais pobres, a capacidade individual de lidar com as mudanças climáticas tende a ser mais baixa, mesmo considerando as comunidades nas quais a gestão municipal investiu em infraestrutura para melhorar a resiliência. No Morro dos Macacos, onde um sistema de alerta contra tempestades foi instalado em 2011, poucos moradores haviam se cadastrado para receber os avisos pelo celular ou participado dos treinamentos oferecidos pela Defesa Civil.

O caso mostra que a qualificação de serviços urbanos e infraestrutura precisa vir acompanhada de comunicação com a comunidade impactada. Isso estimulará os moradores a desenvolverem novos hábitos, que os ajudarão a se tornarem mais resilientes e preparados para enfrentar potenciais eventos climáticos extremos.


O desenvolvimento da UCRA é parte de um projeto mais amplo, apoiado pela Cities Alliance, que se propõe a apoiar planejadores urbanos e gestores públicos envolvidos em mudanças climáticas e planejamento urbano. Depois da aplicação inicial no Brasil, a UCRA já foi aplicada também em Surat, na Índia, e Semarang, na Indonésia. Os resultados das avaliações feitas nessas cidades serão publicados nos próximos meses.

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