Você está aqui

2018: um ano de extremos no clima

Este post foi escrito por Kelly Levin e Dennis Tirpak e publicado originalmente no WRI Insights.


Em 2018 nós aprendemos, mais uma vez, que as mudanças climáticas não são um fenômeno distante. Estão acontecendo agora. Comunidades em todo o mundo foram atingidas pelo clima extremo, geleiras e plataformas de gelo encolheram e as emissões globais de gases de efeito estufa aumentaram. Muitos desses eventos estão alinhados com as projeções de um mundo em aquecimento. Ao mesmo tempo, nossa compreensão da ciência climática melhorou, permitindo entender melhor os impactos passados e o que o futuro nos reserva.

Abaixo, confira alguns destaques de 2018.

Eventos climáticos extremos

Calor extremo

Em junho, a temperatura mínima mais alta em Omã foi de 42,6°C, um novo recorde asiático. Um novo recorde também foi estabelecido para a temperatura mais alta já registrada na África: 51°C em Uargla, na Argélia.

Enquanto isso, a onda de calor no verão do Japão resultou em 22 mil pessoas hospitalizadas com insolação. As temperaturas ficaram acima dos 43°C no sul da Califórnia no início de julho; a demanda de eletricidade devido ao uso do ar condicionado foi tão alta que dezenas de milhares ficaram sem luz.

Incêndios se espalham

A Califórnia viveu o mais fatal e destrutivo incêndio de sua história, que matou 85 pessoas. As chamas forçaram o Parque Nacional de Yosemite a fechar as portas no auge da temporada. A Grécia também viu os incêndios se alastrarem, matando 85 pessoas e deixando outras 180 feridas. E a Austrália recentemente sofreu com incêndios florestais devastadores, acompanhados por intensas ondas de calor.

De forma surpreendente, os incêndios também atingiram regiões tipicamente mais úmidas e frias, como as áreas de turfa na Inglaterra e na Irlanda. Os incêndios também chegaram acima do Círculo Ártico na Suécia, que enfrentou uma seca sem precedentes. Foram mais de 50 ocorrências, que levaram as autoridades a pedirem assistência internacional.

Mudanças nos padrões de chuvas

Em julho, o Japão registrou recorde de chuvas, além de intensas inundações e deslizamentos de terra, com milhares de casas danificadas e pelo menos 122 vidas perdidas; o governo instruiu 5 milhões de pessoas a deixarem suas casas. Na Índia, a seca e as consequentes falhas nas colheitas no estado de Madhya Pradesh levaram a uma migração significativa; a região registrou apenas cerca de metade das chuvas habituais nos últimos anos. E em agosto o estado de Querala, no mesmo país, passou por chuvas fortes e uma das piores inundações já registradas, causando centenas de mortes.

Tempestades intensas

Os furacões Florence e Michael, que passaram pelos estados da Carolina do Norte, Carolina do Sul e Florida, respectivamente, foram duas das tempestades mais destrutivas na história dos Estados Unidos. E o tufão Mangkhut devastou as Filipinas e Hong Kong.

Gelo derretendo

A extensão do gelo no Ártico em janeiro e fevereiro de 2018 foi a menor para esses meses desde que os registros começaram a ser feitos, em 1979. Um iceberg de 11 milhões de toneladas, originário de uma área glacial na parte oriental da Baía de Baffin, acabou alojado em uma pequena aldeia na Groenlândia, forçando uma evacuação diante do risco de que o bloco de gelo caísse.

Recorde nas emissões de CO2

O Global Carbon Project estima que as emissões de dióxido de carbono cheguem ao montante recorde de 37,1 gigatoneladas em 2018. As emissões de CO2 originadas pelo uso de combustíveis fósseis cresceram 2,7% ao longo de 2018, após um aumento de 1,6% em 2017. O crescimento das emissões em 2017 e 2018 seguiu um patamar de três anos.

O cenário para 2019 ainda é incerto, mas o Global Carbon Project estima um crescimento ainda maior nas emissões, dado o aumento persistente do consumo de petróleo e gás natural e o crescimento econômico projetado. É um horizonte preocupante, considerando que os últimos alertas científicos sugerem que as emissões globais precisam chegar ao ápice histórico em 2020 e então começar cair para termos chance de evitar alguns dos piores impactos climáticos.

Estudos climáticos em 2018

A ciência da atribuição, que tenta determinar se um dado evento climático extremo pode ser atribuído às mudanças climáticas ou está dentro dos limites considerados normais, está avançando. Os cientistas também são capazes de fornecer análises mais rápidas para ajudar a compreender as relações entre as mudanças no clima e eventos climáticos extremos. Sobre esse tema, 2018 foi o ano de lançamento de vários relatórios inovadores:

U.S. National Climate Assessment

(Avaliação Climática Nacional – Estados Unidos)

O quarto Relatório Nacional de Avaliação Climática dos Estados Unidos deixou a clara mensagem de que as mudanças climáticas já estão afetando todos os setores e regiões no país. Temperaturas mais elevadas causarão estragos na saúde, no solo e na economia. Os cientistas mostraram que o aquecimento acima de 2°C levaria à morte de dez mil pessoas por ano e causaria prejuízos econômicos de dezenas ou mesmo centenas de bilhões de dólares. O planeta já está 1°C mais quente.

UN Emissions Gap* Report

(Relatório sobre a Lacuna de Emissões da ONU)

O relatório anual da ONU revelou que há uma distância grande e crescente entre o patamar atual das emissões e o nível que deveríamos atingir para evitar os piores impactos das mudanças climáticas. O documento também mostrou que apenas sete membros do G20 estão atualmente no caminho certo para atingir suas metas de redução de emissões submetidas ao Acordo de Paris.

Relatório de mudanças climáticas do IPCC

Pode ser viável, em termos técnicos, evitar o aumento da temperatura média do planeta em mais de 1,5°C, mas o Relatório Especial do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) mostrou que nosso comportamento e tecnologias precisarão de mudanças drásticas para atingirmos o nível necessário de redução de emissões. Embora já tenhamos testemunhados mudanças rápidas em determinados setores e tecnologias no passado, não há precedentes na história (documentada) de uma mudança tão rápida quanto a que precisamos agora para evitar que a temperatura suba além de 1,5°C.

O relatório também descobriu que a diferença entre o aumento da temperatura em 1,5°C ou 2°C é enorme, considerando os riscos e impactos que as pessoas terão de enfrentar.

Aprendizados de 2018

Nós sabemos mais hoje sobre as mudanças climáticas do que jamais soubemos antes. Populações em todo o mundo já viveram em 2018 os efeitos de um planeta mais quente, e os pesquisadores nos mostraram uma imagem clara e alarmante de como as coisas vão piorar se não mudarmos de rumo.

Que 2019 seja o ano em que vamos colocar esses aprendizados em prática.


*A expressão “emissions gap”, em inglês, refere-se à lacuna de emissões, a diferença entre os níveis previstos em 2030 e os valores necessários para atingir as metas de 2 °C e 1,5 °C.

ShareThis Button: 

Share

Fique Conectado

Receba nossa newsletter

Receba os últimos comentários, eventos, publicações e recursos multimídia.