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A omissão não é um ato ético, diz Roberto Cláudio, prefeito de Fortaleza

O mundo precisa de lideranças para salvar vidas no trânsito. Assim entende a Organização das Nações Unidas (ONU), que dedicou a sua Semana de Segurança Viária para valorizar essa capacidade das pessoas de influenciar e inspirar as outras em torno de um objetivo comum. No caso da segurança no trânsito, é um papel que qualquer pessoa pode exercer, seja a partir de um comportamento capaz de fazer os outros pensarem ou ao exigir melhores leis e medidas para proteger a todos nas ruas, por exemplo.

Na página oficial da iniciativa, alguns líderes globais são listados e, entre eles, está Roberto Cláudio, prefeito de Fortaleza. Médico sanitarista com especialização em saúde pública, ele adotou a segurança viária como uma bandeira de governo, estabelecendo uma conexão direta entre as medidas de mobilidade relacionadas à segurança com a pauta de saúde.

Após conviver com médias próximas a 350 mortes no trânsito por ano, a capital do Ceará tomou diversas medidas para reverter esse cenário e hoje está entre as poucas do mundo próximas de cumprir um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), de reduzir as fatalidades de trânsito à metade até 2020.

Nesta entrevista concedida por telefone, Roberto Cláudio explica como o assunto se tornou prioridade da gestão em Fortaleza.


Bruno Felin (BF): Quando você percebeu que a segurança viária era um tema prioritário para Fortaleza?

Roberto Cláudio (RC): Nossos indicadores de saúde, a mortalidade de causas extremas, em especial causada pela violência no trânsito, tinham dados bastante expressivos e alarmantes. Eu acho que esse foi um fato que acabou sendo o grande gatilho para organizarmos esforços para prevenir essas mortes. Além disso, temos um grande centro hospitalar aqui chamado Instituto Doutor José Frota (IJF), que é a maior emergência do Ceará, um hospital municipal. Quando passamos pelos corredores e enfermarias e acompanhamos o funcionamento, enxergamos que grande parte dessa demanda é resultado de descuidos, erros e problemas no trânsito da cidade. Boa parte dos pacientes é vítima do trânsito. Mesmo aqueles que sobrevivem, boa parte fica com sequelas definitivas. O grande apelo foi a saúde pública mesmo.


BF: O fato do senhor ser médico ajuda um pouco?

RC: É, eu sou médico sanitarista, minha área é saúde pública. A gente acaba tendo uma sensibilidade maior para essa questão e para enxergar o trânsito não só como assunto de mobilidade urbana, mas como uma questão de saúde pública.


BF: Em alguns casos, para salvar vidas no trânsito é necessário adotar medidas por vezes impopulares, como reduções nos limites de velocidade ou no espaço destinado aos carros, por exemplo. Como foi a experiência de vocês nesse sentido e como trabalharam para mostrar os benefícios?

RC:Acho que a primeira ação foi tornar o problema público, com transparência, clareza, com dados. Essa primeira tarefa foi tratar de gerar dados precisos e confiáveis e colocar o assunto na pauta da cidade com bastante transparência, inclusive mostrando a gravidade do assunto, porque são mortes possíveis de se prevenir, que quando acontecem acabam trazendo abalos psicológicos graves às famílias. Isso acaba ajudando a população a ter mais compreensão ou menos incompreensão em relação a algumas medidas impopulares que precisam ser tomadas no sentido de promover menos violência no trânsito.

Outra questão importante foi uma parceria que fizemos com a imprensa local. Para toda ação convocávamos uma coletiva, apresentávamos os dados aos jornalistas, explicávamos a importância, enfim, buscamos um diálogo muito próximo com a imprensa. Preciso registrar que a imprensa cearense teve muita compreensão, interesse e até mesmo alguns órgãos deram apoio institucional para promover o assunto da segurança viária. Não que a gente não enfrente polêmicas, que não existam pessoas ainda criticando essas medidas ou eventualmente não compreendam o papel delas, mas eu diria que, por aqui, a gente conseguiu ter menos polêmica e menos oposição a essas medidas do que em outras cidades do Brasil.


<p>Roberto Cláudio em entrevista durante lançamento de intervenção na Cidade 2000</p>

Roberto Cláudio em entrevista durante lançamento de intervenção na Cidade 2000 foto: Rodrigo Capote/WRI Brasil)


BF: Imagino que nesse processo tenha sido preciso lidar com crises e nesses momentos é preciso ter convicção de que se está fazendo a coisa certa. Qual a mensagem que você passaria para outros prefeitos nessa situação?

RC:Muitas vezes, somente os resultados é que vão ser o argumento mais convincente para poder vencer as polêmicas. Se a gente tiver convicção de que essas medidas são fundamentais para proteger e salvar vidas, e hoje há bastante evidências científicas nesse sentido, se houver convicção e decisão política de fazer, após a implantação a população passará a reconhecer e se orgulhar dos indicadores de redução de acidentes. Hoje, a população já sabe que estamos indo para o quarto ano consecutivo de redução de acidentes de trânsito. Isso passou a ser um assunto que ganhou relevância na cidade, as instituições da cidade têm celebrado esses avanços. A melhor resposta para qualquer polêmica é o resultado.

Por outro lado, costumo dizer para a minha equipe que a omissão não é um ato ético. Se você tem certeza que a implantação daquela medida - e são várias que fizemos aqui - vai salvar vidas, e você pode enfrentar alguma polêmica para fazê-la, a omissão acaba sendo um ato que não é moralmente correto, não é uma ação justa do poder público. Você não pode guiar as decisões pela popularidade instantânea, tem que guiar suas decisões pelos resultados de médio e longo prazo que transformam para melhor a vida das pessoas da cidade.


BF: Fortaleza é uma das poucas cidades no mundo a caminho de alcançar a meta dos ODS de reduzir as mortes no trânsito pela metade até 2020. Qual a chave para estarem tão perto da meta? Você sente que está presente na população a vontade de atingi-la?

RC:Honestamente, não sei se isso chegou na ponta, no cotidiano das pessoas. Mas pouco ao pouco, progressivamente, temos visto maior respeito às regras de trânsito, a compreensão sobre a implantação dessas medidas e o entendimento de que muitas dessas medidas não têm um aspecto arrecadatório, mas sim de política pública de saúde, que precisa ser implantada para a gente respeitar o direito de ir e vir das pessoas em segurança.

Um aspecto importante é que temos uma equipe muito qualificada, com muita consistência técnica, que tem de fato elaborado soluções criativas e únicas. A gente sabe que os conceitos são os mesmos pelo mundo, mas a sua implantação na ponta exige adaptar os conceitos à realidade e às características da cidade. Nossa equipe tem conseguido fazer isso com muita competência.

Outro fator é a gente ter escolhido isso como prioridade administrativa da gestão. Dentro das politicas de mobilidade urbana, em tudo que fazemos esse é um elemento presente. Se vamos fazer um BRT, um binário, uma ciclovia, uma nova rodovia ou mudar o pavimento de uma via, em tudo o olhar para a segurança viária está presente.

Também é importante criar políticas públicas e decisões políticas com base em dados. Analisamos onde, com quem e a que horas há mais acidentes, então pensamos algo para esse lugar.


BF: O senhor já é prefeito de Fortaleza há mais de seis anos agora. O que ainda gostaria de fazer pela cidade antes de encerrar esse ciclo como prefeito?

RC:Eu acho que a gente só torna uma política pública irreversível se a gente dá a ela continuidade. Todo ano temos apresentado os dados não só do número de mortes no trânsito, mas qualificamos, para dizer se são motoristas, motociclistas, pedestres etc. A gente não quer reinventar a roda, só queremos manter a consistência dessas políticas e ampliá-las, para que nos meus últimos anos como prefeito a gente possa consolidar essa tendência de queda. Com isso, acho que conseguiremos institucionalizar essa política pública e garantir ao longo desses dois anos uma mudança de consciência e de atitude do cidadão. Porque o fundamental de tudo isso não é o papel do poder público. É a mudança de olhar do cidadão a respeito do seu papel enquanto condutor, ciclista ou pedestre.


BF: E quanto ao plano de segurança viária, que São Paulo lançou recentemente, vocês também pretendem fazer?

RC:A gente já está trabalhando nele, vamos ter o plano apresentado e sancionado até o final do ano.

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