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Financiamento para a conservação decola com um dos maiores títulos verdes da história

Este artigo foi escrito por James Anderson, Todd Gartner, Alex Mauroner and John Matthews e publicado originalmente no WRI Insights.


O mercado de financiamento para conservação atingiu um novo patamar nas últimas semanas quando o governo holandês emitiu um dos maiores títulos verdes (green bonds) da história: 5,98 bilhões de euros (cerca de US$ 6,8 bilhões). Esses títulos para o desenvolvimento de baixo carbono e gestão sustentável da água irão financiar, entre outras coisas, soluções de infraestrutura natural na Holanda que são cruciais para proteger o país – que é um dos mais "baixos" em relação ao nível da água – das enchentes e do aumento do nível do mar.

O entusiasmo pelos green bonds também sinaliza uma tendência maior: a mudança no financiamento para a conservação de um nicho de mercado para uma estratégia de investimento de grande escala.

O que é um green bond?

Um green bond permite que uma instituição (neste caso, o governo holandês) tome dinheiro emprestado de vários investidores e devolva ao longo do tempo. Por exemplo, o governo dos Estados Unidos emite títulos do Tesouro para angariar fundos dos cidadãos e financiar projetos do governo. Agora, a ideia está sendo aplicada aos desafios da mudança climática e do gerenciamento de riscos de desastres.

O título beneficia o governo holandês ao permitir que ele reúna capital para grandes projetos de infraestrutura, como instalações de energia renovável, sistemas de transporte de baixo carbono e infraestrutura para enchentes e de contenção do avanço da água. Os títulos beneficiam os investidores (que incluem fundos de pensão, bancos e seguradoras), oferecendo um investimento estável e previsível, com uma taxa de retorno regular. O governo holandês pode reembolsar os investidores com dinheiro arrecadado através de uma variedade de fontes de impostos e receitas.

Então, o que é qualificado como um "green bond"? Diversos esquemas de classificação e certificação foram desenvolvidos para determinar se os investimentos atendem a certos critérios de sustentabilidade. O título holandês foi certificado pela Climate Bonds Initiative (CBI), que usa um conjunto robusto de padrões que se tornou o principal guia para títulos verdes. A certificação seguiu os Critérios de Infraestrutura Hídrica da CBI, que foram elaborados com a ajuda de especialistas do WRI e da Alliance for Global Water Adaptation, juntamente com profissionais técnicos e do setor.

Combatendo a mudança climática com financiamento

A Holanda é naturalmente vulnerável às mudanças climáticas. Grande parte do país fica abaixo do nível do mar e é protegido por diques e muros de contenção do mar. Grandes enchentes inundam periodicamente partes do país, causando com frequência grandes danos e perda de vidas. Em resposta, os holandeses tornaram-se não só líderes mundiais em soluções de engenharia sobre o aumento do nível do mar, mas uma nação que investe fortemente no combate à mudança climática, enquanto também se adapta a ela.

O green bond financiará uma ampla gama de projetos de baixo carbono, incluindo energias renováveis (como energia solar em terra e energia eólica marítima), eficiência energética (atualizações de parões de eficiência energética em residências) e transporte limpo (como infraestrutura de transporte coletivo). O green bond também tem foco na gestão sustentável de recursos hídricos, especialmente o uso de soluções baseadas na natureza e abordagens de infraestrutura verde para reduzir os riscos de inundação em áreas costeiras e de baixa altitude.

A Holanda já adotou estratégias de infraestrutura natural por meio do programa Room for the River, um exemplo pioneiro de como conviver com o aumento do nível da água, em vez de combatê-lo. Em vez de construir diques cada vez mais altos para conter os rios em canais estreitos, o projeto restaurou parte da planície de inundação natural do rio empurrando para trás os diques e cavando novos canais. As áreas propensas a inundações são restauradas em zonas úmidas, reservatórios ou parques públicos que são projetados para armazenar temporariamente a água da enchente. O novo green bond poderia levar as lições aprendidas do Room for the River e escalá-las ainda mais amplamente em todo o país.

Os holandeses têm vários exemplos de projetos que aproveitam processos naturais para melhorar a construção de infraestrutura em grande escala. Na província da Holanda do Sul, a erosão de dunas e bancos de areia na costa de Delfland coloca as áreas do interior em risco de inundação. Os engenheiros criaram um sistema para tratar isso através de uma "alimentação artificial de sedimentos" regular – substituindo a areia perdida por material dragado em outro lugar. Em 2011, o Ministério Holandês de Infraestrutura e Gerenciamento de Água desenvolveu uma abordagem inovadora construindo um gigantesco “motor de areia” que imita a estrutura natural e o movimento das dunas – continuamente repondo a areia enquanto fornece defesa marítima primária.

<p>projeto que evita inundações na Holanda</p>

O “motor de areia” ajuda a evitar inundações causadas pela erosão costeira (Foto: JvL/WRI)

Tudo verde

Então, como os investidores reagiram quando o recente green bond holandês foi emitido? Em 90 minutos de emissão do título, o governo recebeu 21,2 bilhões de euros (US$ 23,8 bilhões) em pedidos por 5,98 bilhões (US$ 6,71 bilhões) de certificados, superando o valor do título original em 3,5 vezes. A perspectiva de um green bond classificado como AAA que atendesse com credibilidade às necessidades dos financiadores por investimentos verdes certificados e inovadores claramente atingiu o objetivo. A Holanda, por sua vez, deu preferência a investidores com credenciais registradas de sustentabilidade.

Esse green bond, embora excepcionalmente elevado, não foi uma anormalidade. China, França, Nigéria, Indonésia, Fiji e dezenas de outras nações também emitiram títulos verdes. Outros, como um grande green bond da Alemanha, são esperados para serem lançados em breve. Globalmente, o mercado de títulos verdes atingiu cerca de 168 bilhões de dólares em 2018, crescimento de mais de 80% em relação a 2016. E apesar de algumas desacelerações recentes, muitos estimam que o mercado de títulos verdes continuará a crescer à medida que mais economias emergentes começarem a emitir seus próprios títulos verdes. Também houve crescimento em ferramentas financeiras de conservação relacionadas, como "títulos de sustentabilidade", "títulos sociais" e investimentos focados em recursos hídricos.

Muitos historiadores creditam o nascimento do sistema bancário moderno à Holanda dos séculos 16 e 17, incluindo a emissão dos primeiros títulos públicos. Por que isso aconteceu na Holanda? A água provavelmente desempenhou um papel – o sistema financeiro holandês foi fomentado a partir de um elaborado sistema de comércio global possibilitado pelos canais da cidade e acesso ao mar. Agora, mais uma vez, a água e as finanças estão intrinsecamente ligadas na Holanda. Provavelmente não será a última vez.

Alex Mauroner e John Matthews são diretores da Alliance for Global Water Adaptation.

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