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As lições do eucalipto para a pesquisa e o desenvolvimento de árvores nativas

Nos quase 8 milhões de hectares de florestas plantadas no Brasil, o eucalipto impera. Mérito da árvore, exímia produtora de biomassa, mas também da atuação conjunta de universidades, governo e setor privado. A parceria mostra que o esforço coordenado em pesquisa e desenvolvimento (P&D) rende frutos – ou melhor, árvores. E tem muito a fazer, também, pela recuperação de florestas com espécies nativas.

Deve-se muito ao investimento no eucalipto a atual posição do Brasil entre os principais produtores de florestas econômicas do mundo. Nas últimas cinco décadas, projetos de melhoramento genético e aprimoramento de práticas de manejo triplicaram o ganho volumétrico da árvore, que gira em torno de 38 metros cúbicos por hectare por ano (m3/ha/ano), de acordo com levantamento de 2017 da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá). “Em algumas regiões de solos bons no estado de São Paulo, essa média atinge 60 m3/ha/ano. Em florestas no hemisfério norte, é de 12 a 20 m3/ha/ano”, compara Carlos Alberto Labate, professor titular do departamento de Genética da Escola Superior de Agricultura da USP (Esalq).

Como o eucalipto, diversas espécies nativas poderiam se beneficiar de incentivos em P&D para identificar qual a melhor forma de manejo e parâmetros ideais na adubação e na semeadura, além de investimentos em melhoramento genético para nativas. É o caso do paricá, espécie nativa da Amazônia que chega a atingir ganho volumétrico de 38 m3/ha/ano – e de boa madeira – em plantios no Pará. Mas há um abismo de pesquisa e desenvolvimento entre a espécie amazônica e as espécies comerciais exóticas.

A própria Esalq realizou estudos sobre nativas, embora o programa de cooperação que se dedicava ao tema tenha sido encerrado. A escola é berço do Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (Ipef), uma das principais instituições de pesquisa em ciência florestal do país, criada por acadêmicos e empresários do setor florestal e de celulose num ambiente de entusiasmo do governo federal com o reflorestamento. Desde os anos 1960, projetos de cooperação têm desenvolvido o potencial econômico de cultivos, destacando-se pinus e, principalmente, eucalipto. Mas a história da árvore australiana no país começa bem antes.

O fator celulose

O eucalipto tem uma trajetória secular de seleção e adaptação às condições climáticas e de solo brasileiras. As primeiras sementes chegaram no século 19, mas seu desenvolvimento se deu no século seguinte, em São Paulo. Espalhou-se com a força de uma locomotiva: para o escoamento da produção cafeeira, a economia pujante contou com a lenha de eucalipto para movimentar os trens e expandir trilhos. “Edmundo Navarro de Andrade, engenheiro agrônomo da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, realizou expedições à Austrália para coletar sementes de diferentes espécies", conta Labate. A iniciativa deu origem ao Horto Florestal Rio Claro (SP), que por décadas alimentou o desenvolvimento econômico de São Paulo.

Corta para os anos 1950. De um lado, a progressiva eletrificação das linhas férreas fazia sobrar madeira. De outro, a indústria brasileira de papel sentia o impacto da Segunda Guerra Mundial nas importações de celulose de pinus, sua principal matéria prima. Até então, tentativas de substituí-la pela celulose de eucalipto haviam falhado: a fibra curta da madeira resultava em papel frágil, fácil de rasgar. Mas Leon Feffer, empresário do ramo do papel, enxergou potencial de aperfeiçoamento no processo e mandou o filho Max e um grupo de engenheiros à Universidade de Gainesville, na Flórida. Em 1956 a Companhia Suzano de Papel e Celulose, da família Feffer, se tornou pioneira na fabricação de papel com 100% de celulose de eucalipto.

Esforços coordenados pela produtividade

“A partir desse momento começam os trabalhos para desenvolver um eucalipto com maior produção de biomassa e com rápido crescimento", conta Labate. Foi quando entraram em cena o governo federal e as universidades. Em 1966, a Lei de Incentivos Fiscais ao Reflorestamento turbinou o setor e motivou a criação do Ipef, mirando a “produção de madeira industrial de alta qualidade, em áreas florestais altamente produtivas”.

O Ipef se tornou ponto de encontro entre as demandas da indústria florestal e a expertise de pesquisadores em genética e silvicultura. Recebeu apoio dos principais órgãos governamentais de pesquisa e desenvolvimento (Finep, CNPq, Fapesp, Capes etc.). Além do instituto paulista, órgãos públicos e empresas em vários estados fizeram avançar programas de melhoramento de sementes e de práticas silviculturais.

Ao longo das décadas seguintes, a pesquisa fez com que as árvores ganhassem resistência a pragas, adaptação ao clima de diferentes regiões e ainda mais produtividade de biomassa em um ciclo curtíssimo: são 6 anos do plantio ao corte, a metade do ciclo da segunda principal cultura florestal, o pinus.

“O desenvolvimento da clonagem [extração de mudas com as mesmas características das matrizes] permitiu que plantas mais produtivas fossem multiplicadas em larga escala, avançando na produção. Além disso, também se obteve ganhos com a hibridação de clones altamente produtivos de espécies diferentes. Práticas silviculturais, controle da fertilidade dos solos, desenvolvimento de jardins clonais nos viveiros, contribuíram de forma significativa para o avanço na produtividade", explica Labate. Nos últimos anos, a edição gênica tem se revelado promissora para produzir sementes e árvores com as alterações precisas para as características que se deseja, e algumas empresas conduzem seus próprios projetos na área.

<p>Plantio de paricá na Amazônia: nativa tem boa produtividade e madeira sem nós</p>

Plantio de paricá na Amazônia: nativa tem boa produtividade e madeira sem nós (foto: Ronaldo Rosa/Embrapa)

Potencial a ser explorado para nativas

A combinação de desenvolvimento científico e interesse econômico que conduziu o aprimoramento do eucalipto é uma receita que pode ser aproveitada em outras culturas, incluindo árvores nativas para restauração florestal. Os cultivos de maior interesse econômico no país tiveram sua produtividade multiplicada ao longo de décadas de investimentos públicos e privados. Enquanto isso, a produtividade média das nativas se mantém estável – um campo que pode se beneficiar do ambiente de incentivo à recuperação da vegetação nativa, incluindo as florestas.

No WRI Brasil, o projeto VERENA (Valorização Econômica do Reflorestamento com Espécies Nativas) busca impulsionar a economia florestal de baixo carbono baseada no plantio de nativas, por meio de estudos de caso que revelem modelos de negócio robustos. Um dos gargalos identificados é justamente a escassez de iniciativas em P&D voltadas para nativas. O instituto também integra a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, que lidera um esforço para criar uma plataforma de P&D para silvicultura de espécies nativas. "Estamos trabalhando em parceria com a Coalizão em um estudo sobre como desenvolver a silvicultura de espécies nativas no Brasil para estimular a restauração florestal”, afirma Miguel Calmon, Diretor do Programa de Florestas do WRI Brasil.

Para Carlos Alberto Labate, a trajetória do eucalipto é um excelente exemplo de investimento em P&D com resultados financeiros e produtivos mais do que satisfatórios. “Essa diferença permite que o produto brasileiro chegue aos diferentes mercados com custos competitivos", pondera Labate. “Os governos devem investir recursos na formação de pessoal e em bons laboratórios, por meio dos seus institutos e universidades, para transferir o conhecimento ao setor privado. Para todas as condições é preciso ter pessoal com competência no assunto, recursos financeiros, objetivos bem definidos sobre o que se deseja como produto e o planejamento para se atingir tais objetivos.” Dessa forma, o pesquisador acredita que se pode repetir o sucesso do eucalipto em outras culturas.

O Brasil tem vocação florestal e abundância de terras degradadas e de baixa aptidão agrícola. Tem, também, diversidade de espécies nativas com potencial econômico, e condições tecnológicas para alavancar seu desenvolvimento. É hora de dar esse salto.

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