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4 cooperativas da Bahia geram renda para mulheres que conservam e restauram a Caatinga

Aliar a restauração de áreas degradadas com a diversificação da produção é um caminho efetivo para mitigar as mudanças climáticas e gerar resiliência. Se a afirmação é verdadeira para quem produz em biomas como a Mata Atlântica, também o é na Caatinga. É o que ficou evidente em um intercâmbio promovido pelo WRI Brasil entre quatro cooperativas que têm semeado um futuro mais próspero para a região de menor disponibilidade hídrica no país.

CooperSabor, Coopercuc, Coopes e CoopSertão têm muito em comum, a começar pela atividade principal: beneficiamento de frutas nativas e exóticas compradas de produtores locais e transformadas em sucos, doces, compotas, cosméticos e até cervejas. Aos poucos, as cooperativas acessam novos mercados, inclusive no Exterior, e produtoras e produtores rurais descobrem na conservação e restauração com espécies nativas um bom negócio.

As experiências promissoras contam com histórico de apoio de políticas públicas específicas e o suporte de organizações da sociedade civil. Mas são, sobretudo, resultado de conhecimento, organização e cooperação das comunidades. Foi para fortalecer esses vínculos e estimular a troca de conhecimento que o WRI Brasil reuniu as cooperativas e outros atores ligados à restauração para um intercâmbio em três cidades do semiárido baiano: Monte Santo, Uauá e Pintadas.

Ao longo de três dias, mais de 25 participantes entre cooperados, técnicos, representantes de organizações não governamentais e de órgãos de governo conheceram unidades processadoras e visitaram propriedades rurais. A seguir, contamos um resumo das trocas.

<p>Intercâmbio envolveu cooperados, técnicos, representantes de ONGs e do governo</p>

Intercâmbio envolveu cooperados, técnicos, representantes de ONGs e do governo (foto: Caroline Jacobi/WRI Brasil)

“É bonito ver agricultores deixarem de arrancar umbuzeiro”

Umbu, licuri e maracujá-do-mato são frutas típicas da Caatinga, mas não eram fontes de renda relevantes até o estabelecimento das cooperativas. A atuação da sociedade civil organizada e programas governamentais levaram informação sobre as possibilidades de beneficiamento das frutas como uma fonte de renda à população local – sobretudo às mulheres.

A produção de geleias, doces de corte e polpa de frutas nativas e exóticas começou em minifábricas a partir das quais as cooperativas passaram a fornecer alimentos para iniciativas governamentais como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que garantiam a compra de produtos da agricultura familiar para refeitórios públicos.

De um lado, as cooperativas acessaram o mercado institucional. De outro, viabilizaram renda e protagonismo às mulheres da comunidade – na Coopes, elas são 90% das cooperadas. O valor pago pelo quilo das frutas nativas hoje é cinco vezes maior do que o praticado pelos antigos atravessadores, e a economia local ajuda a manter a Caatinga de pé.

“O mais bonito é ver agricultores deixarem de arrancar umbuzeiro, maracujá. Estavam acabando os licurizeiros nesta região. Hoje, você dificilmente vê um produtor arrancar, porque pode ser uma renda”, ponderou Leôncio de Andrade, agricultor da comunidade de Salgado, em Monte Santo.

Para a economista Barbara Schmidt-Rahmer, da Fundação Esquel, a região “tem todas as condições para começar a inserir restauração nos projetos que já desenvolve”, conciliando o plantio de árvores nativas e a recuperação das pastagens.

Expansão dos rebanhos exige manejo sustentável

Distantes 75 quilômetros uma da outra, Monte Santo e Uauá formaram um só município durante boa parte do século passado. Palcos da Guerra de Canudos, as cidades também compartilham a veia comunitária que se expressa no arranjo produtivo típico da região: monte-santenses e uauaenses produzem em regime de fundo de pasto. As famílias têm seus roçados e compartilham com a vizinhança grandes áreas adjacentes. Na ampla pastagem coletiva, há mais alimento disponível para os rebanhos, que ruminam misturados.

Nos últimos vinte anos, energia elétrica e tecnologias associadas com infraestruturas de armazenamento de água foram disponibilizadas e se tornaram mais acessíveis para os moradores da Caatinga. Isso permitiu a melhor convivência com a seca e a resiliência dos sistemas de produção. “Antes o produtor tinha três cabrinhas, hoje tem cinquenta”, ponderou Denise Cardoso, presidenta da CooperCuc.

O produtor Antônio Gonçalves da Silva acredita que capital e amparo técnico serão cruciais para garantir o pastoreio sustentável nos fundos de pasto de Uauá. Atualizar o manejo secular para conciliar a pecuária, parte crucial da economia local, com a conservação e a restauração essenciais à sustentabilidade da vida na Caatinga, é um dos desafios cujas soluções a iniciativa do WRI Brasil busca estimular.

Recaatingamento com retorno econômico

Sediada em Uauá, capital do Bode, a Coopercuc já possui certificação orgânica, um mercado consolidado comercializando doces e geleias para países estrangeiros e agora tem planos imediatos para projetos robustos focados em restauração. A cooperativa está desenvolvendo um modelo de plantio de frutíferas em consórcio com espécies de ciclo curto, como a mandioca.

Para isso, selecionou cooperados interessados em conservação para implementar sistemas-piloto com espécies arbóreas como umbu, maracujá-da-caatinga, aroeira, goiaba, manga e acerola em consórcio com espécies como milho e melancia, que protegem o solo e garantem retorno econômico no curto prazo. “A primeira área foi implementada em abril. O produtor já colheu melancia e os maracujás estão começando a crescer”, contou Denise.

Uma floresta para chamar de Caatinga

Durante o intercâmbio, a diretora da unidade de processamento de polpas da CoopSertão, Girlene Almeida, quis saber: se o pasto é comunitário, quem é dono dos umbuzeiros? É que em Pintadas, distante 300 quilômetros de Uauá, não existe o arranjo de fundo de pasto. Os cooperados da CoopSertão colhem as frutas em suas propriedades.

Já escrevemos sobre a história de empoderamento feminino associado à restauração que a CoopSertão e a fábrica Delícias do Jacuípe vêm promovendo. Desta vez, conhecemos José Antônio Borges, que há um ano e meio iniciou a restauração de uma área de pasto degradado com o plantio de 20 espécies de árvores – incluindo nativas – e outras plantas, como moringa, leucena, cajá, umbu, ipê, palma e feno. Segundo o técnico Jocivaldo Ferreira Bastos, do Adapta Group (empresa que presta assistência técnica para tornar agricultores familiares mais resilientes), a ideia é que, no futuro, a pequena agrofloresta de Borges garanta solo fértil, alimento abundante e conforto térmico para as poucas dezenas de vacas da propriedade.

<p>Em Pintadas, agrofloresta em crescimento recupera solo e garante alimento para o gado</p>

Sistema agroflorestal em Pintadas recupera solo e garante alimento para gado (foto: Caroline Jacobi/WRI Brasil)

O sertão não vai virar deserto

No que depender da população local, a transformação que ocorre na Caatinga não irá retroceder. Os jovens que crescem ali hoje sabem a riqueza guardada pelas árvores da região. Em Monte Santo, filhos de produtores e futuros sucessores e sucessoras frequentam a Escola Família Agrícola do Sertão (Efase) e compõem a maior parte do corpo de técnicos que auxiliam as cooperativas da Caatinga, além de produzirem trabalhos de conclusão de curso que enriquecem o conhecimento sobre agricultura no semiárido. “Um menino da Efase desenvolveu uma variedade doce do maracujá-da-Caatinga”, contou Erica Amaral Oliveira, formada pela escola e atualmente técnica da CooperSabor. Renata Silva, técnica da Coopes, lembrou que outro aluno fez experimentos para acelerar a germinação das sementes do maracujá, um processo normalmente lento e difícil.

O emaranhado de galhos secos dos umbuzeiros e os espinhosos xique-xiques e mandacarus entregam que ali a chuva é uma infrequente visitante. Mas no tempo certo, a vegetação áspera frutifica. E se a chuva é um pouco mais generosa, os umbus dão às pencas por três meses, oferecendo muito mais do que as fábricas conseguem transformar em suco, doce e cerveja.

Em três dias, o intercâmbio promovido pelo WRI Brasil revelou que novas árvores, reais e metafóricas, têm crescido e frutificado na Caatinga. Estimular, dar escala e multiplicar esses projetos significa, também, proteger e recuperar o bioma semiárido e a riqueza que olhos desatentos podem não perceber, mas está sempre pronta para florescer sob o sol do sertão.

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