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4 modelos para agricultores se adaptarem às mudanças climáticas com geração de renda

Este post foi publicado originalmente no WRI Insights.


As mudanças climáticas são uma ameaça real a produtores rurais no mundo todo. A agricultura é altamente dependente da meteorologia, incluindo temperaturas máximas e mínimas, quantidade de chuva, intensidade dos ventos e muitas outras variáveis. A mudança no padrão do clima pode ser destrutiva para a produção agropecuária. Estima-se que as mudanças climáticas podem reduzir a produtividade global da agricultura em 17%.

Em um país altamente dependente das exportações agrícolas como o Brasil, isso pode ser um problema. Por exemplo, pesquisas mostram que mudanças no padrão de chuva causadas pelas mudanças climáticas podem reduzir drasticamente a produção de soja, uma das principais commodities de exportação do país. Outro exemplo é o café, também importante para as exportações. Estudos mostram que um aumento na temperatura pode reduzir em 95% a área de produção de café em três estados brasileiros.

A boa notícia é que os agricultores podem se adaptar. Um novo working paper publicado por WRI Brasil, GIZ e Coalizão Brasil Clima, Agricultura e Florestas, com a contribuição de renomados cientistas, propõe soluções para reduzir o dano das mudanças climáticas nas lavouras. Essas soluções incluem modelos previstos em políticas já em vigor no Brasil, como o Plano ABC e o Planaveg, e podem ser replicadas não só no país como em várias partes do mundo.

Abaixo, selecionamos quatro modelos para os agricultores produzirem alimentos ao mesmo tempo em que se adaptam às mudanças climáticas.

1. Integração Lavoura-Pecuária-Floresta

<p>Sistema integrado combina cultura do milho com paricá, árvore nativa da Amazônia (foto: Alan Batista/WRI Brasil)</p>

Sistema integrado combina cultura do milho com paricá, árvore nativa da Amazônia (foto: Alan Batista/WRI Brasil)


Quanto mais diverso é o sistema agrícola, maior a sua capacidade de se adaptar às mudanças climáticas.

Em vez de focar a produção apenas em um tipo – lavoura ou pecuária ou floresta –, os sistemas integrados combinam esses tipos em uma de quatro possibilidades: lavoura e pecuária (ILP), lavoura e floresta (ILF), pecuária e floresta (IPF) ou as três opções juntas (ILPF).

Como esses sistemas funcionam? Segundo a Embrapa, os sistemas integrados produzem alimentos, energia, fibras, madeira e produtos florestais não-madeireiros em uma mesma área, ao mesmo tempo ou em rotação.

Por exemplo, a empresa INOCAS está integrando pastagens com reflorestamento no Brasil. A INOCAS planta árvores de macaúba para melhorar a qualidade do solo e criar sombra para abrigar os animais. A macaúba permite produzir óleo vegetal. Dessa forma, o sistema integrado melhora o solo e se transforma em nova possibilidade de renda para o produtor.

Os sistemas integrados também fornecem benefícios de adaptação. O estudo mostra que eles tornam a propriedade mais resiliente em cada componente analisado: melhoram o microclima local, reduzem a temperatura local e aumentam a precipitação e a disponibilidade de água; reduzem a erosão do solo e os impactos de eventos extremos nas lavouras; e melhoram a produtividade, resultando em benefícios socioeconômicos.

2. Restauração de pastagem degradada

<p>Pastagem recuperada pelo trabalho da Fazenda Ecológica (foto: Daniel Hunter/WRI Brasil)</p>

Pastagem recuperada pelo trabalho da Fazenda Ecológica (foto: Daniel Hunter/WRI Brasil)


As pastagens degradadas são um dos maiores problemas nas propriedades brasileiras. Áreas degradadas retêm menos água, possuem pasto menos nutritivo para os animais e contribuem para uma pecuária de baixa produtividade.

Há várias formas diferentes de restaurar pastagens degradadas. A mais convencional envolve a aplicação de fertilizantes – mas não é a mais sustentável, já que geralmente é preciso repetir as aplicações a cada quatro ou cinco anos. As pastagens degradadas podem ser recuperadas também pelo plantio de forrageiras nativas ou pela introdução de árvores na pastagem, de forma a evitar a erosão (similar ao sistema de integração pecuária e floresta).

A restauração de pastagens deve ser feita aliada a uma criação de animais mais sustentável, como no trabalho da Fazenda Ecológica. Eles combinam o método Voisin de pastagem com árvores e cercamento para melhorar a qualidade do solo e o bem-estar dos animais, ao mesmo tempo em que mitigam emissões de gases de efeito estufa.

A restauração de pastagens degradadas produz os seguintes benefícios para a adaptação climática da agricultura: redução da temperatura máxima local, aumento da umidade do ar, melhor resistência contra secas e ondas de calor e maior resiliência contra desastres naturais. Também tem efeito positivo no combate à erosão do solo e na disponibilidade de água.

3. Sistemas Agroflorestais

<p>Sistema agroflorestal no Vale do Paraíba, em São Paulo (foto: Bruno Calixto/WRI Brasil)</p>

Sistema agroflorestal no Vale do Paraíba, em São Paulo (foto: Bruno Calixto/WRI Brasil)


Agroflorestas integram árvores e lavouras em um sistema desenhado intencionalmente. Nesse sistema, cada planta tem seu próprio propósito – espécies são selecionadas para não competir entre si, mas colaborar. A diversidade de plantas agrícolas e árvores permite que o sistema produza o ano todo, o que é muito importante para o agricultor familiar, já que ele terá renda independente da estação. Os sistemas agroflorestais são parecidos com a integração lavoura-floresta (ILF), mas costumam ser mais complexos e envolver uma quantidade mais numerosa e diversa de espécies.

O cacau é uma commodity que pode se beneficiar da agrofloresta. O pé de cacau cresce melhor na sombra de outras árvores. No Peru, uma parceria público-privada busca apoiar 20 mil produtores para produzir cacau orgânico de alta qualidade em mais de 58 mil hectares.

Sistemas agroflorestais são uma importante ferramenta para a adaptação da agricultura às mudanças climáticas. O working paper mostra que a agrofloresta produz benefícios de adaptação para o clima local, incluindo a redução de impacto de cinco tipos de eventos extremos (secas, ondas de calor, ondas de frio, chuva intensa e desastres naturais), a melhora da qualidade do solo e da disponibilidade de água, além de atrair polinizadores e melhorar a biodiversidade.

4. Florestas plantadas

<p>Mudas de espécies nativas para reflorestamento (foto: Rachel Biderman/WRI Brasil)</p>

Mudas de espécies nativas para reflorestamento (foto: Rachel Biderman/WRI Brasil)


Árvores plantadas de forma sustentável oferecem tanto benefícios ambientais – como a captura de gases de efeito estufa e a proteção dos solos – quanto a possibilidade de ganho econômico por meio da comercialização de madeira e produtos florestais não-madeireiros (como castanhas e frutas). Um relatório do WRI em 2018 destacou 14 empresas que estão investindo no plantio de florestas como uma proposta lucrativa de negócio.

Além de ser um bom investimento, o reflorestamento para fins econômicos, inclusive com espécies nativas, fornece efeitos positivos para a adaptação em todos os fatores, com uma exceção: o risco de incêndios florestais aumenta. Árvores plantadas em grande densidade podem fazer com que o fogo se alastre rapidamente.

A restauração e o reflorestamento podem ser uma importante ferramenta para os produtores rurais brasileiros. O Novo Código Florestal determina que uma porção de todas as propriedades rurais precisa ser coberta com vegetação natural. Estimativas mostram que 21 milhões de hectares estão degradados ou desmatados em áreas privadas e precisam ser restaurados. Uma parte importante desse passivo pode ser restaurado com espécies nativas para fins econômicos. Plantar espécies nativas para madeira ou produtos florestais não-madeireiros pode se tornar uma importante fonte de renda para o pequeno agricultor.

Lições para o Brasil e mundo

Esses exemplos de abordagens sustentáveis para o uso da terra já fazem parte de duas importantes políticas brasileiras: o Plano ABC e o Planaveg. Considerando os benefícios descritos acima, o financiamento para os modelos existentes nesses planos deveria ser expandido no Brasil.

Adaptar as propriedades rurais para enfrentar as mudanças climáticas é boa política não apenas para o meio ambiente, mas também por questões econômicas. Seguradoras e instituições financeiras podem diminuir riscos do crédito rural, reduzindo também perdas financeiras e aumentando as taxas de pagamento de financiamentos. Além disso, é uma maneira de manter o Brasil como uma potência agrícola no mundo.

Modelos como agrofloresta e reflorestamento com espécies nativas mostram um caminho para que produtores rurais em todo o mundo caminhem para uma agricultura de baixo carbono resiliente aos impactos climáticos, produzindo alimentos e restaurando a terra. Em um mundo em que os impactos das mudanças do clima já estão presentes, é crucial proteger agricultores encontrando modelos mais resilientes para o agronegócio.

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