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Mobilidade urbana em tempos de coronavírus: o impacto no transporte coletivo

As cidades estão na linha de frente da pandemia causada pela Covid-19 e devem sofrer transformações capazes de mudar nosso comportamento daqui por diante. Embora a aparição do novo coronavírus tenha ocorrido no final de 2019, na China, espalhando-se mundo afora nos últimos meses, e o distanciamento social no Brasil esteja em prática apenas há algumas semanas, já surgem reflexões sobre o impacto causado na mobilidade urbana.

É um momento de mais dúvidas do que respostas, no qual decisões por vezes debatidas durante anos precisam ser tomadas em questão de horas, como destacou o historiador israelense Yuval Harari. O transporte coletivo urbano desponta como tema crítico nesta crise. Se no Brasil a queda de passageiros já vinha se acentuando antes da pandemia, agora estamos diante de uma situação dramática frente à interrupção de muitas atividades.

O transporte é um direito social dos brasileiros previsto na constituição, portanto cabe aos governos, durante o isolamento social, garantir o seu funcionamento tanto para aqueles que atuam no combate à crise de saúde quanto os que trabalham nos serviços essenciais à população.

Mesmo que neste momento ainda não seja possível prever a exata dimensão do impacto da pandemia no Brasil, destacamos alguns aspectos relevantes no debate sobre mobilidade urbana.

O transporte coletivo precisa funcionar

Como direito social e serviço essencial, o transporte coletivo urbano precisa continuar operando. Para o país permanecer em atividade, para enfermeiros e médicos salvarem vidas, para profissionais dos serviços essenciais chegarem ao trabalho, para garantir o acesso democrático à cidade. Em uma situação atípica como essa, é preciso flexibilidade. As recomendações de infectologistas e especialistas para proteger a saúde de todos devem prevalecer e influenciar a adaptação do serviço ofertado, com ampla comunicação para quem utiliza.

Pode ser preciso criar linhas especiais para deslocar profissionais de saúde de um grande centro emergencial de atendimento a outro, por exemplo, ou para que suspeitos de terem contraído o vírus possam ir até pontos de triagem. O planejamento do transporte deve se adaptar às necessidades emergenciais da sociedade. Importante atentar para condições especiais de limpeza e proteção de motoristas e cobradores nos veículos, bem como de higienização de pontos de ônibus e terminais com grande circulação de pessoas, como diversas cidades estão fazendo.

<p>Profissional faz limpeza em terminal de ônibus de Curitiba</p>

Processo de limpeza realizado nos terminais de ônibus em Curitiba (foto: Luiz Costa/SMCS)

No Brasil, os sistemas urbanos de transporte coletivo tendem a ser dimensionados para uma taxa de ocupação de seis passageiros em pé por metro quadrado, enquanto alguns países desenvolvidos, onde o serviço é subsidiado, praticam taxas de quatro ou ainda menores. Na prática, nossos ônibus disputam espaço com os carros no congestionamento e não conseguem manter a tabela horária, com isso a ocupação chega a ultrapassar oito passageiros em pé por metro quadrado.

Será um grande desafio dimensionar as linhas para que as pessoas ocupem os veículos da maneira recomendada pelos órgãos de saúde em cenários distintos de restrição de atividades de comércio e serviços. Antes de alterar a oferta de transporte, é necessário entender a demanda do dia, sob o risco de ocorrerem aglomerações em locais de embarque e desembarque ou dentro dos veículos. Algumas cidades estão trabalhando com frotas reservas de prontidão para atender demandas inesperadas e evitar a superlotação. No futuro, com o uso de big data, será possível realizar ajustes muito pontuais na oferta de serviços de mobilidade urbana.

Outro aspecto que sobressai na gestão desta crise é a dificuldade de coordenação nas áreas metropolitanas. Apesar da conurbação ter levado ao desaparecimento das fronteiras entre as cidades, ainda não contamos com autoridades que possam gerir o transporte tal como ele funciona: em escala metropolitana. Observa-se no mesmo território diferentes autoridades reagindo cada uma ao seu modo. Há exemplos tanto de cidades que mantiveram os serviços a pleno, quanto que suspenderam por completo. Municípios que interromperam tarifas especiais ou acesso aos idosos, vizinhas de outras que não adotaram medidas semelhantes. Talvez, passada a crise, as autoridades e operadores vão se convencer da urgência em estabelecer a gestão de toda a oferta de transporte na escala metropolitana.

O transporte coletivo precisa sobreviver

A palavra “crise” já era muito presente na realidade do transporte coletivo urbano sobre pneus. Sistemas de ônibus vem enfrentando, ano após ano, perdas importantes no volume de passageiros transportados. A pandemia veio apenas agravar o quadro. Consulta aos participantes do Grupo de Benchmarking QualiÔnibus, coordenado pelo WRI Brasil com a participação de mais de 15 cidades, indica que a queda no número de passageiros após as medidas de isolamento social foi de 75% em média.

Na última quinta-feira, a Frente Nacional de Prefeitos (FNP) enviou ofício ao presidente da República, Jair Bolsonaro, pleiteando que o governo federal invista R$ 2,5 bilhões ao mês no transporte coletivo para que as cidades possam enfrentar a crise. A entidade leva em consideração que o sistema está atuando com cerca de 20% da demanda, mantendo 60% da oferta anterior. Junto ao pedido foi anexada uma proposta emergencial de aquisição de créditos eletrônicos de transporte (passagens) pelo Governo Federal apoiada por entidades do setor. Esses bilhetes antecipados poderiam ser destinados aos programas sociais do governo para utilização futura.

Na esteira das grandes transformações humanas que resultarão do atual cenário, não basta apenas continuar investindo no sistema como o conhecemos. Se precisamos salvar o transporte coletivo – e sobre isso não resta dúvida –, que seja a partir da eficiência trazida pela integração dos sistemas ao nível metropolitano, tanto física quanto tarifária. Através da captação de recursos para o setor por meio da cobrança das externalidades negativas (como congestionamento e poluição do ar) causadas pelo transporte motorizado individual e da melhoria da qualidade do serviço coletivo pela eletrificação da frota. Com uma operação mais regular e previsível para as pessoas (um dos principais atributos reivindicados pelos clientes nas pesquisas que realizamos em várias cidades brasileiras), decorrente da destinação de espaço exclusivo para a circulação de ônibus nas principais avenidas das cidades. Esse é um debate que deveria ocorrer nas próximas eleições municipais.

A mobilidade urbana precisa mudar

A pandemia mostra o quanto somos frágeis e interconectados, ao mesmo tempo em que deixa ainda mais nítido o valor da vida. Hoje, a prioridade é conter o vírus e salvar as pessoas. Quando vencermos essa batalha, permanecerá a urgência de tornar as cidades mais resilientes, equitativas e de baixo carbono. Quem sabe o distanciamento forçado da irresistível dinâmica urbana também provoque uma reflexão sobre o impacto das escolhas de mobilidade.

Para avançarmos, paradigmas precisarão ser vencidos, entre eles a criação de novas fontes de financiamento para o transporte coletivo (cobrança pelo uso do automóvel é um exemplo), um aumento significativo de faixas viárias destinadas aos ônibus, o uso de big data para o planejamento e controle, novas formas de contratação de operadores (separar a compra e propriedade dos veículos da operação do serviço), a integração dos serviços por aplicativos com o transporte coletivo e uma gestão única da mobilidade na dimensão metropolitana.

Pode ser que ao experimentar um ar mais limpo, a viabilidade do home office, a redução de mortes no trânsito e reconhecer a capacidade de mudarmos tanto em tão pouco tempo, despertaremos para ações coletivas capazes de transformar as cidades para melhor.


Este post faz parte de uma série de conteúdos produzidos a partir dos debates possibilitados pelo Grupo de Benchmarking QualiÔnibus. O Programa QualiÔnibus é desenvolvido pelo WRI Brasil com o apoio financeiro e conceitual da FedEx Corporation e tem o objetivo de qualificar o transporte coletivo por ônibus nas cidades brasileiras. Leia mais conteúdos sobre o programa aqui.

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