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Coreia do Sul concilia enfrentamento à Covid-19 e aumento da ambição climática

Este post foi publicado originalmente no WRI Insights.


A resposta da Coreia do Sul à Covid-19 está entre as mais eficazes do mundo. Ao combinar testagem intensa com isolamento e tratamento precoces daqueles que testam positivo para o novo coronavírus, a Coreia do Sul reduziu sua taxa de infecção, evitando a necessidade de bloquear cidades inteiras. O governo reorganizou hospitais para prevenir infecções, distribuiu efetivamente máscaras e cobrirá todos os custos médicos relacionados à Covid-19. Depois de atingir cerca de 800 novos casos por dia em março, em 28 de abril a Coreia do Sul tinha chegado ao patamar de só 14 casos diários.

Ao mesmo tempo, a Coreia do Sul demonstrou grande ambição no enfrentamento das mudanças climáticas. Em março, o governo do Partido Democrata da Coreia do Sul apresentou uma proposta de campanha para zerar as emissões líquidas até 2050. Especialistas dizem que é necessário atingir emissões líquidas zero para evitar as consequências mais danosas das mudanças climáticas. O manifesto da campanha sugeriu estabelecer um preço para o carbono, interromper o financiamento do carvão e ampliar as energias renováveis ​​como caminhos para chegar ao objetivo.

O partido obteve uma vitória esmagadora nas eleições legislativas em 15 de abril e agora pode transformar essa promessa em realidade. Isso tornaria a Coreia do Sul o primeiro país da Ásia com uma meta de zero emissões líquidas.

A Coreia do Sul agora tem uma grande oportunidade: se seguir a proposta de campanha, servirá de exemplo para outros países sobre como lidar com a Covid-19 enquanto toma ações climáticas ambiciosas. Isso não apenas posicionaria o país como líder climático, mas também abriria caminho para uma recuperação econômica sustentável e de longo prazo após a pandemia.

Depois de adotar estímulo econômico sustentável em 2009, a Coreia do Sul vai liderar novamente?

Em 2009, a Coreia do Sul respondeu à crise financeira global anunciando US$ 60 bilhões em gastos com estímulos para medidas sustentáveis, como restauração de rios e florestas, transporte ferroviário, eficiência energética e veículos com baixo consumo de combustível. Os gastos verdes representaram cerca de 69% de seus pacote de estímulo¹, que conteve a maior proporção de estímulos verdes em relação a estímulos totais de qualquer país do mundo (embora US$ 20 bilhões tenham sido gastos em um controverso projeto de restauração de rios que envolvia a construção de barragens). Em parte devido ao pacote de estímulo verde, o aumento da taxa de desemprego na Coreia do Sul do final de 2008 até o final de 2009 foi o mais baixo da OCDE, um grupo de economias de alta e média renda. O PIB da Coreia do Sul também se recuperou da crise econômica mais rápido do que o esperado e mais rápido que a OCDE como um todo. Pesquisas posteriores sugeriram que a Coreia do Sul poderia ter criado ainda mais empregos se, no lugar da barragem controversa, tivesse investido mais em energia renovável.

<p>gráfico mostra como investimento verde é mais alto na Coreia do que a média da OCDE</p>

Coreia do Sul recuperou o PIB mais rapidamente do que qualquer outro país da OCDE após a crise financeira global de 2009, em parte devido aos estímulos econômicos em medidas sustentáveis.


Hoje, a Coreia do Sul tem a chance de fazer sua recuperação econômica da pandemia da Covid-19 parte da transição para um futuro de carbono líquido zero. A maior parte da resposta do governo até agora se concentrou na estabilização do sistema financeiro, na promoção de bons cuidados de saúde e no apoio a famílias e empresas, mas também há alguns gastos preocupantes em combustíveis fósseis. As instituições financeiras públicas concederam um empréstimo de emergência de US$ 825 milhões para resgatar a Doosan Heavy Industries, cuja receita é 80% proveniente de usinas de carvão. Os ativistas ambientais observaram que a Doosan estava em crise financeira muito antes da Covid-19, com o preço de suas ações caindo 93% entre 2010 e 2019. Enquanto a Coreia do Sul pensa no plano de recuperação econômica de longo prazo, deverá refletir sobre os resultados de 2009 e considerar cuidadosamente como pode usar a recuperação econômica para acelerar a transição de baixo carbono e resiliência climática de que o país precisa. Em um pequeno sinal inicial de estímulo verde, a Coreia do Sul aumentou o subsídio para painéis solares residenciais e comerciais, mas muito mais pode ser feito.

O país está em posição de dobrar seu compromisso de baixo carbono, ao mesmo tempo em que garante recuperação econômica após a Covid-19. Duas ações podem ajudar a chegar lá:

1. Fim do financiamento do carvão

Como parte do manifesto de zerar emissões líquidas, a Coreia do Sul prometeu encerrar o financiamento internacional e doméstico do carvão. Este seria um passo extremamente importante, porque o carvão é o ponto em que a Coreia do Sul ainda está atrasada em relação às mudanças climáticas, além de apoiar a Doosan. A Coreia do Sul é um dos três maiores fornecedores de financiamento internacional de carvão por meio de créditos à exportação, junto com o Japão e a China. De 2013 a agosto de 2019, instituições públicas coreanas financiaram US$ 5,7 bilhões em usinas de carvão em países como Vietnã, Indonésia e Bangladesh, com capacidade de 7 gigawatts. Pesquisas recentes avaliaram 10 das usinas no exterior financiadas pela Coreia do Sul e descobriram que, ao longo de sua expectativa de vida útil de 30 anos, as usinas devem causar mais de 47 mil mortes prematuras. Este é um desastre climático e de poluição do ar. Para piorar as coisas, a Coreia do Sul está considerando 4,5 gigawatts a mais de usinas de carvão no exterior.

Internamente, a Coreia do Sul ainda depende muito do carvão, mas está começando a virar a página. A poluição do ar causada pelo carvão está mais presente na opinião pública e está claramente se tornando uma prioridade para o governo. A Coreia do Sul encerrou temporariamente cerca de metade de suas usinas a carvão em março para reduzir a poluição do ar. Também introduziu uma resolução da ONU que designa 7 de setembro de 2020 como o Dia Internacional do Ar Limpo para Céus Azuis.

A expansão desses esforços para acabar com o financiamento internacional de carvão pode causar um impacto significativo na poluição do ar na Coreia do Sul e no mundo. O Japão e a China devem seguir o exemplo da Coreia do Sul e começar a fazer planos sérios para encerrar seu financiamento ao carvão.

Afastar-se do carvão é especialmente urgente durante esta pandemia. Pesquisas iniciais descobriram que locais com alta poluição do ar têm maiores taxas de mortalidade por Covid-19. Manter o carvão agora seria ruim para a saúde pública, ruim para o clima e ruim para os negócios. Já é mais barato investir em novas energias renováveis ​​do que em carvão na Coreia do Sul e, dentro de alguns anos, será mais barato construir novas usinas limpas ​​do que continuar operando as usinas de carvão existentes. A Coreia do Sul teve um início lento em energia renovável em comparação com alguns outros países, mas espera aumentar a participação de fontes renováveis ​​para atingir 20% até 2030, e pode aumentar ainda mais isso como parte do plano de zero emissões líquidas. Isso só será possível se mudar o rumo em relação ao carvão.

2. Aprimorar sua NDC

Para se alinhar com a meta de emissões líquidas zero em 2050, a Coreia do Sul precisa aumentar sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) para 2030 sob o Acordo de Paris. Sua promessa atual de reduzir as emissões em 37% abaixo do normal em 2030 foi avaliada como muito insuficiente em termos de ambição.

A NDC da Coreia do Sul sob o Acordo de Paris é muito menos ambiciosa do que o prometido em 2009 sob o Acordo de Copenhague. A NDC permitiria que as emissões da Coreia do Sul fossem 81% acima das emissões de 1990 em 2030. Apesar de ter estabelecido um nível baixo, a Coreia do Sul não está no caminho certo para atingir esse insuficiente objetivo. O caminho para o zero líquido em 2050 deve passar por 2030 e pela meta da NDC, portanto, será essencial que a Coreia do Sul mostre substancialmente mais ambição em seus objetivos de curto prazo. O país deve aprovar novas políticas climáticas em energia, transporte, uso da terra e indústria para seguir o caminho de sua visão de zeras emissões líquidas.

Potencial da Coreia do Sul para reconstruir melhor

Mesmo em meio ao surto de Covid-19, o clima tem sido uma parte importante da política nacional na Coreia do Sul, então está na hora de mudar. Uma pesquisa antes da eleição constatou que três quartos dos coreanos disseram que votariam em partidos que prometessem responder às mudanças climáticas. Uma pesquisa de candidatos à eleição em Seul encontrou amplo apoio a uma forte resposta à crise climática em todos os partidos.

Embora haja espaço para melhorar em termos de financiamento do carvão e a partir de uma NDC forte, a Coreia do Sul já está intensificando sua resposta à crise climática por meio de suas parcerias. Elas incluem o Fundo Verde para o Clima, que ajuda os países em desenvolvimento a reduzir as emissões e aumentar sua resiliência aos impactos climáticos, e o Instituto Global de Crescimento Verde, que apóia o desenvolvimento econômico socialmente inclusivo e ambientalmente sustentável. A Coreia do Sul também sediará a cúpula Parcerias para o Crescimento Verde e as Metas Globais 2030 (P4G), adiada para 2021. Espera-se que essa cúpula seja um importante trampolim para a COP26.

A resposta à Covid-19 da Coreia do Sul, o compromisso de zerar emissões líquidas e as parcerias ambientais devem servir de inspiração para os países ao redor do mundo que desejam atingir as metas de saúde, econômicas e ambientais. O país estabeleceu um padrão alto para o que deseja alcançar até 2050. Mas, para ver o sucesso e consolidar seu lugar como líder global, o governo precisa enfrentar os obstáculos atuais à ação climática e persistir no caminho certo.


  1. Dados comumente citados sobre o estímulo da Coreia do Sul em 2009 colocam sua porcentagem de estímulo verde em cerca de 80% do total, mas isso não inclui outro estímulo anunciado pela Coreia do Sul em novembro de 2008. Este pacote adicional reduz a participação total para 69%, que ainda é o máximo de qualquer país.
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