Você está aqui

5 estratégias para ao mesmo tempo mitigar e se adaptar às mudanças do clima

Este blog foi publicado originalmente no Insights.


A ação climática geralmente se concentra em uma de duas estratégias: os esforços de mitigação para reduzir ou remover gases de efeito estufa da atmosfera e os esforços de adaptação para ajustar sistemas e a sociedade para enfrentar os impactos das mudanças climáticas. Essa separação leva a uma visão desinformada de que enfrentar as mudanças climáticas significa ou mitigação, ou adaptação.

Essa divisão é contraproducente e perigosa, especialmente para vilarejos costeiros, produtores rurais, pequenas nações insulares e outras comunidades nas fronteiras dos impactos climáticos. A realidade é que adaptação e mitigação são dois lados da mesma moeda. Métodos e tecnologia que ao mesmo tempo reduzem as mudanças do clima e lidam com seus impactos já existem.

Não é sempre possível ou prático trabalhar apenas em ações que são ao mesmo tempo adaptativas e mitigatórias. Mas onde essas ações fazem sentido, governos e comunidades deveriam persegui-las. Abaixo, selecionamos cinco soluções que podem ao mesmo tempo limitar as mudanças climáticas e nos ajudar a lidar com seus impactos:

1. Proteger áreas úmidas costeiras

Manguezais, marismas, e ervas marinhas são ecossistemas únicos que funcionam como sistema de filtro natural da água e habitat marinho. Eles defendem o litoral contra o aumento do nível do mar ao proteger as áreas de tempestades e enchentes, e armazenam toneladas de carbono em suas raízes e solos. Florestas de mangue atualmente armazenam o equivalente a mais de dois anos de emissões globais, que seriam liberadas na atmosfera, piorando os efeitos das mudanças climáticas, se essas florestas forem destruídas.

Aumentar a proteção das áreas úmidas costeiras e recuperar cerca de 40% da cobertura global desse tipo de bioma até 2050 poderia mitigar uma gigatonelada de CO2 por ano – o equivalente a três anos de emissões. Esforços para manter as áreas úmidas costeiras devem incluir as comunidades que dependem desses ecossistemas para suas casas e meios de vida. Países como Fiji e Papua Nova Guiné têm experiências de sucesso com conservação baseada na comunidade e educação para manejar essas áreas úmidas, apoiando o desenvolvimento das comunidades.

2. Promover os benefícios da agrofloresta sustentável

Com a mudança do uso da terra para silvicultura e agricultura representando cerca de 25% das emissões de gases de efeito estufa antropogênicas, está claro que a forma atual de manejar a terra precisa ser modificada. Práticas de agrofloresta integram diversos tipos de árvores e arbustos com lavoura e pecuária. Em particular, pastos com árvores podem sequestrar de 5 a 10 vezes mais carbono do que pasto sem árvores. Produtores rurais podem ser mais produtivos ao plantar e criar animais ao mesmo tempo usando menos terra. A diversificação da produção pode permitir que o agricultor tenha novas fontes de renda e possa reduzir riscos causados por mudanças climáticas. Expandir o uso dos sistemas agroflorestais pode resultar em ganhos financeiros coletivos para produtores de mais de US$ 699 bilhões em diversificação de receita.

<p>Gado pastando em sistema silvipastoril</p>

Adicionar árvores em áreas de pasto pode ajudar o agricultor a diversificar sua renda e permitir que a terra capture carbono (foto: USDA/Flickr)

3. Descentralizar a distribuição de energia

A variabilidade climática impactará negativamente a transmissão de energia e infraestrutura de distribuição dos países. Ao mesmo tempo, desenvolvimento e crescimento populacional estão aumentando a demanda por energia. Sistemas de energia centralizados, com grandes usinas e infraestrutura conectada por longas distâncias, são mais vulneráveis às mudanças climáticas, já que interrupções em um ponto do sistema podem afetar a rede inteira.

Sistemas descentralizados – em geral funcionando a base de energia renovável, com linhas de transmissão mais curtas e áreas de distribuição menores – são mais resilientes. No caso de um desastre, uma comunidade com seu próprio fornecimento de energia não é afetada por apagões em outras áreas. Tecnologias de baixo carbono como painéis solares e baterias também fornecem energia limpa e confiável para serviços críticos como hospitais em áreas remotas que não estão conectadas com a rede ou que enfrentam muitas quedas de energia.

<p>Trabalhadores instalam painel solar</p>

Instalar painéis solares em clínicas hospitalares em áreas rurais, como essa em Ruanda, tornam serviços de energia mais resilientes aos impactos de eventos climáticos extremos (foto: Walt Ratternman/Sunepi)

4. Assegurar os direitos dos povos indígenas

Povos indígenas e comunidades locais manejam quase 50% da terra no planeta, com cerca de 2,5 bilhões de pessoas dependendo dessas terras para suas vidas. Essas comunidades praticam princípios de adaptação em suas terras por gerações, desenvolvimento um profundo corpo de conhecimento tradicional que pode nos ajudar a entender como adaptar a um ambiente desafiador. Além disso, locais em que povos indígenas tem o direito legal a terra têm uma taxa de desmatamento duas vezes menor, como observado em países como Bolívia, Brasil e Colômbia. Povos indígenas e comunidades locais protegem as florestas que armazenam um quarto de todo o carbono acima do solo em florestas tropicais. Ainda assim, essas comunidades possuem legalmente menos de um quinto das terras. Assegurar o direito a terra para os povos indígenas pode garantir que eles mantenham suas terras, protejam recursos naturais e melhorem o seu sustento diante das mudanças climáticas.

5. Melhorar os sistemas de transporte coletivo

O transporte rodoviário é responsável por 72% das emissões globais relacionadas a transporte, uma porcentagem que continuará crescendo a não ser que mais opções de baixo carbono se tornem disponíveis e acessíveis. A infraestrutura do transporte é também extremamente vulnerável aos impactos das mudanças climáticas como tempestades e calor extremo. Interrupções na rede de transporte por conta de eventos extremos afetarão desproporcionalmente a população de baixa renda e outras populações mais vulneráveis e com menor quantidade de opções de mobilidade. Resiliente, o transporte coletivo de baixo carbono enfrenta os dois desafios.

Expandir o transporte público urbano em 40% até 2050 pode diminuir o número de carros nas estradas e evitar a emissão de 6,6 gigatoneladas de carbono. Renovar e redesenhar o transporte coletivo de alta capacidade para suportar riscos climáticos como desastres naturais, aumento do nível do mar ou ondas de calor extremo, garante que as opções de transporte sejam seguras e confiáveis no longo prazo. Essas melhorias podem influenciar o uso e melhor acomodar o crescimento futuro. Cidades como Roma e Bueno Aires integraram medidas adicionais de adaptação, como ônibus resistentes ao calor e pontos de parada verdes para melhorar a experiência da população com o transporte coletivo. Aumentar o transporte público também tem o benefício adicional de reduzir congestionamentos, acidentes e fatalidades, melhorando a qualidade do ar.

<p>Ponto de ônibus em Buenos Aires</p>

Ônibus e estações melhorados em Buenos Aires encorajam residentes a escolherem transporte coletivo de baixo carbono (foto: Governo de Buenos Aires)

Priorizando soluções climáticas que são multitarefas

Esses são apenas alguns exemplos de ações climáticas que abordam ao mesmo tempo as questões de adaptação e mitigação. Muitas outras existem e podem acomodar diferentes setores, biomas, países e comunidades. A crise climática é massiva e urgente. Dado o limite de recursos e atenção a ser alocada para resolver o problema, tomadores de decisão precisam priorizar esforços integrados.

ShareThis Button: 

Share

Fique Conectado

Receba nossa newsletter

Receba os últimos comentários, eventos, publicações e recursos multimídia.